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Publicado em: 07/01/2021

Trabalho investiga detecção precoce de transtornos mentais

Paula Guatimosim

Leticia explica que a maioria dos transtornos mentais se manifesta
entre o final da adolescência e o início da vida adulta (Fotos: Pixabay)

Por representar uma nova fronteira da ciência, o trabalho da neurocientista Letícia de Oliveira conquistou o Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia 2020, na categoria “Pesquisador Sênior”. Criado em 1997 pela Reunião Especializada em Ciência e Tecnologia do Mercosul (RECyT), a iniciativa conta com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/Brasil), e também do Ministério de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia da Argentina, Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do Paraguai e Ministério de Educação e Cultura do Uruguai.

Apesar dos avanços no que se refere ao tratamento dos transtornos mentais, como no desenvolvimento de medicamentos, por exemplo, Letícia se dedica ao estudo de um dos grandes desafios da psiquiatria atual: a detecção precoce de sintomas ou sinais que representem risco de desenvolvimento de transtornos mentais, que podem se tornar doenças crônicas e incapacitantes.

Para a pesquisadora, a Inteligência Artificial, especialmente o aprendizado por máquina (machinelearning) associado à metodologia de reconhecimento de padrões pode trazer grandes contribuições para a Psiquiatria, quando aplicada à neuroimagem funcional. “O objetivo do estudo é capturar mudanças sutis no padrão de ativação cerebral antes do aparecimento completo dos sintomas, evitando o primeiro surto”, explica Letícia. Isso é importante, segundo ela, para nortear as famílias que, em geral, não conseguem identificar os sintomas e muito menos lidar com os distúrbios mentais.

Letícia teve o primeiro contato com os transtornos mentais na infância, em sua própria casa, na convivência com seu pai, também médico, que ouvia vozes, tinha visões e foi diagnosticado com transtorno bipolar esquizoide. “Embora não tenha sido uma opção consciente, certamente a escolha da minha carreira foi influenciada pela doença do meu pai, que faleceu há três meses”, diz Letícia. A neurocientista recorda que já naquela época, há cerca de 40 anos, mesmo com todas as limitações, falta de informação, tabus e tratamentos menos eficazes que os atuais, seu pai conseguia trabalhar e manter uma vida relativamente funcional. Também por isso, ela é defensora incondicional da atual política de saúde mental, baseada no modelo de atenção psicossocial de base comunitária e aberto, que garante aos usuários a livre circulação pelos serviços e na comunidade.

“Hoje, o prognóstico para os portadores de transtornos mentais é muito melhor do que foi para o meu pai. E não creio que o governo consiga aprovar um modelo que representará um dos maiores retrocessosda história recente na questão da saúde mental”, acredita ela, uma defensora do fim do preconceito e estigma que esse tipo de paciente sofre, referindo-se ao projeto do governo de reativar os manicômios.

Letícia explica que a maioria dos transtornos mentais como depressão, bipolaridade, esquizofrenia se manifesta cedo, entre o final da adolescência e o início da vida adulta. Esclarece que os tratamentos ainda são pouco eficientes, na maioria dos casos, fazendo com que os pacientes tenham limitações ao longo da vida toda. Diante das notícias de aumento dos casos de depressão e suicídio entre jovens no meio acadêmico, a pesquisadora, professora do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), tem preocupação com a saúde metal, especialmente decorrente da pandemia do novo coronavírus. “Com certeza teremos consequências para a saúde mental”, afirma. No momento, a pesquisadora coordena um projeto que utilizará Inteligência Artificial para estudar fatores de proteção e vulnerabilidade para a saúde mental de profissionais que estão na linha de frente no atendimento hospitalar aos pacientes com Covid-19.

Diagnóstico precoce - De acordo com a pesquisadora, as famílias não estão preparadas para identificar e muito menos lidar com transtornos mentais. “Por isso, a ideia do estudo é identificar os sinais precoces e direcionar esforços para a família e para o paciente, principalmente no sentido de fazer uma intervenção antecipada, a fim de evitar o primeiro surto, pois há evidências de que depois do primeiro surto é mais difícil controlar a doença”, esclarece a pesquisadora. Ela chama atenção para o fato da Psiquiatria ser diferente de outras especialidades médicas. “Na cardiologia, um exame de sangue pode revelar níveis de colesterol e triglicerídeos, que indicam algum risco de o paciente desenvolver problemas cardíacos. Mas na Psiquiatria não há nenhum apoio em exame diagnóstico, que é basicamente focado na experiência do médico. Por isso queremos desenvolver métodos que auxiliem os psiquiatras na tomada de decisão”.

O estudo pretende identificar sinais precoces dos transtornos, 
a fim de fazer uma intervenção que evite o primeiro surto

A neurocientista alerta, entretanto, para um problema ético associado ao estudo, já que os algoritmos podem cometer erros, como acusar um resultado falso positivo, o que criaria um enorme problema para a família. Outra limitação importante é o fato de que a metodologia, baseada na Inteligência Artificial, pode trazer uma possibilidade. “A Inteligência Artificial não prevê o futuro; ela prevê possibilidades de futuro. Não existe como fazer uma predição absoluta”, diz. Letícia alega que o mais importante é oferecer para a família e o paciente que possui essa predisposição algum recurso terapêutico que possa minimizar o transtorno. “E essa solução, para ser adotada na prática clínica, ainda não existe”, explica. Segundo a pesquisadora, apesar de a perspectiva da metodologia ser muito positiva, sua aplicação ainda deve demorar cerca de 10 a 15 anos, porque muitos aspectos ainda precisam ser cuidados nesse meio de caminho. “A Neurociência, relativamente recente, avançou muito nos últimos 50 anos. E a ressonância magnética, que usei bastante nesse estudo, tem cerca de 30 anos”, destaca Letícia.

No Laboratório de Neurofisiologia do Comportamento, na UFF, a pesquisadora estuda a interação entre emoção e atenção no cérebro humano e desenvolve trabalhos na interface entre ciência básica e clínica, especialmente no estudo de transtornos de ansiedade e humor com neuroimagem. Contemplada no programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, Letícia diz que toda a sua trajetória profissional tem sido marcada pelo apoio da Fundação. “Desde os editais mais antigos, do Auxílio à Instalação aos Primeiros Projetos; e, mais recentemente, como Jovem Cientista do Nosso Estado, por duas vezes, e ainda como coordenadora de grupos emergentes”, diz ela, que atualmente é vice coordenadora da Rede Saúde em Inteligência Artificial. “Não fosse a FAPERJ, eu não teria conseguido nem 10% do que eu alcancei na minha carreira”, reconhece Letícia.

Criadora e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Biomédicas da UFF, a neurocientista, que é coordenadora do Grupo de Trabalho “Mulheres na Ciência” da UFF – que visa estimular a participação feminina principalmente na área da Inteligência Artificial, marcada pela prevalência masculina, acredita que a conquista do Prêmio Mercosul resulta, também, de privilégios, além do mérito. Em seu discurso de agradecimento após receber o Prêmio Mercosul, Letícia discursou: “Apesar de sofrer discriminação por ser mulher, não tive a cor de minha pele como mais um empecilho para alcançar meus objetivos. Sabemos que apenas das 3% das cientistas brasileiras são mulheres pretas, um número indecente e vergonhoso em um País que metade da população é negra. Passei por muitos momentos difíceis na minha vida, especialmente na infância, mas tive, e tenho, uma família maravilhosa e estruturada para me dar apoio e me amparar”. Letícia também reconheceu o papel do seu marido em sua vida:

Letícia coordena  o Grupo de Trabalho “Mulheres na
Ciência” e integra o movimento “Parent in Science”

“Tenho um parceiro de muitos anos que me dá todo dia o amor necessário para suportar este mundo, por vezes, tão estranho e bizarro. Um parceiro que cuida da família, que divide comigo a criação de nossa filha, que discute comigo projetos e me dá ideias para novos experimentos, mas que principalmente me tira do encarceramento, às vezes doentio, do trabalho”, relata a pesquisadora, que, com um empurrãozinho do marido, aprendeu durante o doutorado a identificar o céu, em curso no Planetário do Rio de Janeiro.

Em sua militância para ajudar a produzir uma melhor ciência por meio de maior diversidade e inclusão, Letícia também faz parte do movimento “Parent in Science”. Segundo ela, mais de metade das mulheres cientistas relatam cuidar praticamente sozinhas de suas crianças. “Tive uma filha que provoca em mim sentimentos que nem sabia que existiam, variando de um amor profundo a medos irracionais, uma transformação na minha visão de mundo. Hoje ela está com 15 anos e há tempos aprendo muito mais do que ensino. Aprendi com ela a importância da representação na política e na sociedade das mulheres negras, LGBTs e de periferia”, relata Letícia. Ela ainda integrou o Grupo de trabalho “Equidade de Gênero” da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) e tem dado diversas palestras sobre o tema da inclusão e diversidade na ciência. “A diversidade produz uma melhor ciência”, termina Letícia.

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