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Publicado em: 26/09/2019

Diálogos da Inovação discute rumos da saúde diante das novas tecnologias

Paula Guatimosim

Palestrantes atrairam um bom público à Casa Firjan para debater a
Inovação no setor de saúde (Fotos: Vinícius Magalhães/Firjan)    

A Casa Firjan promoveu, em parceria com a FAPERJ, nesta quarta-feira, dia 25 de setembro, o Diálogos da Inovação na Saúde, com objetivo de identificar quais as oportunidades e os gargalos a serem superados para garantir o desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro nesse setor. Em pauta, as tendências de inovação na área da saúde e as iniciativas de vanguarda que podem ser adotadas. A jornalista e especialista de Projetos Especiais da Firjan, Julia Zardo, apresentou o evento, que foi transmitido em tempo real pela Internet. Ela explicou aos novatos na plateia (cerca de 40% dos inscritos) que a Casa Firjan tem o compromisso de pensar o futuro a partir das mudanças trazidas por novas tecnologias e hábitos de consumo, que devem ser acompanhadas pelas empresas e toda a sociedade. E reforçou que a série Diálogos da Inovação pretende ser uma ponte entre diversos setores para o enfrentamento dos desafios de uma nova economia e uma sociedade em transformação.

O diretor de Tecnologia da FAPERJ, Mauricio Guedes, abriu o debate destacando o perfil dos três palestrantes, diferentes e complementares, e convidou os presentes para o próximo encontro, em 30 de outubro, que discutirá “Dados e Negócios”. Em seguida, anunciou a presença do presidente da FAPERJ, Jerson Lima, a quem passou a palavra. Lima parabenizou a Firjan pela parceria e garantiu que ele e toda a diretoria têm trabalhado incansavelmente para apoiar alunos desde a pré-iniciação científica até o pós-doutorado. Lembrou que a FAPERJ passará a apoiar, por decisão do governador Wilson Witzel, os participantes das Olimpíadas da Matemática. Ele destacou que sendo da área da saúde, setor que no Estado do Rio têm um histórico de excelência, está otimista quanto a possibilidade de o setor fazer a transição, acompanhando e agregando inovações.

“Sabemos que nos Estados Unidos e na Europa existem startups na área da saúde que valem de US$ 100 a 200 milhões, e que, eventualmente, são adquiridas por grandes empresas do setor. Espero que isso também possa acontecer aqui no Rio”, disse. O titular da FAPERJ informou que até o momento a Fundação já empenhou recursos que superam o montante liberado em 2018 e que a agência continua defendendo arduamente que a Constituição seja cumprida no que se refere ao percentual de repasses obrigatórios, além de estar se empenhando para pagar todos os atrasados. Por fim, o presidente da FAPERJ convidou o público presente para a cerimônia de entrega dos termos de outorga aos comtemplados nos editais Cientista do Nosso Estado, Jovem Cientista do Nosso Estado e Rede de Nanotecnologia, a ser realizado nesta sexta (27/09), no Museu do Amanhã, e informou que em breve novo edital será lançado para apoiar micro, pequenas e médias empresas.

O primeiro palestrante foi Ariel Dascal, diretor de Transformação Digital da rede D’Or São Luiz, com passagem pela Oi e Telefônica. Formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), Dascal afirmou que a busca pela inovação é uma necessidade impulsionada pelas pressões por mudanças que agreguem valor aos processos. Para ele, as principais pressões por mudanças sofridas pelo sistema de saúde em todo o mundo é o aumento do envelhecimento da população mundial e a experiência digital da sociedade. Segundo ele, o Brasil já soma 29 milhões de pessoas com mais de 60 anos e a projeção para 2030 é que chegue a 42 milhões. Diante deste cenário, Dascal acredita que a principal mudança na pirâmide da saúde será a predominância das doenças crônicas, o que deverá aumentar a atenção com a prevenção e a gestão da saúde, gerando um aumento no custo da saúde em todo o mundo. Estimativas do Instituto Coalização Saúde mostram que idosos com mais de 60 anos gastam 1,8 vezes mais com consultas, exames e internações do que a faixa etária de 15 a 39 anos. Mantendo a tendência, atual, explica Dascal, o custo com saúde no Brasil passaria de 9,5% do Produto Interno Bruto (PIB) hoje, segundo dados do IBGE, para 25% do PIB em 2030.

Em sua opinião, as inovações a serem adotadas pelo setor devem considerar as mudanças nos hábitos do consumidor brasileiro, que se tornou digital e em 73% do tempo em que está ativo está também conectado via celular, computador etc. Dados indicam que 31 milhões de brasileiros utilizam múltiplas plataformas digitais e possuem três ou mais telas. São Paulo é o líder mundial de utilização do aplicativo Waze, de navegação no trânsito. Segundo Dascal, todas essas transformações vêm impactando muitas empresas e negócios, que já incorporaram várias mudanças. “Muitas atividades que anteriormente dependiam de tempo e deslocamento, hoje podem ser resolvidas pelo celular, como operações bancárias, transporte, alimentação etc. Na saúde, é importante considerar que o paciente passou a ser agente da sua própria saúde”, afirma.

Segundo levantamento de 2018, 47,4 milhões de brasileiros possuem plano de saúde, número que vem caindo devido à crise econômica e ao desemprego. Para que o percentual de segurados particulares não caia ainda mais, o que pressionaria o já precário sistema público, Dascal acredita em novas formas de pagamento, focada em resultados, coparticipação, clínicas populares e verticalização das operadoras. Grandes empresas em todo o mundo buscam formas de se valer da tecnologia para promover a longevidade e a redução de custos com o tratamento e a gestão da saúde de seus colaboradores. Para ele, a proliferação de startups health techs pode auxiliar este processo.

“É preciso discutir um modelo de transformação digital do setor”, disse o executivo da Rede D’Or. Segundo ele, o Brasil possui mais de 500 startups health techs, que desenvolveram produtos voltados para o setor da saúde e há muitos investidores interessados nesse nicho. Deu o exemplo da China, onde a telemedicina já realiza 300 mil consultas por dia, e citou casos de como a Inteligência Artificial já está presente em toda a cadeia da saúde. “No mundo das transformações exponenciais, tanto as novas tecnologias quanto os novos players estão fazendo pressão por mudanças”, disse o executivo.  Para ele, do ponto de vista de um hospital, o foco da transformação digital deve estar baseado em quatro pilares: no empoderamento e experiência do paciente, no suporte e personalização do médico, na digitalização e disponibilização de informações em tempo real para hospitais e clínicas, e, do ponto de vista do setor, a prevenção e a promoção da saúde. No caso da Rede D’Or, que agrega seis milhões de pacientes e possui mais de 45 hospitais, a transformação digital é um grande desafio. Segundo Dascal, o grupo está procurando se integrar, em rede, ao cenário da inovação, incluindo contratos com quatro startups, para evitar surpresas no futuro. Os próximos passos serão voltados para a área do paciente e do médico.

Doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o coordenador de Ações de Prospecção da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Carlos A. Grabois Gadelha, segundo palestrante da tarde, acumula uma experiência de atuação em diversas áreas, tendo ocupado as Secretarias de Programas de Desenvolvimento Regional do Ministério de Integração Nacional; de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde; e Desenvolvimento e Competitividade Industrial no Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comercio Exterior. Como coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento, Complexo Econômico Industrial e Inovação em Saúde da Fiocruz, vê o setor como uma grande oportunidade, de negócios, empregos e desenvolvimento social.

Sua palestra, intitulada Desenvolvimento, Inovação e Saúde: o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), Desafios para o Rio de Janeiro discutiu a saúde com uma visão de oportunidade, considerando que o desenvolvimento pode ser ao mesmo tempo social, econômico, territorial e com base na ciência, tecnologia e inovação, sem necessidade de se fazer escolhas entre essas áreas. Gadelha deu o exemplo do pós-guerra para validar a existência de uma “evidência empírica” de que essas dimensões podem ser articuladas. O economista parte da ideia de que temos, na saúde, um sistema produtivo potente e que só tende a crescer, assim como os gastos com saúde, em função do aumento da longevidade e da redução da mortalidade infantil. “Promoção da saúde é bom, mas também aumenta os gastos”, brincou.

Gadelha considera a saúde a área mais dinâmica do Século XXI, que crescerá no PIB de modo acelerado, que gera intensivo conhecimento em ciência, tecnologia e inovação, e que necessariamente tem uma dimensão local. Ele enfatizou que não há como dissociar as transformações sociais e institucionais das econômicas, nos sistemas produtivos e na C,T&I. O economista mostrou o mapa mundial das assimetrias internacionais a partir da complexidade econômica dos países, e um gráfico que mostra o Brasil perdendo complexidade econômica e voltando a se basear num modelo de exportação de produtos extrativos, em vez de ciência e tecnologia.

Para Gadelha, apesar das desigualdades sociais ainda persistentes no País, saúde é um fator estruturante de bem estar posto que a qualidade de vida é um direito, um forte indutor de desenvolvimento econômico, fator de equidade social e regional, sendo base do desenvolvimento sustentável e tendo ainda papel importante na geopolítica global. Ele defende que a competição faz bem à saúde, não os monopólios. “É um problema sistêmico. O que é setorial é a nossa cabeça. Nesse sentido, sou um liberal”, afirmou, defendendo o papel das startups para reduzir a concentração de conhecimento e poder do setor. Em sua opinião, o complexo da saúde é ultra potente e interdependente, tendo o Estado como promotor e regulador do sistema e as indústrias e os serviços em interação.  Segundo ele, o setor de saúde no Brasil emprega 20 milhões de trabalhadores (diretos e indiretos), agrega 10% dos trabalhadores melhor qualificados, concentra 35% do esforço nacional em pesquisa e desenvolvimento e detém plataformas das tecnologias críticas para o futuro como biotecnologia, nanotecnologia, inteligência artificial, big data, internet das coisas, entre outras.

FAPERJ marcou presença no debate sobre inovação: o presidente
Jerson Lima (à dir.) e o diretor de Tecnologia, Mauricio Guedes,
prestigiaram o evento, que discutiu os rumos da Saúde no País 

Em sua opinião, o complexo econômico-industrial da saúde está sendo revolucionado pela 4ª Revolução Tecnológica. “Hoje, com a hiperdigitalização, não sabemos o que é serviço e o que é produto. Eles se misturam, se complementam. “É o diagnóstico ligado ao tratamento e ao cuidado”, explica Gadelha. Entretanto, ele faz um alerta aos empresários que pretendem ingressar no setor. “Se não gosta do Estado, não trabalhe na saúde, pois é um setor regulado, no qual há ética na pesquisa”, acrescentando que o público e o privado são complementares e passíveis de vários arranjos positivos.

Apesar da evolução na produção científica no País, que hoje ocupa a 14ª posição no ranking mundial, Carlos Gadelha chamou atenção para a falta de crescimento na produção do setor de saúde, que amarga resultado negativo na balança comercial, o que para ele significa que o conhecimento não está sendo transformado em riqueza. Ele ressalta que o investimento em um único equipamento para a área da saúde pode gerar/agregar uma dezena de outras áreas e conhecimentos. Suas estimativas são de que as importações para a saúde representem hoje R$ 80 bilhões, diante do orçamento do Ministério da Saúde de R$ 110 bilhões. Como agravante, a presença da indústria farmacêutica no Rio de Janeiro caiu pela metade. Como provocação final, Gadelha lançou a pergunta: “O Brasil será apenas consumidor e reprodutor de inovação ou vamos entrar no jogo?” E desafiou a todos a romper barreiras cognitivas e políticas “pensando fora da caixa e para dentro da sociedade brasileira”.

A médica ginecologista Renata Aranha, cofundadora da venture builder Atol, que busca identificar, estruturar e potencializar negócios com potencial de impacto econômico, e da Entropia, uma rede de inovação e empreendedorismo, finalizou os debates com uma provocação como título de sua palestra: “Onde estão seus dados de saúde?” Para ela, as farmácias que frequentamos regularmente e os laboratórios onde realizamos exames sabem muito mais do nosso histórico de saúde do que nós mesmos. “Quem não está se apropriando desses dados somos nós”, afirma.

Doutora e mestre em Epidemiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Renata lembrou que nosso modelo de negócio da saúde é baseado na doença, no qual cada setor (operadora de planos, hospitais, clínicas de exames e indústria farmacêutica) tem seus interesses específicos e muitas vezes conflitantes. “O que incentiva, o que remunera, o que faz essas pessoas investirem em seus modelos de negócios é a doença, e não a saúde”, afirmou. Renata falou da ineficiência dos investimentos em saúde, dos quais 30% são desperdiçados por conta de abusos e fraudes no País. Por isso, ela defende a mudança do foco de intenção, propõe o alinhamento de todos os atores envolvidos na busca da saúde e do bem estar por meio da prevenção e do pagamento por hábitos saudáveis.  

Médica com trajetória acadêmica, Renata fez pós-doutorado em Educação porque acredita ser um caminho para se aproximar mais das pessoas. Seu foco mudou radicalmente quando de médica passou a ser paciente. Foi no oitavo mês de gestação, quando enfrentou uma pré-eclâmpsia grave (Síndrome Hellp), que a levou para um CTI. Como acreditar que estava enfrentando um problema totalmente conhecido por ela, dentro da sua própria especialidade, só porque não identificou o momento crítico em que sua pressão subiu demais? A partir desse episódio, passou a querer sensibilizar as pessoas para elas mesmas monitorarem suas doenças, cuidarem da saúde, prestarem mais atenção em si. Sua opção foi, então, trabalhar com tecnologia que chega até as pessoas, como, por exemplo, um software que monitora a pressão sanguínea a custo acessível, e que até poderá ser compartilhado por várias grávidas de um grupo de amigas.

Foi para levar o conhecimento da pesquisa científica acadêmica ao máximo de pessoas que Renata mudou radicalmente sua vida e passou a empreender. “A minha casa virou uma empresa, um movimento para desenvolver soluções tecnológicas para prevenção de doença”, disse. Ela defende o auto monitoramento de cada pessoa em sua própria casa, se apropriando do histórico de dados “espalhados por aí”. Ela defende, inclusive, que o compartilhamento de dados pessoais seja uma opção do indivíduo para colaborar com atores da saúde, como a indústria farmacêutica, por exemplo, que poderá aplicar os resultados em suas pesquisas.

Renata propõe um modelo de carteira digital, que reúna todas as informações e histórico de saúde do paciente, podendo ser fornecido de forma anônima a vários atores do setor em troca de alguma recompensa, não necessariamente monetária. Em sua opinião, a competição não deve ser pelos dados dos pacientes, mas pela melhor gestão, ferramenta e eficiência. Diante da concentração de dados pessoais em empresas como Google, Facebook etc. Renata defende o blockchain, ou seja, as redes sem intermediários, dando o direito às pessoas de realizarem sua própria governança a partir de pactos pré-estabelecidos, em negócios auto implementados.

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