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Publicado em: 13/06/2019

Pesquisa realizada na Uerj apresenta o "DNA” isotópico da lama que contaminou o Rio Doce

Paula Guatimosim

Mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro
contaminaram toda a extensão do Rio Doce (Fotos: Divulgação/Uerj)

Resultados de pesquisa coordenada pelo geólogo Claudio Valeriano, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicados em maio passado na revista acadêmica Applied Geochemistry, pela primeira vez apresentam o “DNA” isotópico da lama que contaminou a bacia do Rio Doce em decorrência do rompimento da Barragem do Fundão, propriedade da Samarco Mineração, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, ocorrido em Mariana (MG), em novembro de 2015. Segundo o pesquisador, o desastre lançou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no ambiente, contaminando toda a extensão do Rio Doce e ocasionando óbitos. Todo o povoado de Bento Rodrigues foi dizimado, a captação de água para abastecimento de várias localidades foi proibida, houve danos irreversíveis à pesca artesanal e à agricultura, gerando enorme impacto socioeconômico e ambiental. ”A mineradora sempre colocou em dúvida se os metais pesados encontrados na bacia do Rio Doce eram dos rejeitos da lama da barragem. Isto porque, realmente, o rio já estava poluído e a lama se misturou a outros sedimentos. Os novos resultados poderão resolver a questão no futuro, a depender dos resultados isotópicos dos sedimentos que estão sendo coletados na região de Abrolhos”, explica o pesquisador.

O estudo foi conduzido no Laboratório de Geocronologia e Isótopos Radiogênicos (Lagir), da Faculdade de Geologia, em colaboração com o professor Heitor Evangelista, do Instituto de Biologia (Ibrag), ambos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e com pesquisadores do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) e da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, Valeriano coletou amostras da lama depositada às margens do córrego Santarém e dos rios Gualaxo do Norte e Carmo, afluentes do Rio Doce, por 80 quilômetros de extensão a partir do local do acidente, passando pelo povoado de Bento Rodrigues até a localidade de Barra Longa.

Segundo o pesquisador, os equipamentos do Lagir mediram a composição isotópica de neodímio (Nd) e estrôncio (Sr) existente na lama com os rejeitos da mineração da Samarco, que possuem uma assinatura isotópica peculiar, com o mesmo “DNA” do minério de ferro utilizado pela mineradora. “A composição isotópica da lama tem especial utilidade no rastreamento deste poluente, que vem preocupando ambientalistas pela sua potencial ameaça aos ecossistemas marinhos adjacentes à foz do Rio Doce, especialmente devido à presença de metais pesados como mercúrio e arsênico”, garante Valeriano. O estudo passou a ser uma importante ferramenta para detectar a presença da lama, a partir de Barra Longa até a foz do Rio Doce, e novas amostragens e análises estão em andamento. 

O Lagir é o primeiro laboratório de Geocronologia isotópica
do Estado do Rio de Janeiro e o quinto do Brasil 

Não à toa, os primeiros resultados da investigação chamaram a atenção do também pesquisador da Uerj Heitor Evangelista, do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (Laramg). Ele coordenou uma pesquisa no Parque Nacional de Abrolhos, localizado a 250 km da foz do Rio Doce, e descobriu que o rompimento da barragem de Mariana causou danos nos corais. Metais pesados, como zinco e cobre, foram encontrados em amostras de corais recolhidas no arquipélago em 2017 e 2018, deixando uma espécie de rastro químico, mesmo após a lama ter se dissipado. Ou seja, segundo o professor, não foi lama que chegou a Abrolhos, mas os metais pesados que estavam presentes nela. O pesquisador explica que os corais são organismos extremamente sensíveis a qualquer material que esteja na água, e os metais encontrados no interior dos corais foram os mesmos encontrados em alta densidade no rastro da lama.

A pesquisa também deverá dar uma importante contribuição para a avaliação dos estragos causados pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, propriedade da Vale, em Brumadinho, em janeiro deste ano. O vazamento de 13 milhões de metros cúbicos de sedimentos provocou o maior acidente de trabalho do Brasil:  soterrou mais de 250 pessoas (245 mortos e 25 desaparecidos, de acordo com os números oficiais), principalmente funcionários e colaboradores da Vale. A tragédia também ocasionou enormes danos ambientais no leito e às margens do Rio Paraopeba e existe a ameaça de os sedimentos atingirem o Rio São Francisco. “Estou muito otimista, pois acredito que este trabalho poderá ser usado como referência para estudos em Brumadinho”, diz Valeriano, que atualmente está na Áustria, fazendo um estágio sênior, e retornará ao Brasil em outubro.

O pesquisador conta que desde o início dos anos 2000, quando foi fazer pós-doutorado no Canadá, pensava em criar o Lagir, o que se concretizou em 2008, quando foi selecionado em edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Primeiro laboratório de Geocronologia isotópica do Estado do Rio de Janeiro e o quinto do Brasil, o Lagir oferece suporte analítico a projetos de pesquisa interna e externas nas áreas de saúde, recursos minerais, petróleo/gás, meio ambiente e geologia por meio de metodologias de datação de rochas e minerais e de geoquímica de isótopos radiogênicos. O laboratório iniciou suas pesquisas com rochas duras e vem diversificando e ampliando os tipos de amostras analisadas, como sedimentos, aerossol e até fósseis de dentes humanos.

Claudio Valeriano: "O trabalho poderá ser usado como referência para estudos em Brumadinho"

Em 2016, seis meses após o acidente de Mariana, aproveitando que estava em uma banca de mestrado em Ouro Preto, o pesquisador resolveu alugar um carro e fazer as coletas de amostras da lama disseminada pelo rompimento da barragem de Mariana. A partir de 2017, obteve apoio da FAPERJ, por meio do programa Cientista do Nosso Estado, para o projeto “Reservatórios Isotópicos na da margem continental Sudeste do Brasil: investigando os padrões de fornecimento sedimentar e dispersão ao longo das bacias sedimentares antigas e atuais”, que provê recursos financeiros para o estudo de caso do acidente ocorrido em Mariana.

Os resultados preliminares, apresentados em Brasília, chamaram a atenção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), levando a equipe da Uerj a passar a integrar a Câmara Técnica de Monitoramento Ambiental do Ecossistemas Marinhos. Com o objetivo de mitigar e compensar os danos causados pelo acidente, a partir da assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) pela Samarco, foi criada a Fundação Renova, que administra recursos da ordem de R$ 2 bilhões. A Fundação reúne cerca de sete mil técnicos e especialistas de diversas áreas de conhecimento, dezenas de entidades com atuação socioambiental e de conhecimento científico do Brasil e do mundo. Valeriano diz que dezenas de pesquisadores de diversas áreas, incluindo biologia e sociologia, vêm dosando o teor de arsênico e mercúrio presentes nos peixes e frutos do mar, pois o acidente em Mariana teve consequências sérias e duradouras. “Ano após ano, a pluma que chega ao oceano após o período de cheia dos rios leva mais veneno”, preocupa-se o pesquisador, que não vê a hora de retomar suas pesquisas.

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