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Publicado em: 04/07/2019

Limitar o aumento da temperatura global em 1,5°C pode ajudar a salvar o Cerrado

Paula Guatimosim

Chamas no Cerrado: com bioma similar à da Savana,
queimadas recorrentes e fora de controle colocam
em risco sua preservação
(Foto: Divulgação/ICMBio)

Não se discute mais os impactos econômicos, sociais, ambientais e sobre a saúde da população decorrentes das queimadas. Ao lado do uso de combustíveis fósseis, elas são igualmente responsáveis pelas emissões de CO2, principal responsável pelo aquecimento global. O Brasil é um dos países mais afetados do mundo pelas queimadas, particularmente as que ocorrem na Amazônia e no Cerrado, um bioma similar à Savana, cuja composição, estrutura, abundância e diversidade de espécies são modeladas por incêndios recorrentes.

No artigo Impactos da meta de aquecimento global de 1,5°C no futuro das áreas queimadas no Cerrado brasileiro, publicado na Elsevier, a pesquisadora Renata Libonati, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta para a importância do esforço de todas as nações em atingir a meta de aquecimento global em no máximo 1,5° C acima dos valores pré-industriais. O estudo foi desenvolvido em cooperação com pesquisadores das universidades de Lisboa e de Munique. A meta foi estabelecida no Acordo de Paris em resultado de recomendações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e com as projeções de modelos físicos e matemáticos e observações dos impactos referentes ao aquecimento atual de quase 1°C. O aumento de 1,5°C na próxima década é o limite para que o planeta sofra menos os impactos negativos – tanto em intensidade quanto frequência – de eventos extremos na disponibilidade de recursos, sobre os ecossistemas a biodiversidade, e para garantir segurança alimentar, entre outros.

Segundo a pesquisadora, a fórmula para atingir esta meta é mais que conhecida: descarbonizar a economia global, ou seja, substituir ao máximo os combustíveis fósseis por energia renovável e reduzir a prática de queimadas. À frente de pesquisas sobre o assunto há alguns anos, Renata já foi contemplada em edital da FAPERJ, de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro, em pesquisa coordenada pelo professor do Departamento de Meteorologia (IGEO/UFRJ) Leonardo de Farias Peres, e conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Serrapilheira. Ela explica que assim como o triângulo do fogo, que representa os três elementos necessários para iniciar uma combustão, combustível, ignição e oxigênio, no que se refere ao clima, o triângulo é composto pela vegetação, a ação humana e a atmosfera. Considerando que a vegetação pode ser manejada de forma a garantir queimadas mais controladas, que a informação e a educação podem direcionar a ação humana e a atmosfera é previsível, o grupo de estudos fez uma projeção do que pode ocorrer no Cerrado a médio e longo prazo, sem considerar a ação humana e as políticas públicas.

A pesquisa, baseada em dados de satélites, incluindo os da Nasa – agência do governo federal dos Estados Unidos responsável pela pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e programas de exploração espacial –, busca analisar o impacto e a vulnerabilidade do cerrado às mudanças climáticas. Quanto o clima pode influenciar na incidência de fogo? Essa foi a pergunta inicial da pesquisa. E a resposta é impactante: na última década (2003 a 2017), o clima influenciou 71% das queimadas. A partir desta constatação, a pesquisa partiu para a adoção de um modelo estatístico capaz de fazer a projeção da área queimada do Cerrado considerando modelos climáticos para 50 e 100 anos, usando indicações de três cenários delineados pelo IPCC. O cenário pessimista, que considera aumento de 4,5°C a 8,5°C na temperatura global, é totalmente catastrófico, com aumento da área afetada pelo fogo de 39% e 95%, respectivamente, em 2100, o que poderia ocasionar o desaparecimento do bioma. O otimista, que projeta o fim das emissões de CO2, é absolutamente utópico. Já o intermediário considera a possibilidade de aumento de 2,6°C na temperatura global, um número mais próximo da meta de 1,5°C. “Em todos os três cenários verificamos que a área queimada no Cerrado aumentaria até 2050. Entretanto, ao considerar o ano de 2100, no cenário mais próximo da meta de 1,5°C de elevação da temperatura, a área queimada no Cerrado diminuiria 11% em 2100”, revela a pesquisadora. Além disso, a diferenças entre os cenários são grandes, principalmente em relação à probabilidade de ocorrência de eventos extremos de queimadas, que seria reduzida substancialmente no caso de se manter a meta de 1,5°C. Isso porque, segundo Renata, mantida a meta do IPCC, não haveria mais aumento gradativo da temperatura do planeta. Tais projeções consideram apenas o impacto da alteração climática e não inclui a dinâmica da vegetação, aspecto que será objeto de estudos futuros. Entretanto, os resultados já obtidos são uma boa indicação do que se pode esperar no futuro.

Renata Libonati: para a pesquisadora, 
vegetação pode ser manejada de forma a
garantir queimadas mais controladas

Renata explica que o fogo é importante na evolução do Cerrado, onde muitas espécies vegetais dependem dele para se desenvolver. Mas o fogo de origem natural é raro, depende da ocorrência de raios, cuja incidência coincide com o início do período chuvoso, quando o solo e a vegetação estão mais úmidos, o que impede que os incêndios se alastrem. Queimadas acidentais, provocadas pelo incorreto uso do fogo, por exemplo, também são frequentes no Cerrado e de difícil controle. Coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, ela esclarece que o bioma se adaptou ao fogo, técnica iniciada por tribos indígenas e posteriormente por agricultores, visando a “limpeza” de glebas para o cultivo de alimentos, assim como para estimular a brotação, floração e frutificação de plantas nativas, além da reposição de nutrientes no solo. No entanto, essas queimadas se limitavam a pequenas áreas e sempre no regime de mosaico rotacional, ou seja, a área total era dividida em glebas e as queimadas eram feitas anualmente em pequenas áreas para que outras glebas pudessem descansar e se recuperar.

“O fogo pode ser bem gerido. A queimada controlada é muito importante, para que haja manejo correto da vegetação. Nas últimas duas décadas, houve uma grande mudança na cobertura vegetal do Cerrado devido à agricultura e pastagem, ou seja, o homem modificou o regime de fogo no cerrado, o que pode afetar diretamente a fauna e flora da região” afirma a pesquisadora. Além disso, em grandes áreas, o controle do fogo é mais difícil, podendo atingir a vegetação nativa e até mesmo áreas residenciais. A pesquisa concluiu que é muito provável que haja  aumento na intensidade e frequência de fogos no Cerrado, resultado que reforça a importância de se vir a cumprir a meta de limitação do aquecimento global em 1,5°C. Neste sentido, as políticas públicas atuais terão um papel fundamental na preservação deste bioma que é considerado um dos hotspots de biodiversidade do planeta.

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