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Publicado em: 26/08/2021

Mudanças climáticas afetam espécies de lagartos

Juliana Passos

A espécie Glaucomastix abaetensis é típica da região de restinga e está
entre as afetadas pelas mudanças climáticas (Foto: Moacir Tinoco)

Cadeias montanhosas que formaram refúgios para espécies, grande quantidade de chuvas, variedade de vegetação, mangues e restingas. Elementos que tornam o Rio de Janeiro um estado que concentra uma grande biodiversidade na Mata Atlântica presente em território fluminense. É nesse ambiente rico, mas não imune a prejuízos, que o pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Ibrag/Uerj) Carlos Frederico Rocha se dedica a identificar e monitorar espécies de répteis e anfíbios há mais de três décadas, com a ajuda de equipe de seu laboratório. Como resultado, nesse período, o grupo de pesquisa publicou cerca de 500 estudos entre artigos, livros e capítulos de livro, fruto do trabalho conjunto com seus alunos de Iniciação Científica, mestrandos, doutorandos e Pós-docs, grande parte deles subsidiados com bolsas da FAPERJ e com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

"Você não conserva o que não sabe que existe e, tampouco, se desconhece em que situação estão as espécies", afirma o pesquisador. Entre seus trabalhos mais recentes publicados está o inventário de espécies do Parque Nacional da Tijuca, publicado em 2021 na revista Biota Neotropica. Na coleta de dados realizada entre 2013 e 2015, fruto do trabalho de doutorado de Tiago Dorigo e equipe, foram encontrados 3.288 indivíduos, sendo 24 espécies de anfíbios e 25 de répteis. Destas, 80% são endêmicas, no caso dos anfíbios, contra apenas 28% entre os répteis. "A considerável diversidade da herpetofauna do Parque Nacional da Tijuca, que inclui espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, reflete a eficácia do reflorestamento dessa unidade de conservação e enfatiza a importância de sua conservação", escrevem os autores no artigo e se referindo ao reflorestamento iniciado no século XIX.

Coordenador do Laboratório de Ecologia de Vertebrados, vinculado ao Ibrag/Uerj, o biólogo concentra as atividades de monitoramento de espécies na Ilha Grande, para as quais conta com recursos de diversos editais lançados pela FAPERJ ao longo dos anos. Entre os financiamentos obtidos da Fundação e que estão em vigor, Rocha tem o apoio do programa Cientista do Nosso Estado. O trabalho também ocorre em parceria com o Instituto de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para a realização de ações conjuntas de conservação das espécies.

Se a Floresta da Tijuca trouxe boas notícias por conta do reflorestamento, não é possível dizer o mesmo sobre a população de lagartos. De um total de 11 mil espécies conhecidas ao redor do globo, 800 ocorrem no País e 300 são de lagartos, o que coloca o Brasil na terceira posição no ranking de biodiversidade desses animais. No entanto, mais de 10% deste total estão ameaçadas de extinção e constam na Lista Oficial da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Ministério do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (MMA).

E não é apenas o desmatamento e a consequente destruição do habitat desses animais que preocupa os pesquisadores. Em 2010, os pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Vertebrados integraram um estudo internacional publicado na revista Science em que relacionam as mudanças climáticas com a diminuição da população destes animais. “Se as previsões que temos de que até 2080 o mundo perderá cerca de 20% das espécies de lagartos, caso não sejam revertidas as atuais taxas de emissão de gases do efeito estufa, isso implica dizer que é previsto perdermos, apenas no Brasil, cerca de 60 espécies de lagartos, um número muito elevado pela sua importância na natureza”, argumenta.

O pesquisador explica que a temperatura corporal desses animais é bem regulada pelo ambiente externo e em situações em que há uma elevação, os lagartos recorrem às sombras para se preservarem o significa um tempo reduzido para a caça, alimentação e outras funções vitais. “Um ponto importante de ser destacado é que diferentes estudos têm mostrado o imenso valor das Unidades de Conservação (UCs) e das terras indígenas demarcadas, não apenas para proteger a biodiversidade ali existente, mas também como possuidoras de um importante papel para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas globais”, argumenta.

Carlos Frederico Rocha participa de etapa de coleta em campo de lagartos,
para medição de temperatura, na Ilha Grande (Foto: Arquivo pessoal)

Essa importância ganha maior destaque com o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), divulgado recentemente, e que reúne 234 especialistas no tema, de 195 governos. Rocha conta que o relatório alertou de forma preocupante sobre o grau com que as atividades humanas aqueceram o planeta, e que a taxa de aquecimento está se acelerando. Com isso, diferentes impactos agora já se tornaram concretos e passamos a viver em um planeta alterado e menos estável. “O grande risco é que nos aproximamos de um ponto em que os efeitos serão irreversíveis, pois os ecossistemas do planeta têm uma capacidade limitada para atenuar os efeitos dessas alterações climáticas. Cada vez mais dependemos de ações efetivas governamentais, coletivas e individuais para impedir um futuro pior para a vida na Terra”.

As pesquisas subsequentes confirmam o risco de extinção e alertam para outras espécies que também preocupam e não estão relacionadas em listas de espécies ameaçadas: as espécies dos gêneros Hylodes e Crossodactylus, também conhecidos como hilodídeos. A vida desses sapos está restrita à calha dos riachos e córregos em florestas. “Considerando sua efetiva área real de ocupação, mostramos que estas espécies deveriam ser realocadas para a categoria de ameaçadas”, afirma o pesquisador.

Outro trabalho ao qual Rocha tem se dedicado é à produção do trabalho “Convivendo com serpentes”, em co-autoria com a professora Jane Oliveira e que deverá resultar em um livro, cujo projeto foi contemplado pelo programa Apoio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ. Apesar do título chamativo, ele garante que a maioria destes animais ganhou má fama por conta das poucas espécies existentes venenosas, o que traz problemas para a manutenção de biomas. “Das cerca de 400 espécies de serpentes existentes no Brasil menos de 15% são das chamadas espécies venenosas”, explica e lamenta: “As serpentes são organismos com um papel muito relevante na cadeia alimentar dos ecossistemas em que vivem. O efeito da perseguição seguida de morte, afeta profundamente as populações de todas as espécies e pode trazer danos ambientais e danos econômicos graves como o descontrole populacional de suas presas”.

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