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Publicado em: 18/06/2020

Pesquisa avalia impacto da Covid-19 nos atletas

Paula Guatimosim

Os atletas responderão a um questionário sobre condições socio-
demográficas, de treinamento e hábitos de vida e saúde (Foto: Uezo e Into)

Para os que acreditam que o fato de uma pessoa ser ou ter sido atleta faz com que ela seja mais resistente à infecção pelo novo coronavírus, um trabalho conjunto entre equipes de pesquisadores do Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) e do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into) põe por terra essa suposição. É que, ao contrário do que se poderia supor os mais apressados, a alta intensidade do volume de treino diário dos atletas profissionais, cerca de 6 a 8 horas por dia, pode aumentar a ventilação alveolar e diminuir os níveis do anticorpo IgA, tornando maior o risco de infecção viral no trato respiratório desses desportistas.

O estudo, coordenado pela pesquisadora Jamila Perini, está avaliando cerca de 1 mil atletas, com idade entre 18 e 45 anos, praticantes de diferentes modalidades esportivas. “Estamos trabalhando na identificação de alterações genéticas que levam à predisposição a lesões, buscando identificar um marcador genético que favoreça um diagnóstico precoce. Mas, diante do isolamento social, vimos a necessidade de voltar nossos esforços para as consequências da pandemia na vida dos atletas”, explica a médica, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do Programa Jovem Cientista do Nosso Estado. Segundo ela, as consequências da COVID-19 na vida dos atletas não se resumem à alteração na rotina de treinos, mas à crise financeira decorrente da redução de salários e os problemas psicológicos ocasionados pela quarentena.

Jamila ressalta que os fatos também comprovam a suscetibilidade dos atletas – profissionais ou não – ao novo coronavírus, já que o primeiro caso registrado na Europa, mais especificamente na Itália, foi a infecção em um homem de 38 anos, que participava regularmente de eventos esportivos, como corridas e jogos de futebol. Um dia antes de apresentar os primeiros sintomas ele havia participado de uma partida de futebol, mas, quatro dias depois, foi internado em unidade de terapia intensiva (UTI) por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Ou seja, apesar de muitas pessoas acreditarem que os atletas podem ser assintomáticos ou apresentarem sintomas leves de uma gripe sem maiores conseqüências, os estudos vêm mostrando que nem mesmo eles estão livres dos desfechos mais graves associados à doença.

Não é de hoje que a saúde respiratória do atleta é uma preocupação da medicina esportiva. Estudos realizados desde a década de 1990 já relatavam um aumento de episódios virais nas vias aéreas inferiores, em atletas de maratona, causando febre, tosse seca, mal-estar e dispneia como efeitos agudos na semana seguinte à competição. “Por terem um pulmão considerado ‘ideal’, com condições fisiológicas capazes de aumentar a ventilação alveolar durante exercícios intensos, os atletas ficam mais propensos a inalação de partículas virais”, explica Lucas Lopes, aluno de doutorado de Jamila. Graduado em Farmácia, Lucas vem se dedicando ao estudo de tendinopatias em atletas desde 2015, época em que foi bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ. Ele ressalta o fato de que a pandemia do novo coronavírus pegou a comunidade esportiva num ano olímpico, com a maioria dos atletas de alto rendimento se preparando para as competições e outros ainda na fase seletiva, treinando de seis a oito horas por dia.

Lucas Lopes e Jamila Perini estão preocupados com 
as possíveis lesões muscoesqueléticas dos atletas

“Foi muito frustrante para os atletas o adiamento das competições”, afirma o pesquisador, lembrando que, inicialmente, para atender às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate à pandemia, as competições esportivas seriam realizadas sem torcedores, evitando a transmissão por meio de contato próximo. No entanto, com a confirmação para a COVID-19 de um jogador de basquete norte-americano, a NBA foi uma das primeiras ligas a sinalizar que tal medida seria demasiado arriscada, optando por cancelar seu campeonato nacional. “Com a Olimpíada em Tóquio adiada e as consequências do isolamento social sobre a rotina dos atletas, fica difícil avaliar como será o retorno deles após a pandemia”, diz Lopes, que é mestre em Saúde Pública e Meio Ambiente pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo ele, os atletas entraram em distanciamento social e muitos começaram a treinar em casa, para tentar manter o condicionamento físico. Porém, a falta da rotina de acompanhamento profissional presencial e de treinamentos específicos do esporte são preocupantes, e podem desfavorecer a aptidão física e o desempenho do atleta. Para Lopes, o que se teme no retorno pós-pandemia, além de lesões musculoesqueléticas em consequência do treinamento adaptado e às vezes inadequado, são as possíveis sequelas da COVID-19 nos atletas que se infectaram. “É possível que eles apresentem problemas respiratórios ou miocardites, impactando negativamente o seu condicionamento aeróbico”.

No universo de atletas atendidos pelo Into, um hospital público federal especializado em atendimento cirúrgico na área de Ortopedia e Traumatologia, Jamila diz que uma das motivações para se dedicar a esse estudo epidemiológico foi o fato de que muitos desses atletas precisam se dedicar a outra atividade para garantir uma renda. “Não podemos esquecer que apesar da excelência e de também abrigar o Centro de Medicina do Esporte, a maioria dos atletas atendidos no Into não tem plano de saúde”, destaca. Segundo ela, a realidade da maioria dos jogadores é bastante diferente daqueles que recebem salários exorbitantes, sendo inclusive muito comum atletas jogarem machucados, com dor, para não serem afastados do time.

O afastamento das atividades esportivas já causa uma crise financeira no meio esportivo, colocando em risco a atividade profissional dos atletas. Segundo Lopes, alguns clubes já reduziram salários, de acordo com a realidade econômica enfrentada pelo setor com a pandemia. Até mesmo a seleção olímpica de voleibol masculina, campeã em 2016, atualmente tem metade de seus jogadores sem contrato, ou seja, desempregados. “O esporte faz parte do entretenimento da sociedade. Porém, por vezes os atletas são tratados como mercadorias, sem considerar suas limitações físicas e abalos psicológicos que qualquer outro ser humano pode sofrer”, assinala o pesquisador. Lopes se preocupa com o retorno dos atletas às atividades após a pandemia. “Como os atletas irão retornar com sua rotina de treinamento de alta intensidade e em curto tempo para competições, sem sofrer lesões? Como estará o psicológico e o preparo físico dos atletas?”. Ele lembra que será fundamental considerar o tempo de readaptação dos atletas com a adoção de programas de retorno ao esporte.

As equipes de pesquisadores envolvidas no estudo aguardam a apreciação do questionário elaborado a ser submetidos aos atletas pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Além de Jamila e Lucas, compõem a equipe da Uezo Ana Carolina Leocadio de Souza, Camili Gomes Pereira, Jade Pires do Nascimento e Victor Soares Wainchtock. Já a equipe do Into é composta pelos pesquisadores Rodrigo Araújo Goes, Victor Rodrigues Amaral Cossich, Vitor Almeida Ribeiro de Miranda, João Antônio Matheus Guimarães e João Alves Grangeiro Neto.

O questionário abordará questões sócio demográficas, características do treinamento a que estão se submetendo, seus hábitos de vida e saúde, informações sobre a COVID-19 e a pandemia, incluindo se o atletas e/ou alguém da sua família foi infectado e o apoio dado pelo clube; aspectos sobre seu comportamento durante o distanciamento social, e sua escala de resiliência, ou seja, sua capacidade de lidar positivamente com as dificuldades. O que os pesquisadores também indagam é se a medicina esportiva está preparada para enfrentar todas as consequências da pandemia. E esperam que o estudo possa contribuir para esse enfrentamento. A revista The Lancet, um dos mais prestigiados periódicos científicos, publicou, no início de abril, artigo sobre os eventuais problemas respiratórios enfrentados pelos atletas com a chegada da pandemia:

https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lanres/PIIS2213-2600(20)30175-2.pdf

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