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Publicado em: 18/03/2021

Diálogos com a Ciência: evento discute as perspectivas para a pesquisa brasileira

Débora Motta

Em sua apresentação, o presidente da FAPERJ destacou a
importância de tradicionais instituições de pesquisa brasileiras,
como a Fiocruz, o Butantan e a UFRJ 
(Imagem: Reprodução) 

Os desafios e as perspectivas para a produção científica brasileira em tempos de pandemia, causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), estiveram em pauta no encontro da série de debates virtuais O que temos para hoje: Diálogos com a Ciência, realizado pelo Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nesta terça-feira, 16 de março. “O ano de 2020, assim como o de 1918, quando ocorreu a Gripe Espanhola, será lembrado como um marco na História e evidenciou o papel da Ciência no combate a uma doença que paralisou o mundo. Instituições como a UFRJ [Universidde Federal do Rio de Janeiro], a Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] e o Instituto Butantan vêm desempenhando importante papel no desenvolvimento de vacinas e de pesquisas sobre a Covid-19”, disse o presidente da FAPERJ e professor titular do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ, Jerson Lima Silva, o primeiro convidado a falar no encontro.

Ele destacou a relevância do sistema estadual de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) no País, formado pelas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), especialmente na atual conjuntura de restrições orçamentárias, e citou a atuação da FAPERJ no estado do Rio de Janeiro. “As FAPs destinaram, em 2019, cerca de R$ 3,7 bilhões de recursos à pesquisa em diversos estados brasileiros, tendo um grau de capilaridade regional muito grande, para projetos no interior de cada estado”, disse. Lima Silva citou ainda que a FAPERJ teve uma execução orçamentária de R$ 440 milhões pagos entre janeiro de 2020 e janeiro de 2021 e, pouco após o início da pandemia, em março de 2020, lançou três chamadas voltadas especificamente para ações e redes de pesquisas em Covid-19, somando investimentos da ordem de R$ 75 milhões.

Entre esses estudos, estão o desenvolvimento de um soro anti-SARS-CoV-2, para imunização passiva, de pacientes internados com Covid-19. A pesquisa é resultado de uma parceria entre o Instituto Vital Brazil (IVB), a UFRJ e a Fiocruz. O soro utiliza como base a proteína S recombinante do coronavírus (responsável pela ligação e entrada do vírus na célula humana), produzida na Coppe/UFRJ, sob coordenação da professora Leda Castilho. Ele é elaborado a partir do sangue de cavalos imunizados no IVB. Depois de 70 dias, os plasmas de quatro dos cinco cavalos, inoculados em maio de 2020 com a proteína S, apresentaram anticorpos neutralizantes 20 a 50 vezes mais potentes contra o novo vírus do que os plasmas de pessoas que tiveram a doença. “Os cavalos produziram uma quantidade imensa de anticorpos. O soro apresenta um potencial neutralizador do vírus muito alto. Vamos testar nas próximas semanas a reação dos animais a novas cepas do coronavírus, como a P1”, resumiu Lima Silva, coordenador do estudo, apoiado pela FAPERJ por meio da Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19 – Parceria FAPERJ/SES – 2020.

Membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Nacional de Medicina (ANM) e da Academia Mundial de Ciências (TWAS), Lima Silva é reconhecido internacionalmente por suas contribuições no campo da Biologia estrutural, enovelamento protéico, montagem viral e no entendimento dos mecanismos responsáveis pelo dobramento errado de proteínas, importantes em muitas doenças humanas, que incluem câncer, doenças de príons e doença de Parkinson. É coordenador do Centro Nacional de Ressonância Magnética Nuclear Jiri Jonas (CNRMN/UFRJ), principal centro da América Latina aparelhado com equipamentos de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) de alto campo e coordena ainda o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (Inbeb). Graduado em Medicina pela UFRJ, em 1984, ele recordou a sua trajetória e alguns professores que marcaram a sua formação acadêmica. “Sempre tive a sorte de ter bons mestres. Fui aluno do Sergio Verjovski e do próprio Leopoldo De Meis, que fundou na época o Departamento de Bioquímica Médica na UFRJ. E nos Estados Unidos, durante meu pós-doutorado na Universidade de Illinois, trabalhei com o Gregorio Weber, responsável por descobertas importantes na área de Espectroscopia de fluorescência e Química das proteínas. Com o professor Jiri Jonas tive um bom exemplo de como combinar a atividade de pesquisa com a de gestão”, relembrou.    

A partir da esq., no alto: os palestrantes Ildeu
de Castro Moreira, Jerson Lima Silva e Luiz
Davidovich. Abaixo, o vice-reitor Frederico Leão
e o coordenador Wanderley de Souza

O debate prosseguiu com o físico Ildeu de Castro Moreira, professor do Instituto de Física da UFRJ há 45 anos e um dos expoentes na área de Divulgação Científica no Brasil, tendo publicado mais de 140 artigos sobre o tema. “É importante esse diálogo com a Ciência que a UFRJ faz. A universidade tem uma variedade de professores com atividades muito diversificadas e a Divulgação Científica ainda é pouco valorizada”, disse Moreira, que é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) desde 2017 e coordenador da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Vice-coordenador do INCT de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), liderado por Luisa Massarani e sediado na Fiocruz, ele acompanha a realização de diversas pesquisas nacionais de opinião pública que ajudam a elucidar como os brasileiros veem a Ciência. “Uma pesquisa de opinião realizada pouco antes da pandemia pelo INCT-CPCT apontou que 90% dos brasileiros não foram capazes de citar o nome de um cientista nacional importante, e 85% não sabiam dizer o nome de um instituto de pesquisa no Brasil. É um processo importante de construção saber contar essa história e daí a importância da Divulgação Científica”, destacou Moreira.

Com experiência no estudo da Física de sistemas não lineares, ele lembrou que a UFRJ foi a primeira universidade brasileira a ter um curso sobre a História da Ciência no Brasil. “Temos instituições importantes, como a ABC, a Fiocruz e a própria UFRJ e essa História não é contada”, afirmou. Ele integrou a direção do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) nos anos 1980 e, na época da Constituinte, participou dos debates que resultaram na criação de um capítulo dedicado especificamente à Ciência e Tecnologia na Constituição brasileira de 1988, o que abriu espaço para a criação das próprias FAPs. “É um legado importante dos professores brasileiros fazer políticas públicas e influenciar nas legislações no setor. Na época da criação da Constituição estadual no Rio de Janeiro, fizemos um movimento forte para haver um repasse orçamentário para a FAPERJ. Nesse momento vivemos desafios gravíssimos à Ciência brasileira com nosso orçamento extremamente reduzido”, ponderou.  

Por sua vez, o presidente da ABC, o físico Luiz Davidovich, o terceiro a falar e também professor titular do Instituto de Física da UFRJ, rememorou que seu interesse em seguir carreira como cientista surgiu a partir dos livros de Divulgação Científica que lia na juventude. “Me lembro de livros que lia sobre as vidas de Einstein, George Gammel, no secundário. Me matriculei na Física da PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro] e na Engenharia da Politécnica, na UFRJ. Peguei na Física um professor chamado Pierre Henri Lucie, que era tão entusiasmado em suas aulas de produto vetorial que me fez ter a certeza que eu seguiria a vida como físico”, disse. Davidovich realiza pesquisas na área de Física, com ênfase nas áreas de Óptica e Informação Quânticas e é um dos poucos cientistas brasileiros que integram como membro estrangeiro a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Ele ressaltou que apesar de ser jovem, o sistema científico brasileiro, criado no início do século XX, tem um legado de investimentos nas décadas anteriores, que dão subsídios ainda hoje para que o País, em crise, possa reagir à pandemia. “Em 2021 a ABC completa 105 anos. Participaram de sua fundação cientistas como o astrônomo Henrique Morize, seu primeiro presidente; o médico sanitarista Oswaldo Cruz; o pai da radiodifusão no País, Edgard Roquette-Pinto; e o médico psiquiatra Juliano Moreira. Para se ter uma ideia, a Academia de Ciências da França foi fundada bem antes, em 1666, e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em 1863. É bom lembrar disso para apreciar o quanto foi feito em Ciência desde o início do século XX aqui no Brasil. A Fiocruz foi fundada em 1900. Se não tivesse começado a formar recursos humanos nessa época, ai de nós hoje na pandemia. O pessoal que trabalha hoje veio daquela raiz”, contextualizou.

A mediação do evento foi realizada por Carlos Frederico Leão da Rocha, professor e vice-reitor da UFRJ, e a coordenação foi de Wanderley de Souza, professor titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ. Assim, como Lima Silva e Davidovich, ele também é membro, desde 1992, da Academia Brasileira de Ciências. O próximo debate será realizado pelos professores da UFRJ Adalberto Vieira, Heloisa Buarque de Hollanda e Luiz Bevilacqua.

Confira a íntegra do debate aqui   

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