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Publicado em: 11/02/2021

Mulheres e Meninas na Ciência: desafios para a promoção da igualdade de gênero

Débora Motta

Em sentido horário, a partir da esquerda, no alto: as cientistas
Eliete 
Bouskela, Nísia Trindade, Denise Carvalho, Gabriela Leal,
Letícia 
Oliveira e Jacqueline Leta (Fotos: Divulgação)

Em 2015, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o dia 11 de fevereiro como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A data foi criada no contexto do objetivo de “igualdade de gênero”, um dos objetivos estipulados na Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável da ONU, que reúne metas globais para promover melhorias nas condições de vida e de conservação do planeta. Nas carreiras científicas, os dados reforçam a presença de uma lacuna de gênero. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), hoje, menos de 30% dos pesquisadores em todo o mundo são mulheres, e apenas cerca de 30% de todas as alunas selecionam no ensino superior áreas relacionadas à Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática.

No Brasil, as mulheres ocupam apenas 17% das posições na Academia Brasileira de Ciências (ABC). “É muito importante a celebração do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência e a FAPERJ tem feito o seu dever de casa para estimular a participação feminina na Ciência. Conseguimos que mulheres que tiveram filhos tivessem um ano extra na avaliação curricular, e também a extensão da duração das bolsas. É claro que ainda estamos longe da igualdade: na Academia Brasileira de Ciências temos 101 meninas e 470 meninos, Mas é importante frisar que este número cresce a cada ano. Este é um problema que ocorre em todos os países e a igualdade desejada demanda tempo e luta de cada uma de nós que conseguiu entrar para o grupo de mulheres cientistas”, disse a diretora Científica da FAPERJ, Eliete Bouskela, que é médica, acadêmica da ABC e da Academia Nacional de Medicina, e pesquisadora e professora titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

À frente de uma das instituições brasileiras de maior destaque no contexto da pandemia causada pelo novo coronavírus, pelo desenvolvimento de soluções como a produção da vacina, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima é a primeira mulher eleita presidente dessa tradicional instituição. Ela destaca a importância de situar o papel das mulheres nas atividades científicas. “Entendemos que houve um avanço em muitas áreas do conhecimento, mas sabemos que esse avanço é pequeno diante do que precisamos em nossa sociedade para que ela possa ser efetivamente mais justa. Na Fiocruz, desde 2019, realizamos ações com o objetivo de propor medidas de incentivo ao protagonismo das mulheres na ciência. Esse protagonismo existe em algumas áreas, mas ele não é correspondido com sua devida valorização, como é o caso da Fiocruz. Em 120 anos, completados no ano passado, sou a primeira mulher a dirigir a instituição, e esse é um fato ilustrativo dessas dificuldades”, refletiu.

Nísia ressaltou ainda que o propósito da Fiocruz é abrir oportunidades em prol da equidade de gênero também na ciência. “Por essa razão, realizamos o programa Mais Meninas na Fiocruz, que permitiu o contato de jovens meninas com pesquisadoras da nossa instituição em um caminho de aprendizado. Essa atividade se dá dentro de uma visão integrada da instituição, presente em todas as regiões do País. Em tempos de Covid-19, a presença das mulheres na ciência se faz visível na Fiocruz. A programação das atividades do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, organizadas pela Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação, revela a importância das pesquisadoras. É importante marcar o protagonismo, mas também se faz necessário lembrar os desafios e os obstáculos que tanto as meninas que podem ter a ciência como opção, como as mulheres pesquisadoras, podem enfrentar em nossa sociedade”, ressaltou.

Tendo a questão da participação feminina na Ciência como um dos temas recorrentes de pesquisa ao longo de sua trajetória profissional, a bióloga Jacqueline Leta, professora do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBqM/UFRJ), traçou um panorama da desigualdade de gênero na sociedade. “Existem dois blocos de desigualdade de gênero: a desigualdade horizontal, que diz respeito à baixa participação feminina em algumas áreas do conhecimento, como as carreiras científicas e tecnológicas; e a desigualdade vertical, relacionada à baixa ocupação por mulheres de cargos de decisão e poder, hierarquicamente mais altos nas instituições. Em geral, as mulheres ocupam áreas de menor prestigio e remuneração, ao contrário dos homens. Na Europa, as mulheres ocupam apenas 25% dos cargos de professor titular, considerado o topo da carreira acadêmica, de acordo com o relatório She Figures, da Comissão Europeia, de 2018. No Brasil, esse número certamente é inferior. Em algumas carreiras, as mulheres já são maioria no início da faculdade, nos cursos de graduação. Mas ao longo da pós-graduação esse número vai caindo, numa relação inversa, comparando com os homens”, contextualizou.

A tripla jornada que muitas assumem por razões culturais – acumulando as responsabilidades do trabalho, da casa e da família – e a maternidade são considerados desafios para a promoção da igualdade de gênero, inclusive nas carreiras científicas. Na atual pandemia, o isolamento social torna esses desafios mais visíveis. Segundo a pesquisa Unequal effects of the Covid-19 pandemic on scientists, publicada no periódico Natural Human Behaviour, as mulheres pesquisadoras com filhos pequenos, especialmente, sofreram o maior impacto nesse período, com nítida redução nas suas atividades de pesquisa. "Esse trabalho fez uma enquete com mais de quatro mil cientistas e acadêmicos, a partir de questionários online, e mostrou que a pesquisa foi a tarefa com maior redução de carga horária. E as pesquisadoras que são mães com filhos pequenos foram o grupo que mais relataram maior redução no tempo dedicado às suas pesquisas", apontou Jacqueline, que trabalha no Departamento de Educação, Gestão & Difusão em Ciências do IBqM/UFRJ. “Outros dados que mostram como a pandemia vem afetando especialmente a participação de mulheres na pesquisa é a redução de submissão de trabalhos assinados por autoras mulheres nas revistas científicas, como destaca o artigo publicado na revista Dados, editada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, e também a redução de trabalhos depositados em repositórios de pré-prints, como mostra o artigo Are women publishing less during the pandemic? Here’s what the data say, publicado na Nature”, citou.

O movimento Parent in Science, uma rede de apoio a mães e pais cientistas, confirma que no Brasil cientistas mães e negras foram as mais impactadas pela pandemia, como revelou o artigo Gender, race and parenthood impact academic productivity during the Covid-19 pandemic: from survey to action, publicado em pré-print no periódico bioRxiv, em julho de 2020. Componente do núcleo central do Parent in Science no Brasil, e do grupo de trabalho Mulheres na Ciência da Universidade Federal Fluminense (UFF), a neurocientista Letícia Oliveira está mobilizada para ajudar a reduzir os impactos da maternidade na produção científica de mulheres pesquisadoras. “No site do Parent in Science está em destaque a campanha que estamos fazendo para arrecadar fundos para alunas de pós-graduação que são mães e estão com dificuldades financeiras para concluir seus estudos. Lançamos essa campanha em 22 de janeiro e já temos quase 600 inscrições de mães pedindo esse auxílio. Queremos impedir desistências de mães pesquisadoras em meio a seus cursos de pós-graduação”, contou. A pesquisadora comenta que estão arrecadando fundos para campanha e qualquer pessoa pode ajudar (fazendo um Pix para parentinscience@gmail.com ou contribuindo com a Vakinha: http://vaka.me/1718423). Ela é uma das ganhadoras da primeira edição do 25º Prêmio Mulheres na Ciência: América Latina promovido pela 3M. A premiação, virtual, ocorre na noite desta quinta-feira, Dia Internacional das Mulheres e das Meninas na Ciência.

Mãe de uma menina chamada Sofia, hoje com 15 anos, Leticia acredita que as políticas de apoio à maternidade dirigidas às pesquisadoras são um ponto fundamental para promover a equidade de gênero na Ciência. “A FAPERJ foi uma das primeiras Fundações de Amparo à Pesquisa do Brasil a incluir políticas de apoio à maternidade nos seus editais, com a ampliação do tempo para avaliação do curriculum lattes das pesquisadoras, nos seus dois principais programas: o Cientista e o Jovem Cientista do Nosso Estado”, lembrou. “A chave para que a mulher sobreviva na Ciência é a criação de políticas de apoio governamental, não só para a maternidade, mas para também para que ocupemos espaços de poder. Redes de apoio, como a Parent in Science, também são muito importantes para se aprender a trabalhar essas questões de maneira colaborativa, com outras mulheres. Segundo dados da revista Gênero e número, quando somadas, as mulheres pretas e pardas com doutorado, que formam o grupo das negras, não chegam a 3% do total de docentes na pós-graduação brasileira. A Ciência tem que ser mais colaborativa e inclusiva”, completou.

O despertar da vocação científica nas meninas esbarra em
obstáculos diversos: promover a pluralidade de gênero e
etnia nas carreiras científicas é um dos objetivos da Agenda
2030 da ONU (Foto: Karin Schermbrucker/Unicef) 

Por sua vez, a jovem pesquisadora Gabriela Ramos Leal, de 34 anos, médica veterinária e ganhadora do concurso internacional de divulgação científica FameLab, organizado pelo British Council, destacou que para despertar mais vocações entre as meninas para as carreiras científicas é necessário quebrar os estereótipos de gênero que ligam a ciência à masculinidade. Ela enfatiza que é preciso apresentar às meninas modelos positivos de mulheres pesquisadoras, como engenheiras e astronautas, e com diversas origens étnicas e tons de pele. “Temos muita dificuldade de comunicar para as crianças o que é ser cientista. A imagem que elas têm da profissão é de um homem velho e branco, usando jaleco. É preciso também mostrar figuras femininas, jovens e negras, de cientistas, para que elas se identifiquem e procurem as carreiras científicas. Os cientistas têm que ter todas as idades, gêneros e cores”, disse Gabriela, que é bolsista do programa Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ e desenvolve seus estudos sobre reprodução animal na Faculdade de Medicina Veterinária da UFF.

Já a médica Denise Pires de Carvalho, primeira mulher a ocupar o cargo de reitora na UFRJ, lembrou que existe um fenômeno chamado “fenômeno da tesoura” ou “teto de vidro”, que impede as mulheres de se destacarem hierarquicamente, ao longo da carreira. “Este é um fenômeno histórico, produto da organização da nossa sociedade há muitos séculos. Este resgate precisa ser feito, para que haja igualdade de gêneros. O CNPq analisa as pesquisadoras ao longo de suas carreiras e há muito menos pesquisadoras com o nível máximo, que é o nível 1A, do que há no início da carreira. Então, se nós pegarmos as estudantes por gênero que estão na iniciação científica, há, inclusive, predominância feminina, e isso vai caindo quando nós olhamos para a carreira quando essas pesquisadoras se tornam professoras e concorrem a bolsas de produtividade em pesquisa. Aí, já começa o efeito tesoura. Então, há menos mulheres pesquisadoras nível 2 do que homens, e esse número vai diminuindo conforme o nível da bolsa de produtividade aumenta, claramente mostrando que há um viés, o viés de gênero, e que não é explicado pela produção intelectual, porque há estudos que mostram que 70% das produções intelectuais de produção científica nacional são lideradas por mulheres”, explicou.  

“Se há igualdade, ou até predomínio feminino na iniciação científica, era natural que houvesse igualdade no topo da carreira", prossegue Denise. "Isso mostra o chamado teto de vidro, que impede que as mulheres cheguem ao nível de pesquisador 1A, que é o nível máximo, e que cheguem a ocupar um posto como membro na Academia Brasileira de Ciências, na Academia Nacional de Medicina, por exemplo. Se nós olharmos a Academia Brasileira de Ciências por área, é mais dramática a situação das mulheres nas áreas tecnológicas, assim como é muito mais dramático o cenário na Academia Nacional de Engenharia como um todo, porque há uma tendência da área biomédica a ter um percentual um pouco maior de mulheres. E nos postos de destaque, as mulheres são minoria, o que não é explicado pelo número de profissionais. Embora as mulheres sejam maioria em dada carreira, as posições de destaque são ocupadas por homens”, completou Denise, que é professora titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF/UFRJ).  

Ela destacou ainda a necessidade de mais políticas que fomentem e concretizem a igualdade de gênero e citou algumas ações em curso com esse objetivo na UFRJ. “Aqui na UFRJ, a Reitoria instituiu um grupo de trabalho de parentalidade e equidade que pretende cuidar com muita sensibilidade, por exemplo, das mães que estão no início das carreiras. Quando elas aplicam para editais, como edital de bolsa de iniciação científica, ou pretendem ser orientadoras de pós-graduação dos programas de pós-graduação, precisamos implantar políticas que permitam que essas mulheres ocupem esses espaços. Por exemplo, no edital Pibic [Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica], a gente dá uma pontuação a mais para quem foi mãe nos últimos três anos, muito semelhante ao que a FAPERJ vem fazendo nos diversos editais, e que é muito justo e que fará, num prazo mais curto, um estímulo à igualdade de condições”, concluiu.

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