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Publicado em: 27/08/2020

Idade e estabilidade financeira contribuem para boa saúde mental na quarentena

Juliana Passos

Necessidade de isolamento na pandemia teria afetado mais a saúde mental dos 
jovens do que pessoas em idade avançada (Imagem: Mohamed Hassan/Pixabay)

A dificuldade de tirar as pessoas mais velhas das ruas nessa quarentena virou piada e rendeu inúmeros memes. A percepção de que os mais velhos estão menos estressados com a pandemia, mesmo aqueles que estão cumprindo as regras de distanciamento, também apareceu em pesquisa idealizada pela doutoranda Aline da Silva Gonçalves, do Programa de Pós-graduação de Psicologia Social Da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). A pesquisa foi realizada por meio de questionários eletrônicos e contou com 318 respondentes, todos moradores de municípios fluminenses e será expandida para um maior número de respondentes.

Esta primeira etapa do estudo identificou que quanto mais avançada a idade, menor era a taxa de afetividade negativa, um termo que engloba os sintomas ansiedade, estresse e depressão. A pesquisadora explica que, apesar de aparentemente contraditório – uma vez que a idade é um importante fator de risco – é preciso temos que trazer à discussão as diferenças individuais no desenvolvimento humano. “Os jovens têm uma percepção de maior vulnerabilidade por estarem em uma fase de plantação, de busca profissional, estabilidade financeira, enquanto o idoso costuma ser mais flexível em lidar com as perdas. Essas características típicas da idade podem ser as razões que explicam o modo como jovens e idosos vivenciam esse momento de incertezas”, avalia pesquisadora do Laboratório de Medidas da Psicologia (Labmedi), laboratório que conta com recursos da FAPERJ.

Coordenador do Labmedi, José Augusto Evangelho Hernandez acrescenta que a amostra alcançou uma população majoritariamente de classe média, em que o avançar da idade também significou uma maior estabilidade financeira. “A interpretação que nós fizemos disso é que a maioria das pessoas entrevistadas que eram idosas já estão com a vida feita, tem seu sustento garantido. Enquanto isso, uma grande parcela dos jovens estavam desempregados. Como a pandemia levou à paralisação de todas as atividades não essenciais, as preocupações foram muito além do medo do contágio”, comenta.

A ideia surgiu ainda em março, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a situação de pandemia. “A pandemia é um evento impactante que interfere significativamente na vida em andamento e nos leva a ajustes temporários ou permanentes nos hábitos. Esse é um fator de análise na psicologia para avaliação da saúde mental e, por isso, levei o tema para discussão e desenho de um projeto”, conta Aline. Após passar pela avaliação da Comissão Nacional Ética em Pesquisa (Conep), a aplicação dos questionários foi realizada na segunda metade de maio.

De acordo com a pesquisa, o principal fator que levou ao quadro de afetividade negativa (um termo que engloba os sintomas de ansiedade, depressão e estresse) foram os pensamentos indesejáveis, ou intrusivos. Em situações impactantes ou de traumas, dois tipos de pensamentos são comuns: os intrusivos ou evitativos, com o intuito de proteção. Uma das explicações encontradas para a maior presença dos pensamentos intrusivos foi o período em que a amostra foi coletada, entre 10 e 30 de maio, quando o confinamento era mais rígido e a curva de mortes era ascendente. “Foi um tempo curto para as pessoas desenvolverem pensamentos evitativos, como forma de moderar as reações emocionais de estresse, ansiedade e depressão. No entanto, esse tipo de pensamento é apenas paliativo e é preciso encontrar outras formas de enfrentamento da questão, como o conhecimento em relação ao vírus”, diz Hernandez.

A pesquisa está sendo conduzida por Aline da Silva Gonçalves (à esq.)
e José Hernandez, ambos da Uerj, em parceria com Julia 
Bucher-Maluschke,
professora na Universidade de Brasília 
(Fotos: Arquivos pessoais)

Entre as pessoas entrevistadas, 51% tem até 32 anos, a maioria das respostas vieram de mulheres (77%) e um quarto dos participantes está desempregado. Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a saúde autopercebida. Ao mesmo tempo em que reportaram não sofrer de nenhuma doença crônica, os respondentes indicaram que sua saúde estava ruim. “A resposta indica que a saúde autopercebida vai além da saúde física e indica também crenças, valores, representações, consciência do corpo e cultura. Está tudo em jogo”, comenta a doutoranda. O coordenador do Labmedi acrescenta que a maioria das pessoas abandona esses pensamentos intrusivos à medida que a necessidade de confinamento é diminuída e as medidas para contenção da doença são conhecidas e explicitadas. Em outros casos, será preciso buscar tratamento.

Entre as recomendações da pesquisadora para diminuição dos pensamentos intrusivos estão conversar com amigos e familiares; praticar atividades físicas; exercícios de relaxamento e respiração; não se expor massivamente às informações sobre o surto, principalmente antes de dormir, e buscar informações sobre a covid-19 de fontes confiáveis. “Além de, se necessário, contar com as intervenções psicológicas on-line”, ressalta a pesquisadora.

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