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Publicado em: 01/07/2021 | Atualizado em: 15/07/2021

Biólogo lança livro para tornar o ensino da botânica mais atraente

Paula Guatimosim

Capa do livro que desvenda características botânicas
de plantas que fazem parte do cotidiano dos alunos.

Foi na rotina docente que o biólogo Marcelo Guerra Santos se deu conta da dificuldade de alguns alunos em observar, pesquisar e entender as características das plantas. “Alface dá flor?”, foi uma das dúvidas que surgiram entre seus alunos dos cursos de licenciatura. Sim, alface floresce porque é uma angiosperma, ou seja, aquele grupo de plantas capazes de produzir flor e frutos. Ao longo de 20 anos de docência na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/Uerj), a maior unidade da universidade fora do campus Maracanã, o professor percebeu o quanto alunos da graduação traziam questões inesperadas, em princípio, óbvias, mas que surgiam como uma ruptura entre o conhecimento e a vivência cotidiana. “Há plantas que demoram décadas para florir, pois têm uma longa maturidade reprodutiva; outras já florescem em semanas”, esclarece.

O projeto do livro Fruta, verdura ou legume? Um guia sobre as plantas do nosso cotidiano, que começou a ser acalentado em 2001, quando Guerra Santos era docente do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal Fluminense (UFF). Adiado por motivos diversos, o projeto foi retomado em 2020 também devido à oportunidade de contar com apoio do Programa de Apoio à Editoração 2020 (APQ 3), da FAPERJ. A obra será dedicada à memória do professor Paulo Fevereiro, falecido em maio passado, que colaborou na concepção do uso de exemplos práticos para subsidiar o ensino de Botânica.

“Creio que no geral as pessoas não dão muita atenção às coisas do cotidiano, ao simples, ao trivial, pois inconscientemente hierarquizamos os assuntos de acordo com sua importância e só nos damos conta disso em certas situações”, explica Guerra Santos, que também conta com apoio da Fundação, por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE). O professor percebeu que muitas situações do cotidiano estavam fora do conhecimento dos alunos devido à necessidade de se exercitar uma visão de espaço-tempo para a observação das plantas, para se dar conta das mudanças pelas quais elas passam em seu ciclo de vida.

Ele recorda o exemplo do experimento pedagógico usado em todo o mundo por sua praticidade e simplicidade, que é a germinação do feijão em algodão molhado, que boa parte das crianças vivenciou nas escolas. Segundo ele, a escolha do feijão se dá porque a planta cresce muito rápido e seu cultivo é fácil, possibilitando a observação completa de todas as fases de crescimento, desde a germinação até a produção de frutos. “Algumas pessoas acham essa experiência piegas, mas eu a considero simples e didática. Na minha opinião, as coisas mais elegantes são aquelas baseadas na simplicidade. Não é preciso um experimento mirabolante para decorrer boas observações e conclusões. O feijão é um deles”, justifica.

A planta do milho foi usada como exemplo porque possui flores de
sexo feminino e masculino em inflorescências separadas, a espiga é
a feminina e o cabelo é o estilete que sai do ovário. Cada ovário origina
um fruto (o grão do milho), que dará origem a uma única semente.

O pesquisador explica que o termo “cegueira botânica” foi cunhado em 1998, pelos norte-americanos James H. Wandersee e Elisabeth E. Schussler, e a teoria acerca do conceito foi publicada pelos mesmos autores em 2001. A teoria aborda a incapacidade das pessoas de enxergar e valorizar as plantas e, segundo os seus criadores, a causa está relacionada a aspectos sensório-cognitivos. Guerra Santos usa um exemplo simplório para ilustrar a teoria: ao levarmos um grupo de pessoas para observar um ipê amarelo em plena floração e aparecer um macaquinho em um de seus galhos, as pessoas vão olhar para o macaco. “Isso prova que as pessoas tendem a observar mais os animais do que as plantas, o que é natural, até pela questão evolutiva, de maior afinidade com os animais”, esclarece o biólogo, ressaltando que os diferentes exemplos dentro da Biologia são dados usando os animais, e não as plantas, reforçando a cegueira botânica e a aversão de muitos alunos ao estudo da disciplina.

“Meu objetivo é diminuir a cegueira botânica. Estou preocupado em conquistar os alunos, fazer da Botânica uma disciplina interessante” afirma Guerra Santos, alegando que seu compromisso ainda é maior devido ao fato de ele atuar na formação de professores. Segundo ele, a cegueira botânica contribui bastante para que a Botânica não seja a disciplina preferida do curso de Ciências Biológicas. O professor também considera que não é raro muitos alunos chegarem à universidade sem ter estudado Botânica no ensino básico. Dedicada à formação de professores, a FFP/Uerj oferece atualmente seis cursos de licenciatura plena, nove cursos de pós-graduação (especialização) e seis mestrados, dos quais quatro acadêmicos e dois profissionais, além de um doutorado.

O projeto pretende dar um mínimo de subsídio em Botânica na formação dos professores de Biologia. “Para que eles tenham recursos e possam dar uma aula de Botânica prazerosa, solicitando aos alunos irem à feira observar e traçar um diálogo de conhecimentos entre seu cotidiano pessoal, escolar e ao científico”, diz o professor.

Utilizando o cotidiano e o óbvio como material didático para as aulas de Botânica, em um dos exemplos, Guerra Santos escolhe o milho - fruto bem característico das gramíneas - para promover o conhecimento. ”A planta do milho possui flores de sexo feminino e masculino em inflorescências separadas. A espiga do milho é a inflorescência feminina. O cabelo do milho é o estilete que sai do ovário. Após a fecundação, cada ovário dará origem a um fruto. Cada grão do milho é um fruto que originará uma única semente. A semente e o fruto são fundidos em uma única estrutura”, esclarece o professor.

Guerra Santos: professor conta com o
apoio da FAPERJ, por meio do programa
'Jovem Cientista do Nosso Estado'

De forma lúdica, o livro também estabelece um diálogo com a cultura, e traz ilustrações da artista brasileira modernista Tarsila do Amaral, e do pintor italiano Giuseppe Arcimboldo, conhecido por pintar cabeças de retratos feitas inteiramente de objetos como frutas, vegetais, flores. Guerra Santos ainda incluiu poemas e trechos da literatura brasileira, como do livro Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, e letras de música como Yes nós temos bananas, imortalizada por Carmen Miranda. Talvez nem todos os leitores entendam – especialmente os mais jovens - quando ele questiona por que a brincadeira Pêra, uva, maçã... salada mista! também não incluiu o tomate, que assim como as demais também é uma fruta, ou melhor, um fruto, assim como a abóbora, a azeitona, o chuchu e o milho.

A título de provocação, o professor inseriu no livro um mapa para localizar os países de origem de várias frutas. “Muitas pessoas acham que banana, manga, coco e jaca, entre outras, são frutas brasileiras. E não são”, garante Guerra Santos. Ele explica que o mapa de cabeça para baixo provoca os alunos a pensarem e discutirem a decolonialidade, o fato, por exemplo, de a América do Norte e a Europa aparecerem no mapa mundi convencional muito maior do que são na verdade. Da mesma forma, os exemplos escolhidos para diferenciar fruta, legume e verdura são todos bem comuns ao dia a dia de todos os brasileiros. Dessa forma o professor consegue ensinar Botânica acessando etapas anteriores do conhecimento, como a reprodução, para que os alunos possam ter uma visão integrada da disciplina.

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