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Publicado em: 07/05/2020

Entrevista: Eliezer Barreiro, farmacêutico e coordenador do INCT Inofar/Lassbio

 Juliana Passos

Quantidade e precisão de testes varia de
acordo 
com o tipo de medicamento,
diz o coordenador do 
INCT - Inofar,
Eliezer Barreiro
 (Foto: P
eter Ilicciev/Fiocruz)

Um dos mais renomados pesquisadores na área de síntese e avaliação de novos compostos com vistas à produção de fármacos, o professor e farmacêutico Eliezer Barreiro acompanha de perto os desdobramentos da pandemia provocada pela Covid-19 no País. Ao longo dos anos, ele tem se dedicado à descoberta de novas moléculas, seja na natureza, capaz de fornecer uma infinidade de possibilidades, seja àquelas sintetizadas em laboratório. Diretor do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lassbio/ICB/UFRJ) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Fármacos e Medicamentos (Inofar/INCT), Barreiro destina boa parte de seu tempo à prospecção de moléculas dentro do Lassbio, a fim de investigar seu possível uso no tratamento de diversas doenças. O potencial do banco, construído ao longo de vários anos pelas equipes de pesquisa e que atualmente conta com mais de duas mil moléculas registradas, foi motivo de um acordo de cooperação firmado em maio de 2019 com a farmacêutica Eurofarma, para o desenvolvimento conjunto de fármacos e intercâmbio de recursos humanos. Em entrevista ao Boletim FAPERJ, o pesquisador explica como se dão os processos que levam à criação de um novo medicamento, o tempo e os cuidados necessários à sua elaboração, e cita um antiviral que considera promissor no combate ao Covid-19. Um nome de referência na farmacologia brasileira, Barreiro recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado, tendo sido contemplado, igualmente, em diversas outras iniciativas de fomento à pesquisa lançadas pela Fundação em anos recentes.

Boletim FAPERJ – Como o Inofar/Lassbio tem atuado nesse tempo de pandemia?
Eliezer Barreiro – Lançamos, no início de abril, edital interno que faz, na prática, uma convocação de todos os pesquisadores que atuam no Inofar para juntar esforços no combate à Covid-19. O edital é voltado, em especial, aos pesquisadores jovens, presentes em grande número dentro do Inofar, e que já demonstraram todo o seu potencial para o futuro da pesquisa brasileira nesse setor. Evidentemente, esse é um esforço complementar, pois não temos tempo hábil, nesse momento, para montar um projeto de início, meio e fim. De todo modo, estamos muito otimistas de que vamos receber boas propostas, confiantes não só na competência dos pesquisadores como também em nosso banco de moléculas.

Como é o processo da seleção da molécula ao desenvolvimento do medicamento?
Esse é um processo demorado, de tempo indefinido. Podemos falar em uma média de cinco a oito anos para que se cumpra todas as etapas de testes, o que também varia de acordo com a função do medicamento. Medicamentos de uso contínuo, por exemplo, necessitam de um número de testes de segurança muito maiores do que para uma doença pontual, como a Covid-19. Na produção de um novo medicamento, trabalhamos com duas diretrizes importantes. A primeira delas é a confirmação de eficácia, que chamamos de prova de conceito. Nessa prova é preciso saber se o que foi planejado está demonstrado na prática. Se a molécula realmente fez aquilo que desejávamos. Em seguida, o medicamento em teste chega a uma segunda etapa, muito relevante nesse processo, que é o aspecto da segurança. Esse é o que toma mais tempo. Além de eficazes, essas moléculas precisam ser seguras, e, nesse percurso, passam por estágios de avaliação in vitro e in vivo. O grande desafio é não ter um grande nível de toxicidade. É importante ressaltar que uma molécula dificilmente não provocará efeitos colaterais. E, hoje, temos uma pressão muito grande para que aquilo que der certo nos experimentos iniciais possa atravessar rápido as demais etapas. Mas nós não podemos sacrificar a segurança.

Eliezer Barreiro: para o pesquisador, dificilmente uma molécula não provoca efeitos colaterais (Foto: Arquivo pessoal)

Existe algum remédio promissor no tratamento da Covid-19?
O Redemsivir é um medicamento bastante promissor que está em fase de desenvolvimento por uma empresa biofarmacêutica nos Estados Unidos. Essa empresa conseguiu identificar um potencial bastante interessante para esse antiviral. Os resultados disponíveis até aqui mostram que esse medicamento pode ser bastante funcional. Mas voltamos novamente ao ponto anterior: o que é promissor não é necessariamente seguro. Mas, claro, novos ensaios merecem ser feitos e estamos na expectativa de ver a evolução dessas pesquisas. Há inúmeros outros projetos que visam à produção de um medicamento destinado ao combate da Covid-19, que ainda não apresentaram resultados tão promissores. Consideramos esse esforço de pesquisa positivo, em que muitos se dedicam a encontrar uma solução. Os estudos com essa molécula, do Redemsivir, já estão na fase 3, em testes clínicos. Inicialmente, o remédio foi desenvolvido para um outro vírus, o ebola, mas não vingou. Essa nova testagem de remédios que não deram certo para determinadas doenças, e que acabam sendo testadas para outras, é bastante comum. Isso não é uma prorrogativa que surge agora. Isso aconteceu, por exemplo, com o AZT, inicialmente pensado para a herpes, mas que acabou funcionando bem contra os efeitos da Aids.

Como o senhor comentou, o foco dos pesquisadores tem sido testar medicamentos que já existem no mercado. Qual o tempo médio para realização desses testes?

Tudo depende da finalidade terapêutica que você esteja estudando. Existem protocolos de avaliação diferentes para cada doença. Então, você tem o que os americanos chamam de fast tracking, e isso altera as exigências e cuidados. Devo dizer que a doença que enfrentamos agora não demandará uso contínuo e, com isso, as diretrizes de segurança têm características diferentes se comparadas às de um medicamento antidiabético, que acompanhará o paciente por toda uma vida. Isso não é ser menos cuidadoso, é ser cuidadoso para as necessidades que o medicamento exige. No caso do Redemsivir, eu acho que deve levar, no mínimo, de oito a doze meses para chegar às prateleiras das farmácias. Em caráter experimental, podemos ter muito antes, como já ocorre nos Estados Unidos, após a aprovação da FDA [Food and Drug Administration, agência com funções similares às da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa)]. Aqui no Brasil, certamente seremos escolhidos para os testes clínicos por conta de nossa diversidade étnica.

Por que é tão difícil ter um bom antiviral?
As farmacêuticas são movidas por demandas mercadológicas, em que o mercado define as necessidades médicas maiores, e, desse modo, essas empresas atuam em linhas específicas, com recursos humanos especializados no desenvolvimento de certos tipos de medicamentos. Já as doenças transmissíveis ocorrem em ondas, e a corrida por medicamentos geralmente inicia com a chegada de um novo agente patogênico. No caso da Covid-19, há uma necessidade médica inegável, e quem chegar primeiro nessa corrida vai ter vantagem. A herpes, que hoje tratamos tranquilamente, levou a farmacêutica que fabricou o primeiro remédio para a doença a se tornar uma das cinco maiores empresas do setor no mundo. Epidemiologicamente falando, o período no qual entramos agora – entre abril e junho – é anualmente uma época favorável a doenças respiratórias. Isso poderia inspirar ciclos de investimentos por parte das empresas. Mas há uma certa timidez de envolvimento sistemático. Há exceções, como a fabricante da Redemsivir, que se dedica a antivirais, e isso a projetou como empresa bastante respeitada nesse segmento, digamos assim.

Como em outras doenças, a infecção pelo vírus abre uma janela para a entrada de outras infecções. Já existem boas opções de medicamentos para combater essas doenças oportunistas?
O mais complicado hoje, na minha opinião, é que ainda não se conhece como esse vírus pode exacerbar a vulnerabilidade de pacientes que têm comorbidades já detectadas. E temos diversos estudos que identificaram essa capacidade do novo coronavírus. Então, a preexistência dessas doenças complica muito mais a garantia de sucesso na terapia, ou seja, a segurança antes obtida por determinados medicamentos já não está mais garantida sem que se conheça os mecanismos de atuação do vírus.

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