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Publicado em: 13/12/2019 | Atualizado em: 19/12/2019

Pesquisa avalia o uso da cama de aviário como adubo na agricultura

Paula Guatimosim

Usada para absorver a umidade e promover conforto térmico ao longo
do ciclo de produção do frango de corte, a cama de aviário acumula
fezes, 
urina, restos de ração, produtos veterinários e penas (Fotos: UFRJ)

A carne de frango é a proteína animal cuja produção e consumo mais cresceram no Brasil e no mundo nos últimos 40 anos. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil é o segundo maior produtor mundial de frangos, superado apenas pelos Estados Unidos. A partir de 2003, o País passou a ser o maior exportador mundial, com embarques superiores a quatro milhões de toneladas, e, desde 2006, a carne de frango tornou-se a mais consumida pela população brasileira. Recentemente a produção nacional ultrapassou a marca de 13 milhões de toneladas/ano, e segundo projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, é esperado um aumento de 30% na produção no período de 2018 a 2028.

A avicultura gera um importante subproduto, a cama de aviário. Composta por uma mistura de material orgânico utilizado para forrar o piso dos galpões de produção (serragem, palha de arroz, feno de capim, entre outros), que absorve a umidade e promove conforto térmico, a cama acumula fezes e urina das aves, restos de ração, produtos veterinários e penas, ao longo do ciclo de 45 a 50 dias de produção dos frangos de corte. Devido à presença de altos teores de matéria orgânica e de macronutrientes, principalmente nitrogênio, mas também fósforo e potássio, a cama de aviário é utilizada amplamente como fertilizante em solos agrícolas.

Recentemente, pesquisadores do Programa de Biofísica Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a colaboração de pesquisadores dos Institutos de Microbiologia (IMPG) e de Saúde Coletiva (IESC), também da UFRJ; da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e da Universidade de Guanajuato, no México, publicaram artigo no Chemosphere, periódico especializado em química ambiental da editora Elsevier, com os resultados das investigações sobre as altas concentrações de antibióticos em amostras de cama de aviário e solos agrícolas, além de sua contribuição para a emergência de resistência aos antibióticos.

Desdobramento da tese de doutorado do biólogo Cláudio Ernesto Taveira Parente, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ – orientado pelo biofísico Olaf Malm, que recebe apoio da FAPERJ para suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado –, o artigo confirma uma preocupação de nível mundial em relação ao uso de antibióticos na produção animal. A pesquisa alerta para a possibilidade de contaminação do solo e dos recursos hídricos (rios, lagos para irrigação e poços para consumo humano) em áreas agrícolas. O estudo foi realizado na Região Serrana do Rio de Janeiro, em especial no município de São José do Vale do Rio Preto. Maior produtor de frangos e ovos do estado, o município é, portanto, o maior fornecedor de cama de aviário usada como fertilizante agrícola em municípios da Região Serrana, como Nova Friburgo e Teresópolis, grandes abastecedores de legumes e verduras para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. De acordo com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Rio de Janeiro, São José do Vale do Rio Preto produz anualmente 15 milhões de frangos e quase quatro milhões de dúzias de ovos, o que gera em torno de 30 mil toneladas de cama de aviário por ano.

O subproduto dos aviários é utilizado como fertilizante agrícola
em municípios produtores de hortigranjeirtos da Região Serrana

Segundo Cláudio Parente, o uso de antibióticos na produção animal tem sido objeto de preocupação na Organização Mundial da Saúde (OMS) e na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Além de serem administrados aos frangos com objetivos terapêuticos e profiláticos, os antibióticos também são usados como promotores de crescimento. Ações com o objetivo de reduzir o uso de antibióticos veterinários tiveram início na Suécia, em 1986, com a proibição do uso dos promotores de crescimento, seguida por toda a União Europeia em 2006 e, mais recentemente, pelos Estados Unidos, com estratégias para a redução do consumo de antibióticos junto ao setor agropecuário. Nesse sentido, o Ministério da Saúde brasileiro, em sua Agenda de Prioridades de Pesquisa, publicada em 2018, aponta como prioritários os estudos sobre a contaminação por antibióticos em mananciais brasileiros e suas consequências para a saúde humana. “No âmbito estadual, o governo do Estado do Rio de Janeiro está financiando pesquisas como a nossa, que podem nortear políticas e ações mitigadoras, e isso é fundamental. O apoio da FAPERJ em pesquisas de ponta ajuda a antecipar soluções para problemas mundiais, mas que devem ser solucionados localmente”, reconhece Cláudio Parente.

O trabalho da equipe do Instituto de Biofísica investigou a presença de antibióticos no solo, em decorrência do uso da cama de aviário como adubo. Foram avaliados solos naturais, que nunca tiveram contato com a cama de aviário; solos de lavouras que utilizaram esse fertilizante no período de apenas um ano e solos onde foi aplicada a cama como adubo por 30 anos. Os pesquisadores confirmaram a presença de genes resistentes aos antibióticos nos solos com 30 anos de aplicação da cama. Os resultados sugerem que o uso da cama por um longo período contribui para a ocorrência de bactérias resistentes nos solos agrícolas.

Entre os antibióticos de uso veterinário, a enrofloxacina, do grupo das fluoroquinolonas, é bastante difundida na produção avícola, devido ao seu amplo espectro antimicrobiano. Segundo o estudo, a enrofloxacina, de uso restrito veterinário, pode ser biotransformada no trato digestivo dos animais em ciprofloxacina, um antibiótico muito difundido pela medicina humana. A classe das fluoroquinolonas (que inclui ambos antibióticos) é considerada pela OMS de “importância crítica para a saúde humana”. “Antibióticos e bactérias resistentes presentes no solo podem ser lixiviadas (carregadas) para os reservatórios ou cursos d’ água utilizados para a irrigação de lavouras, podendo também contaminar os hortigranjeiros cultivados ou expor trabalhadores que lidam diretamente com a terra, em sua maioria da agricultura familiar”, explica Parente. Além disso, acrescenta o pesquisador, há impactos sobre a atividade bacteriana do solo, podendo afetar diretamente a ciclagem de nutrientes e a fertilidade do solo. A pesquisa incluiu, ainda, a investigação sobre a contribuição do uso da cama de aviário como fonte de metais pesados como cobre, cromo, zinco, chumbo e manganês para o solo, afetando também a qualidade de ambientes agrícolas.

“A contaminação ambiental por antibióticos contribui diretamente para a seleção de bactérias resistentes. Além da exposição ambiental, principalmente por residentes e trabalhadores em áreas rurais, consumidores de alimentos contaminados com resíduos de antibióticos ou com cepas bacterianas resistentes aos antibióticos podem estar expostos, mesmo a quilômetros de distância, como por exemplo, em áreas urbanas”, explica o pesquisador. No caso de bactérias patogênicas, a seleção da resistência aos antibióticos pode dificultar a ação terapêutica dos medicamentos disponíveis, aumentando o tempo e o custo da internação de pacientes. Na opinião de Parente, o fenômeno da multirresistência aos antibióticos e a seleção das superbactérias é um tema de grande relevância, uma vez que abrange as esferas da qualidade ambiental, segurança alimentar e saúde pública.

Claudio Parente: “São muitos os desafios para produzir alimentos
de forma sustentável para atender as necessidades da população
global ainda com tendência de aumento nas próximas décadas"

“Reconhecer que existe um problema e que ele é uma preocupação global já é um grande passo”, alega o pesquisador, acrescentando que outros grupos de pesquisa também vêm buscando alternativas para solucionar o problema. Ele lembra que algumas empresas já vêm oferecendo frangos e ovos produzidos sem o uso de antibióticos e até mesmo totalmente orgânicos, e que este é um mercado em franca expansão. Por outro lado, destaca que esse tipo de produto ainda está restrito à população de maior poder aquisitivo.

No setor de produção, ele destaca a possibilidade de uso de biodigestores para tratamento da cama de aviário, medida que não só gera energia para o produtor utilizar no aquecimento dos galpões como também o material resultante da biodigestão pode ser usado na adubação. A compostagem do resíduo de aviário também tem sido uma opção utilizada no campo, mas alguns estudos identificaram que ambos os processos reduzem os níveis de contaminação, mas não o solucionam completamente.

Diante da complexidade do tema, o conceito “One Health” formado por um conjunto de ações preconizadas por organismos internacionais, dentre eles OMS e FAO tem como objetivo integrar ações de áreas ligadas à segurança alimentar, ao controle de zoonoses e ao combate à resistência aos antibióticos. “São muitos os desafios para produzir alimentos de forma sustentável para uma população global ainda com tendência de aumento para as próximas décadas. Nesse contexto, o desenvolvimento de pesquisas e de ações públicas integradas é fundamental para a busca de soluções”, finaliza Parente.

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