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Publicado em: 10/01/2019

Pesquisa na UFRJ sobre Alzheimer ganha destaque na Nature Medicine

Paula Guatimosim

Imagem mostra a irisina (em vermelho, anti-FNDC5) em neurônios hipocampos em cultura (em verde, anti-beta-tubulina III)

Não há mais dúvida quanto aos benefícios da atividade física para a manutenção da saúde. Médicos de todas as especialidades recomendam exercício como importante mantenedor da saúde e coadjuvante da medicação. O que não se sabia, até agora, são os efeitos positivos desse hábito saudável sobre a Doença de Alzheimer (DA), que atinge mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com Organização Mundial de Saúde, dos quais um milhão no Brasil. Pesquisadores brasileiros, coordenados pela neurocientista do Instituto de Bioquímica Medica da UFRJ Fernanda De Felice, identificaram que a irisina, um hormônio produzido pelos músculos durante a prática de exercícios, protege o cérebro e pode ajudar a prevenir e até mesmo reverter ou estacionar os sintomas da doença em camundongos que são modelos da Doença de Alzheimer. Fernanda recebe apoio da FAPERJ por meio do programa "Cientista do Nosso Estado".

“Evidências apontam que a disfunção da sinalização hormonal no sistema nervoso central pode estar subjacente ao desenvolvimento de condições neurodegenerativas como a DA. Neste sentido, testar o potencial neuroprotetor de hormônios insulina, GLP-1 e irisina abre novos caminhos para o desenvolvimento de terapias eficazes”, explica Fernanda. Com pesquisas focadas nas disfunções metabólicas, há dez anos ela se dedica ao estudo dos efeitos dos hormônios sobre a Doença de Alzheimer. Mas foi após a descrição da irisina pelo pesquisador Bruce Spiegelman, da Universidade Harvard, em 2012, que sua equipe intensificou a investigação sobre sua influência no cérebro e sua deficiência em pacientes.

Testes com camundongos confirmaram essa molécula-chave mediando efeitos benéficos sobre a doença. O aumento da irisina, assim como sua proteína precursora FNDC5, reduz o déficit de memória e aprendizagem em roedores com Alzheimer. Em contrapartida, quando essa substância era bloqueada no cérebro dos ratos doentes, os animais perdiam os efeitos cognitivos benéficos trazidos pelo exercício físico. Mas como a doença geralmente acomete idosos e, em alguns casos, deficientes físicos, não há como promover a prática de exercícios entre os enfermos. A possibilidade do desenvolvimento de medicamentos à base da molécula de irisina, um dos próximos passos da pesquisa, motivou a "Nature Medicine", uma das mais importantes revistas científicas do mundo, a publicar um artigo com o resumo do estudo. Outras questões a serem elucidadas, segundo a pesquisadora, é a identificação dos receptores da irisina e como essa molécula media as melhoras nos pacientes.

Fernanda explica que coordenou sua equipe de trabalho em conjunto com o professor do Instituto de Biofísica Sergio Ferreira, e contou com a importante colaboração do Instituto D’or de pesquisa, especialmente da professora Fernanda Tovar-Moll. A equipe ainda não identificou a dose necessária de atividade física para assegurar os benefícios do hormônio, mas diversas pesquisas vêm sugerindo que não importa o tipo de exercício – orientado em academia, caminhada, corrida, pedal, natação - não há dúvida de sua importância para o metabolismo e manutenção do equilíbrio cerebral e como preventivo de doenças. Entretanto, alerta que, além da atividade física, é necessário agregar outros hábitos saudáveis de alimentação, evitando alimentos industrializados, fumo e bebida alcoólica para evitar a Doença de Alzheimer.  A cientista ressalta o fato de a DA ser uma doença silenciosa, de difícil prevenção, com apenas 2% a 5% de fator hereditário e ainda sem terapia efetiva, apesar dos avanços da pesquisa. Sua torcida é para que seu trabalho desperte o interesse de outros pesquisadores, e que num esforço conjunto e complementar, possam ser identificados biomarcadores do cérebro e o desenvolvimento de uma terapia acessível, especialmente à população mais carente.  

Fernanda De Felice: "Apoio da FAPERJ foi 
fundamental para a condução do meu trabalho"

Graduada em Ciências Biológicas pela UFRJ, Fernanda é mestre e doutora em Química Biológica, também pela UFRJ, e fez pós-doutorado em Neurobiologia da Doença de Alzheimer na Northwestern University (EUA). Cientista do Nosso Estado, a pesquisadora vem recebendo apoio do CNPq e da FAPERJ ao longo de sua carreira, desde 2001. “O apoio da FAPERJ sempre foi fundamental para a condução do meu trabalho, sem ele não teria chegado onde cheguei. Se precisei buscar recursos fora do Brasil, foi devido à grave crise que assolou o País. Mas, ainda assim, foi essencial o esforço da diretoria de manter as bolsas na crise. O primeiro autor desse trabalho, Mychael Lourenco, teve bolsa de Doutorado Nota 10 da FAPERJ, e, em seguida, foi Pós-doc Nota 10 da FAPERJ”. Conduzido nos Institutos de Bioquímica Médica e Biofísica do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ, e na Queen’s University, em Ontario (Canadá), o estudo “Ações neuroprotetoras do hormônio irisina em modelos da doença de Alzheimer” há dois anos recebeu financiamento da Sociedade Canadense de Alzheimer. À época, entre 200 pesquisadores de ponta, Fernanda foi uma das três bolsistas a receber US$ 150 mil para o desenvolvimento do seu projeto.  

Patologia neurodegenarativa crônica, a doença de Alzheimer (DA) tende a ter incidência cada vez mais crescente nas próximas décadas, não só devido ao aumento de longevidade das populações como pela adoção de hábitos de vida pouco saudáveis.  Sua denominação é homenagem ao neurologista alemão Alois Alzheimer, que em 1907 primeiro descreveu a patologia, cujos sintomas iniciais são os lapsos de memória recente recorrentes. Estudos comprovam que a idade é o principal fator de risco para a Doença de Alzheimer, embora a obesidade e o diabetes, entre outras disfunções metabólicas, possam contribuir para o seu desenvolvimento em estágios mais tardios da vida. “Cada estágio da doença vai agregando perdas cognitivas, decorrentes da morte dos neurônios e a consequente deterioração das funções cerebrais”, explica a professora da UFRJ.

A doença se caracteriza por perda de neurônios em áreas cerebrais responsáveis por memória e aprendizado. Ao longo da evolução da DA, que ocorre, em média, de oito a dez anos, o paciente perde suas habilidades espaciais e visuais, passa a ficar desorientado, com oscilação de humor, tende ao isolamento, chegando à perda da fala e o comprometimento dos movimentos, até a demência e a perda total da autonomia. Para os familiares, geralmente cuidadores dos doentes, lidar com a DA é uma tarefa muito difícil. Quem sabe as pesquisas de Fernanda e sua equipe possam viabilizar uma nova terapia eficaz para atenuar ou reverter a progressão da doença?

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