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Publicado em: 23/07/2020

Livro destaca o protagonismo da Medicina tropical nos estudos em Leishmanioses

Débora Motta

Gaspar Vianna, no Instituto Oswaldo Cruz: o cientista
identificou a Leishmania braziliensis (Foto: Acervo COC) 

Em meio à pandemia causada pelo coronavírus, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) firmou, recentemente, um acordo com a biofarmacêutica AstraZeneca para a compra de lotes e transferência de tecnologia para a produção da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Esse importante passo, que pode representar uma saída para a atual crise sanitária, só está sendo possível graças à expertise da Fiocruz e ao longo processo de construção e consolidação, no decorrer do século XX, do conhecimento científico nacional e das instituições de pesquisa brasileiras”, disse o historiador Jaime Larry Benchimol, que recebe apoio da FAPERJ por meio do programa Cientista do Nosso Estado. Na obra Uma história das leishmanioses no Novo Mundo (fins do século XIX aos anos 1960), recém-lançada pelas editoras Fino Traço (BH) e Fiocruz (RJ), ele e o seu orientando, Denis Jogas, também historiador e bolsista de Doutorado Nota 10 da Fundação, destacam como os estudos em leishmanioses no início do século passado contribuíram para que os cientistas brasileiros assumissem, já naquela época, um papel protagonista diante de seus pares europeus, e estabelecessem as bases para a globalização da Medicina e da pesquisa desenvolvidas nos Trópicos.

Dividida em nove capítulos, a publicação coloca em xeque narrativas que atribuem a atores não-europeus um papel marginal na produção de conhecimento científico no decorrer do século XX. Ao revisitar as trajetórias de cientistas pioneiros como Gaspar Vianna, Carlos Chagas e seu filho primogênito, Evandro, além de Samuel Pessôa e muitos outros, a obra recupera não só a contribuição de grandes nomes da pesquisa nacional na primeira metade do século passado, mas narra, como pano de fundo, a história de importantes instituições científicas brasileiras, entre elas o Instituto Oswaldo Cruz, que integra atualmente a Fiocruz, e o estabelecimento de um primeiro programa de combate às leishmanioses no País. “A história de uma doença nunca é a história de uma só doença. Em cada conjuntura sobressaem diversas patologias e há interações entre elas, além dos impactos sobre a sociedade da época. Estudar a história das leishmanioses no Brasil também é aprender sobre outras doenças tropicais, como a febre amarela, a malária e a doença de Chagas, e entender como os cientistas brasileiros ganharam projeção no Velho Mundo, comportando-se não como meros receptores de conhecimento, mas como protagonistas da sua construção", disse Benchimol.   

A história da pesquisa nacional em Leishmanioses

O livro relata como as leishmanioses desafiaram a comunidade científica mundial desde o final do século XIX até os anos 1960. No século passado, o seu diagnóstico e enfrentamento exigiu uma grande capacidade de pesquisa internacional, pois esse complexo de doenças contrariava a ideia corrente, entre os cientistas, de que cada doença tinha um agente causal único, claramente discernível. “As leishmanioses eram um conjunto de doenças com manifestações clínicas muitos diferentes, mas associadas a protozoários que pareciam ser morfologicamente indistinguíveis com os recursos tecnológicos disponíveis à época. Isso inquietou e estimulou muito a comunidade científica”, explicou Denis Jogas. “Esse grupo de doenças classificado como leishmanioses abrangia desde o Calazar, doença visceral relatada na Índia e em outras partes da Ásia, e na região mediterrânea, onde logo se verificou que acometia também os cães; a doença cutânea conhecida como ‘Botão do Oriente’; e as doenças do continente americano, que também podiam destruir as mucosas do indivíduo e que só eram encontradas em ambientes florestas”, detalhou.

Capa do livro: obra revisita parte significativa
da 
história da ciência brasileira (Foto: Reprodução) 

Já havia evidências sobre a ocorrência do Botão do Oriente na região do Rio Nilo, no Antigo Egito. A doença era caracterizada por lesões dermatológicas, com curso clínico brando e tendência à cura espontânea. Enquanto isso, o Calazar, descrito na Índia e na região mediterrânea, era mais agressivo, atingindo as vísceras do paciente, com rápida progressão e elevado índice de mortalidade. Foi só na virada do século XIX para o XX que se descobriu que ambas as formas da doença são causadas por parasitas protozoários cujo nome genérico Leishmania deu origem ao nome pelo qual a doença é conhecida hoje, leishmaniose. 

O debate ficou mais acalorado quando uma terceira forma de Leishmania, ainda desconhecida pela comunidade científica, passou a acometer muitas pessoas. Dessa vez, no Brasil e em países da América latina. “O jovem cientista Gaspar Vianna, do Instituto Oswaldo Cruz, foi quem descreveu o agente patológico da leishmaniose cutânea, que batizou de Leishmania braziliensis”, contextualizou Benchimol. A doença despertou o interesse de pesquisadores em 1908, quando um surto atingiu operários que estavam na linha de frente da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligaria São Paulo a Mato Grosso. Ela é transmitida ao ser humano pela picada das fêmeas de flebotomíneos (o "mosquito-palha") infectadas. Outra contribuição relevante de Vianna foi identificar a importância do tratamento com a substância tártaro emético (antimônio trivalente). “Tratamentos com base em compostos antimoniais como o prescrito por Vianna ainda são a principal forma de combate à leishmaniose. O uso desse medicamento salvou inúmeras vidas, em particular na Índia, onde o Calazar fazia muitas vítimas”, completou Jogas.

Com apenas 29 anos, Gaspar Vianna, então um promissor patologista do Instituto Oswaldo Cruz, morreu após ser contaminado durante a realização de uma necropsia. Ao abrir a cavidade torácica do corpo de um paciente que morreu com tuberculose, um jato do líquido pulmonar atingiu seu rosto e o contaminou. “A morte prematura de Vianna o impossibilitou de ter o devido reconhecimento em vida. Foi preciso o engajamento de outros cientistas brasileiros, como o médico baiano Alfredo da Matta, para que a Leishmania braziliensis fosse reconhecida pela comunidade científica internacional”, recordou Jogas.

Outros importantes defensores da espécie descrita por Vianna foram o zoólogo Arthur Neiva, do Instituto Oswaldo Cruz, que sustentou sua descoberta na Conferência da Sociedade Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia, realizada em Buenos Aires em 1916, e o parasitologista Samuel Pessôa, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Pessoa produziu evidências para respaldar a teoria de que as leishmanioses cutâneas e mucocutâneas americanas eram autóctones, o que contribuiu para a crescente aceitação internacional do conceito de Leishmaniose Tegumentar Americana. Mas estudos posteriores, realizados pela equipe de Ralph Lainson e Jeffrey Shaw no Instituto Evandro Chagas, no Pará, sobre as leishmanioses da Amazônia, mostraram que muitas outras espécies de leishmania estão associadas ao complexo de doenças denominado Leishmaniose Tegumentar Americana”, ponderou Benchimol. Ele é professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC) e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (Fiocruz Amazônia, Manaus).

 Denis Jogas (à esq.) e Jaime Benchimol: pesquisa incluiu
visitas a vários acervos internacionais
(Foto: Divulgação)

O livro, que tem 790 páginas, é resultado de um minucioso trabalho de pesquisa da dupla de historiadores, que percorreu acervos de diversos países, incluindo bibliotecas no Brasil, Argentina, França e Estados Unidos. “Realizei meu estágio de doutoramento no exterior com apoio da FAPERJ, o que contribuiu para que eu reunisse um amplo conjunto de fontes primárias durante os seis meses que passei na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (École de Hautes Études en Sciences Sociales), em Paris, sob orientação do professor Kapil Raj. Fiz muitas pesquisas no arquivo histórico do Instituto Pasteur, essenciais para a construção da minha tese, entre outubro de 2017 e março de 2018”, contou Jogas. Por outro lado, Benchimol visitou a Wellcome Library, em Londres; o arquivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça; e, nos Estados Unidos, os arquivos de Harvard e da Fundação Rockfeller, entre outras instituições.

O livro mostra que os estudos sobre as leishmanioses e outras endemias rurais contribuíram para que o Brasil tivesse uma das mais pujantes comunidades científicas da América Latina. Também evidencia a importância desse grupo de doenças, ainda em crescimento. “A leishmaniose é considerada ainda hoje uma ‘doença reemergente e negligenciada’, classificação criada pela OMS. Reemergente porque foi momentaneamente controlada nos anos 1950 e 1960, no Brasil e em outros países, mas irrompeu em áreas consideradas livres da doença, em função de mudanças ambientais, migrações humanas e crescimento urbano caótico. Negligenciada porque recebe pouca atenção do Estado, dos grupos farmacêuticos e está associada às condições de pobreza”, ressaltou Benchimol. “As leishmanioses são endêmicas em 98 países e territórios nos quatro continentes, com estimativa de dois milhões de novos casos por ano, segundo o Primeiro Relatório ‘Trabalhando para Superar o Impacto Global de Doenças Tropicais Negligenciadas’, da OMS. Nosso trabalho destaca a contribuição dos pesquisadores brasileiros e latinos para a construção desse conhecimento”, acrescentou Jogas. 

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