O seu browser não suporta Javascript!
Você está em: Página Inicial > Comunicação > Arquivo de Notícias > Vacina contra pneumonia é eficiente, mas precisa ser atualizada
Publicado em: 29/08/2019 | Atualizado em: 19/09/2019

Vacina contra pneumonia é eficiente, mas precisa ser atualizada

Juliana Passos

Desafio para os pesquisadores é encontrar as bactérias
similares entre os diversos tipos
(Imagem: CDC)

Em tempos de desconfiança sobre a eficácia das vacinas, estudos realizados no Instituto de Microbiologia Paulo de Goés da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) surgem como aliados para o alerta da necessidade de vacinação e da continuidade das pesquisas. A professora e pesquisadora Tatiana de Castro Abreu Pinto, em conjunto com Lucia Martins Teixeira, ambas da UFRJ, e Felipe Piedade Gonçalves Neves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), acompanham a evolução da bactéria Streptococcus pneumoniae no Rio de Janeiro durante uma década, desde que a vacina para combatê-la foi incluída no calendário de vacinação no Sistema Único de Saúde (SUS), em 2010. O levantamento traz boas e más notícias. Embora a vacina funcione, reduzindo em até 90% o número de casos de doença pneumocócica, novos tipos da bactéria estão ganhando força e se tornando resistentes a antibióticos. Longe de ser uma situação de alarme, este é mais um indício de que é preciso manter a ciência em desenvolvimento constante. Tatiana e Felipe Neves recebem apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado.

A principal característica que desafia os cientistas é a grande capacidade de variação da espécie: são 90 tipos diferentes, alguns deles mais ou menos presentes. A primeira vacina contra sete dos tipos mais frequentes foi lançada em 2002. Com o passar do tempo, pesquisas mostraram que esses tipos escolhidos inicialmente como alvos foram desaparecendo e outros começaram a emergir. Assim, em 2010, foram lançadas duas novas vacinas: uma que incorporava três novos tipos aos sete anteriores; e outra que adicionava seis novos tipos. A primeira foi adotada pelo SUS e a segunda está disponível apenas em clínicas particulares. A campanha de vacinação pública foi considerada bem-sucedida e 95% do público-alvo dessa vacina, crianças até cinco anos, foi imunizado.

O efeito da vacina distribuída pelo SUS, a primeira distribuída no Brasil para esta bactéria, é uma das frentes de pesquisa da equipe coordenada por Tatiana. As amostras chegam de hospitais públicos e privados com os quais o grupo firmou parceria, e são colhidas de crianças com até cinco anos, consideradas reservatórios dessas bactérias por ser uma fase de mais contato com outras crianças, mas que geralmente não apresentam sintomas. “O que nós fazemos é determinar quais são os tipos prevalentes em pacientes assintomáticos, que são o principal reservatório da bactéria. E tudo indicava que a vacina seria um sucesso porque os tipos incluídos na vacina também eram os mais comuns no Rio. De fato, isso aconteceu e alguns anos depois do início da vacinação, os tipos vacinais praticamente desapareceram, mas ganharam espaço outros dois tipos, um deles coberto pela vacina que cobre 13 tipos da espécie”, diz a bióloga. As evidências encontradas pela equipe, corroboradas por outras pesquisas, são de que a presença dos tipos alvo da vacina praticamente não existem mais e, como ocorreu com a primeira vacina, novos tipos estão ganhando força, ainda que não apresentem riscos significativos no momento. O monitoramento dos tipos continua sendo realizado tanto na capital fluminense, quanto em Niterói, no laboratório da UFF.

O que os pesquisadores buscam agora são características comuns a todos ou à maioria dos tipos para desenvolver uma vacina mais eficiente. A bióloga destaca a importância da pesquisa básica, que não desenvolverá diretamente nenhuma vacina, mas descreverá características anteriormente inéditas sobre estas bactérias. “A bactéria consegue subverter os tratamentos. Elas têm uma capacidade de evolução muito mais rápida do que nós temos de pesquisar”, explica. Por conta dessa característica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou o organismo como ameaça em potencial (moderada) de superbactéria. No entanto, a pesquisadora garante que não há motivo para alarde. Há inúmeras pesquisas pelo mundo para o desenvolvimento de novas vacinas e a melhoria dos antibióticos. Outro problema detectado pelo grupo de pesquisadores é que a bactéria também está mais resistente aos remédios.

Solução de baixo custo para identificação dos tipos mais comuns

Atualmente, a identificação dos tipos só é possível de ser realizada com a compra de reagentes caros e o uso de mão de obra bastante especializada. Para tornar essa tarefa mais simples e barata, a equipe está trabalhando na caracterização dos tipos a partir de um equipamento disponível atualmente na maioria dos laboratórios de identificação bacteriana: o Maldi-tof MS. O equipamento se assemelha a um frigobar, com o propósito de conservar as amostras, guardadas em baixas temperaturas, e está conectado a um computador. A descrição de cada bactéria é feita por ondas que lembram um exame de batimentos cardíacos. Com isso, os pesquisadores passaram a olhar mais detalhadamente para o padrão descrito e a identificar outras variações que indicam o tipo de Streptococcus pneumoniae. A precisão conseguida até agora foi de 70% e um primeiro artigo foi publicado em 2018 e outro está a caminho.

“A determinação desse tipo de bactéria não é algo trivial. A maioria dos laboratórios não consegue fazer isso. O material reagente é caro e geralmente são centros de referência que estão aptos a fazer esse tipo de caracterização. E, por conta disso, acabamos perdendo muita informação”, lamenta Tatiana. Ela acrescenta que o Maldi-tof não é um equipamento barato, sendo utilizado de forma compartilhada entre os laboratórios do Instituto de Microbiologia da UFRJ, com um custo anual de manutenção de R$ 32 mil.

Divulgação Científica

Tatiana: destaque para a importância da comunicação
para o público não especializado (Foto: Arquivo pessoal)

Desde que ingressou como jovem embaixadora brasileira na Sociedade Americana de Microbiologia (ASM, na sigla em inglês), em 2017, Tatiana tem se dedicado a um trabalho extra: a Divulgação Científica. Como coordenadora do projeto de DivulgaMicro, no último verão ela passou os finais de semana na praia do Leme, extensão de Copacabana, na Zona Sul do Rio, com a exposição Outbreak: Epidemias em um mundo conectado, para a qual teve apoio da ASM. Na exposição, formada por pôsteres, o visitante era informado sobre como as epidemias surgem e as formas de combatê-las, seja por programas governamentais de grande porte até pequenas ações individuais: tomar antibiótico corretamente e se vacinar. De acordo com a pesquisadora, a primeira providência é para evitar a interrupção de tratamento após sentir-se melhor, pois se abre uma oportunidade para o surgimento de bactérias resistentes aos antibióticos. Em relação à vacina, ela lembra que a imunização funciona por agrupamento e é por isso que quando poucos não estão vacinados, esta pessoa também está protegida – é o chamado “efeito rebanho”. “O retorno de doenças consideradas anteriormente raras ou extinguidas, como o sarampo, se deve principalmente ao fato de que o número de pessoas vacinadas dentro da população total hoje foi muito reduzido e já não atinge o mínimo de cobertura para garantir essa imunidade em rebanho”, comenta.

Em um fim de semana de julho, ela voltou a ocupar locais inusitados para falar de ciência, desta vez com a edição brasileira do “Soapbox Science”, evento criado no Reino Unido para valorizar o trabalho das mulheres cientistas. Além da Praça Mauá, as oito pesquisadoras de diversas áreas do conhecimento permaneceram uma manhã no Supermercado Carrefour, na Barra da Tijuca. “Desde o momento em que me tornei professora, passei a me interessar e a atuar na área de Divulgação Científica, estimulada por minha aproximação com a Sociedade Americana de Microbiologia. E depois dessa aproximação eu tenho certeza de que nós dependemos disso para continuar. Eu acompanho isso de perto, até com familiares e amigos, a distância do mundo em que nós, pesquisadores, vivemos, fazendo ciência, daquele do dia a dia de grande parte da população. Uma parcela significativa da sociedade não consegue compreender a importância do que produzimos aqui, que não tem uma aplicação imediata. É realmente muito difícil fazer com que as pessoas entendam o quão importante isso é, ou pode vir a ser, no futuro, para a vida de todos”, avalia.

Compartilhar: Compartilhar no FaceBook Tweetar Email
  FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
Av. Erasmo Braga 118 - 6º andar - Centro - Rio de Janeiro - RJ - Cep: 20.020-000 - Tel: (21) 2333-2000 - Fax: (21) 2332-6611

Página Inicial | Mapa do site | Central de Atendimento | Créditos | Dúvidas frequentes