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Publicado em: 09/09/2021 | Atualizado em: 14/09/2021

Publicado o segundo volume do projeto “Páginas Paisagens Luso-Brasileiras em Movimento”

Paula Guatimosim

Página inicial da plataforma do projeto “Páginas Paisagens
Luso-Brasileiras em Movimento”, que ganhou três livros.

Uma coletânea de estudos sobre obras literárias de autores brasileiros e portugueses, da Idade Média ao século XX, tendo como eixo comum de abordagem as paisagens nelas descritas. Esse é o objetivo central do projeto “Páginas Paisagens Luso-Brasileiras em Movimento” (http://www.paginasmovimento.com.br), desenvolvido pelo Polo de Pesquisas Luso-brasileiras (PPLB), sediado no Real Gabinete Português de Leitura e organizado por um grupo interdisciplinar de colaboradores convidados (http://www.paginasmovimento.com.br/pesquisadores.html) das áreas de Letras, História e Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a colaboração de outras instituições brasileiras e estrangeiras. 

Em sua primeira fase, o projeto ganhou uma plataforma on-line, financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), em Lisboa, em parceria com o Real Gabinete Português de Leitura. Com recursos do programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, a coordenadora Ida Alves, professora de Literatura Portuguesa do Instituto de Letras da UFF, organizou a coleção “Paisagens em movimento: Rio de Janeiro e Lisboa, cidades literárias”, composta por três livros. Segundo Ida, a publicação em livro amplia o que já estava sendo disponibilizado em formato mais simples na plataforma eletrônica do projeto, que atrai o leitor não especialista, com acesso livre a todos que se interessam pelas literaturas de língua portuguesa e pelos estudos contemporâneos de paisagem.

Na plataforma, a produção constante de estudos sobre diferentes obras literárias brasileiras e portuguesas, a organização de cursos de extensão e a realização de atividades diversas oferecem a professores e estudantes a compreensão de abordagens contemporâneas da paisagem e a importância de sua presença nos textos literários como via de diálogo interdisciplinar e de conhecimento mais efetivo das cidades, seu cotidiano e mudanças ao longo do tempo. “Trabalhamos em prol de estudos interdisciplinares que focalizem as relações luso-brasileiras com perspectiva teórica e crítica atualizada. Em parceria com a UFF, Uerj e UFRJ, e com a colaboração de colegas de outras universidades brasileiras e estrangeiras, sobretudo Portugal, França e Estados Unidos, desejamos ainda sedimentar o Real Gabinete Português de Leitura, essa instituição centenária sediada no Rio de Janeiro, como um polo irradiador de pesquisas sobre as representações da paisagem nas literaturas de língua portuguesa”, diz Ida. 

Capa do segundo volume da coletâbea,
organizado por Ida Alves e Andreia Castro.

Os ensaios que compõem os três livros analisam como as cidades de Lisboa e Rio de Janeiro se fazem presentes nas obras de alguns escritores portugueses e brasileiros. “Em cada texto é como se você estivesse folheando a obra analisada e vendo suas paisagens”, explica Ida. O conjunto de textos acadêmicos reflete diferentes abordagens teóricas e metodológicas sobre a relação entre literatura e geografia ou entre escrita literária e a experiência citadina, a vivência dos espaços urbanos. “Por meio dos textos literários, pretendemos abrir janelas para pensar memória, patrimônio, ocupação dos espaços naturais e urbanos, questões múltiplas sobre o homem e o espaço geográfico”, acrescenta. O primeiro volume, publicado em 2020, foi organizado por Ida e pelo professor de Literatura Portuguesa no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Eduardo da Cruz. O segundo volume, recém-lançado, organizado por Ida Alves e pela professora de Literatura Portuguesa e de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa no Instituto de Letras da Uerj, Andreia Castro, dá continuidade aos trabalhos reunidos no primeiro, oferecendo novas leituras das paisagens urbanas do Rio de Janeiro e Lisboa, cidades com fortes ligações na história e pela língua, em movimento no espaço e no tempo. Veja o sumário com as obras analisadas em Lista-obras-autores-volume2 (PDF)..

“Há muitas formas de se relacionar com uma cidade, com diferentes percepções de seu espaço, sua gente e seu imaginário. Elas variam conforme as condições de quem a observa; se é natural daquele lugar, migrante ou turista; o ponto de onde se olha e os variados deslocamentos traçados na malha urbana; o período histórico”, explicam os organizadores da obra.

Segundo os estudos dos pesquisadores, os ensaios que compõem a série de três livros são justamente dedicados a analisar como essas duas cidades se fazem presentes nas obras de alguns escritores portugueses e brasileiros do século XIX à contemporaneidade, num diálogo múltiplo e diverso. No volume dois, ao abordar o cenário carioca, o professor da Uerj Marcus Vinicius Nogueira Soares aponta o Rio de Janeiro que emerge da obra de José de Alencar “como um espaço marcado pelo conflito de classe fundamentado na própria estrutura de uma cidade que rapidamente se modificava”. Já a professora da Uerj, Andreia Alves Monteiro de Castro, observa que, em suas crônicas, “Olavo Bilac, na virada do século, descreveu a paisagem urbana, criticando, com frequência, o antigo frente ao novo, com o intuito de legitimar, a qualquer custo, a transformação do Rio de Janeiro em uma moderna metrópole cosmopolita”.

José de Alencar (dir.) e Olavo Bilac são dois dos escritores brasileiros
cujas obras foram analisadas pelos professores que integram o projeto.

A professora Maria Aparecida Ribeiro, da Universidade de Coimbra, em Portugal, comprova que, no Brasil dos “anos de chumbo”, Carlos Drummond de Andrade celebra e eterniza as riquezas das paisagens física, humana e cultural da cidade, mas também denuncia as grandes mazelas presentes no Rio de Janeiro. Professora da Universidade Estadual de Londrina, Regina Célia dos Santos Alves destaca que a paisagem urbana em Fala, amendoeira, de Drummond, “é percebida a partir da rua, dos meandros, de uma experiência, vivência subjetiva e particular da cidade”. Mais próximo da atualidade, o professor de Literatura Brasileira na Uerj, Leonardo Davino de Oliveira, comprova que “também é sonora, musical e cheia de contrastes a paisagem da (auto)biografia carioca de Caetano Veloso”. No último dos artigos sobre a paisagem carioca, a escritora e professora de Publicidade e Propaganda e de Cinema da Estácio, Claudia de Azevedo Miranda, expõe como João Paulo Cuenca manifesta sua insatisfação com o Rio através do olhar de seu personagem/narrador que se depara com as ruínas da capital pré-olímpica, questionando a violência enfrentada pelos mais vulneráveis e o tédio experimentado nas bolhas sociais que ele frequenta.

Do lado português, Lisboa é sentida, subjetivamente criada e textualmente vivida na segunda parte desse segundo volume.  A professora do Ensino Fundamental e Capacitação Docente na Secretaria Municipal de Educação, Elisabeth Fernandes Martini, indica que, enquanto o escritor Fialho de Almeida oferece ao seu leitor uma “fotografia completa” da cidade, José Rodrigues dos Santos pode despertar o turista que há nos leitores e ajudar a promover a redescoberta e a revalorização do patrimônio cultural português pelos itinerários ficcionais ou factualmente percorridos por autores consagrados. Para Ana Cláudia Salgueiro da Silva, professora da Universidade de Évora, a obra de José Rodrigues dos Santos instiga aqueles que passeiam em suas páginas a conhecer paisagens lisboetas pelos itinerários ficcionalizados ou factualmente percorridos por autores consagrados. As geografias lisboetas traçadas por Fernando Pessoa são analisadas pela professora da UFRJ, Monica Figueiredo, que apresenta, a par e passo, a paisagem poética, “lugar de abrigo do real, da concretude da vida”, e a paisagem que o “turista deve ver”, descrita no guia turístico, produzido em inglês, datilografado e deixado inacabado pelo poeta.

Para a professora da UFRJ, Luci Ruas, doutora em Literatura Portuguesa, o percurso traçado pelo escritor José Cardoso Pires, em Lisboa, livro de bordo, é um exercício do olhar e do pôr-se à distância para pensar e refletir. Já a professora de Língua Portuguesa do Instituto Federal da Bahia Juliana Santos Menezes analisa e compara as representações literárias da cidade presentes em O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago, e Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, obras que oferecem temas que contextualizam o espaço citadino e contribuem para a construção da imagem de Lisboa.

A coletanea esclarece a função e a importância da descrição de
paisagens em obras ficcionais, diz a coordenadora Ida Alves.

“A série de volumes que estamos publicando responde com mais embasamento teórico e minúcia de análise à pergunta sobre a função e importância da descrição de paisagens em obras ficcionais. A literatura dá a ver mundos. Estudá-la é também perceber que paisagens naturais ou urbanas se tornam, em cada obra, um núcleo gerador de sentido. Não se trata apenas de paisagens descritas, mas como certas articulações de imagens de lugares, regiões, cidades determinam uma cartografia de sentidos, possibilitando interpretação e compreensão da relação entre sujeito e mundo”, esclarece Ida.

Na parte final do livro, Rio, Lisboa e Paris se cruzam pelo olhar estrangeiro. Estudo da professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Raquel S. Madanêlo Souza demonstra como Mário de Sá-Carneiro estabelece um contraponto ao representar a paisagem parisiense como um corpo sensual, voluptuoso, festivo, com a lisboeta, configurada como uma cidade estreita, melancólica, amarela e provinciana. O mestrando em Letras Vernáculas, Lucas Teixeira Barbedo, e o doutor em Ciência da Literatura Marcus , Rogério Salgado, ambos da UFRJ, abordam como as impressões do brasileiro Nestor Victor sobre a “Capital do Mundo” apontam que, se a urbanização do Rio de Janeiro era uma fantasia, Paris também se revelava, quando observada empiricamente e ao rés do chão, como uma fantasia sustentada pela literatura, pelos dioramas e pelos cartões-postais, ou por museus e salões. No final deste segundo volume, a professora de Literatura Brasileira e Literatura Comparada da UFF, ensaísta e crítica literária, Ângela Maria Dias analisa a “paisagem desoladora configurada pelo olhar derrotado de um personagem de Luiz Ruffato, que arrisca tudo para tentar a vida em Portugal, vivendo em Lisboa”.

O terceiro volume da coletânea, já em fase de edição, volta a ser organizado por Ida e Eduardo Cruz e traz mais estudos sobre textos literários que abordam as cidades do Rio de Janeiro e Lisboa. São ensaios que reúnem o rigor de análise e o domínio metodológico na matéria (obras literárias) sem impedir uma linguagem sedutora sobre diferentes obras literárias brasileiras e portuguesas. São cerca de vinte estudos que tratam de obras dos séculos XIX, XX e XXI, prosa e poesia. “Mesmo o leitor não especializado poderá se interessar por esses estudos que provocam pensar como as cidades são recriadas pela escrita e como constituem paisagens diversas. Nesse sentido, dizer ‘paisagem’ é dizer o resultado de um ponto de vista sobre um espaço que se vive também por meio da linguagem”, explicam os organizadores do volume. O acervo de obras examinadas, de escritores de diferentes épocas, do Brasil e de Portugal, forma uma biblioteca em movimento que o leitor que visita a plataforma do projeto pode acessar como desejar. Também professores de diferentes disciplinas, sobretudo do ensino médio, podem utilizar esse acervo eletrônico, a partir de textos literários fartamente acompanhados de imagens, como motivação para atividades criativas ou de estudo sobre determinados conteúdos, motivando certamente o prazer da leitura.

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