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Publicado em: 24/10/2019 | Atualizado em: 25/10/2019

Formulação de nova enzima pode amenizar efeitos colaterais no tratamento da leucemia

Paula Guatimosim

Estrutura quaternária da L-asparaginase II de E. coli
determinada por cristalografia de raios-X.
(Imagem: UFRJ)

Foi com a ajuda do fermento utilizado para fazer pão que a pesquisadora Luciana Facchinetti de Castro Girão desenvolveu a formulação de uma nova enzima que poderá neutralizar os graves efeitos colaterais do principal medicamento utilizado no tratamento da leucemia linfoide aguda. Esse tipo de câncer, que afeta principalmente crianças, é tratado com medicamento à base de asparaginase, uma enzima de origem bacteriana, que apesar de comprovadamente terapêutica, provoca sérios efeitos colaterais. A nova formulação da asparaginase, a partir de levedura utilizada para a fermentação da massa do pão, pode amenizar as reações adversas do medicamento. A pesquisa de Luciana, desenvolvida com bolsa de doutorado sanduíche da FAPERJ, numa parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade de Lisboa, lhe rendeu o Prêmio Octávio Frias de Oliveira 2019 - na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia - promovido pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo desde 2010. O trabalho desenvolveu uma nova metodologia de formulação da asparaginase, batizado de enzimossomos, cuja patente já está inscrita no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Enzimas são catalizadores biológicos com atuação específica e eficiente. As primeiras enzimas terapêuticas foram identificadas na década de 1980. Ao longo dos anos, as diferenças entre células tumorais e sadias vêm sendo estudadas intensamente, na busca do desenvolvimento de novas drogas. Atualmente, formulações enzimáticas são utilizadas no tratamento de diversos tipos de doenças como câncer, fibrose cística, inflamações, deficiências metabólicas, entre outras. Luciana explica que, para tanto, é necessário purificar as enzimas, que além de alto grau de pureza, devem apresentar estabilidade e especificidade. Um dos desafios à sua maior utilização é aumentar seu período de estocagem. Por isso, a maioria das disponíveis no mercado é liofilizada (desidratada).

“A asparaginase é uma enzima de origem bacteriana, obtida através do Escherichia coli, e princípio ativo do principal medicamento para leucemia linfocítica comercializado no Brasil. Por ser importado, este remédio tem alto custo e sua disponibilidade é bastante irregular, especialmente na rede pública de saúde”, esclarece a pesquisadora. Segundo ela, apesar de sua eficácia no tratamento do câncer, devido a sua capacidade seletiva de atacar apenas as células tumorais, a asparaginase pode provocar graves efeitos colaterais, entre eles trombose, hemorragia, imunossupressão, pancreatite, o que limita ou até mesmo impede sua utilização.

A pesquisa de Luciana foi justamente investigar a asparaginase proveniente de outras fontes, no caso, seu desenvolvimento a partir de levedura de panificação. Combinada a outras moléculas (formulação), a asparaginase II, pode ajudar a fazer com que o organismo não reconheça o medicamento como corpo estranho, reduzindo as reações adversas graves. Sob o título Escalonamento da purificação, estudo estrutural e formulação da asparaginase II de Saccharomyces cerevisial clonada e expressa em Pichia pastoris, a tese de doutorado em Ciências Bioquímicas de Luciana Facchinetti contou com orientação de Elba Pinto da Silva Bon (UFRJ), Jonas Perales e Maria Antonieta Ferrara (Fiocruz). A bolsa de doutorado sanduíche concedida pela FAPERJ permitiu à pesquisadora desenvolver seu trabalho ao longo de quatro meses na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, em Portugal, ao lado da pesquisadora Maria Luíza Teixeira de Azevedo Corvo, indicada por Elba. Ali, ela experimentou pela primeira vez dividir um trabalho se adaptando ao ritmo alheio. “Cordas nos sapatos”, pedia Luíza Corvo, usando a expressão que significa andar depressa para cobrar de Luciana agilidade, cumprimento de prazos e horários. “Luíza era uma pessoa muito acelerada. Gostava de tudo cronometrado”, conta Luciana, que acabou se beneficiando das exigências de cumprimento de metas e horários, pois pôde ficar mais tempo para se dedicar ao seu primeiro filho, Gabriel.

Luciana Facchinetti explica que combinada a outras substâncias,
a asparaginase II ajuda o organismo a não reconhecer a medicação
como corpo estranho, reduzindo as reações adversas. (Foto: UFRJ)

A pesquisadora revela que apesar do reconhecimento pelo trabalho, traduzido na conquista do prêmio Octavio Frias de Oliveira, e do registro da patente no INPI, não há verba para a continuidade do projeto.  Com os cortes de verba para pesquisa no País, o grupo está à procura de empresas na tentativa de fechar uma parceria público-privada que viabilize economicamente a produção do medicamento.

A leucemia é um tipo de câncer que afeta os glóbulos brancos do sangue, cuja função é produzir anticorpos.  A taxa de mortalidade no Brasil vem aumentando, conforme indica levantamento da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale). Informações do Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2007 e 2016 ocorreram no País 62.385 óbitos decorrentes da doença. Em 2017, foram registradas 831 mortes por leucemia em crianças e adolescentes no Brasil. Estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indica que este ano 12,5 mil novos casos de câncer devem ser registrados no país em pessoas de zero a 19 anos, sendo os mais frequentes a leucemia, tumores que atingem o sistema nervoso central e linfomas. A exemplo de outras campanhas mensais voltadas para a conscientização da população sobre algumas doenças, Fevereiro Laranja foi uma campanha criada para conscientizar e alertar a população sobre a leucemia.

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