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Publicado em: 29/11/2018

Pesquisadores formam rede para estudar a história do trabalho têxtil no País

Juliana Passos

Uma história do movimento operário nas indústrias têxteis fora dos grandes centros urbanos, que fale da mobilização de trabalhadores no interior do País e dê o devido peso ao protagonismo das mulheres. Essa foi a proposta do professor e pesquisador do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Felipe Ribeiro, bolsista de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ. Uma pesquisa que não só mostrou similaridades das experiências em diversas regiões do País, como permitiu observar o surgimento de uma nova forma de registrar o passado em tempos recentes, a partir da atuação de historiadores nativos.

Felipe Ribeiro vem de três gerações de 
trabalhadores têxteis (Foto: Divulgação)

O tema não é novo para Ribeiro, que trabalha com a temática desde o Ensino Médio, quando fazia jornais escolares para registrar as memórias dos moradores do distrito operário em que viveu, na cidade de Magé (RJ). “Nessa época houve uma demanda dos operários para que suas histórias fossem contadas no jornal. Isso tudo me levou a optar pela faculdade de História”, relembra.

Debruçado sobre a história de sua cidade até a conclusão de sua tese de doutorado, tendo sua dissertação de mestrado premiada pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro  e seu livro “Memórias da Moscouzinho” (Paco Editorial, 2016) agraciado com o Prêmio Baixada 2016 na categoria produção acadêmica, Ribeiro decidiu ampliar seu recorte para o âmbito nacional. “Sabíamos dessa possibilidade por conta dos encontros com outros pesquisadores em congressos, mas tínhamos a ambição de formalizar uma rede para potencializar trabalhos conjuntos”, conta. O resultado foi a descoberta de mais de 120 trabalhos – entre monografias, dissertações, teses e artigos. Parte significativa desse conjunto foi realizado por jovens pesquisadores, muitos deles também filhos e netos de gerações de operários da indústria têxtil ou moradores de cidades com forte tradição em fábricas de tecidos. Como foi também o caso de Ribeiro, em que três gerações de sua família trabalharam na indústria têxtil e ele próprio foi morador de uma vila operária. “Isso só foi possível com a interiorização das universidades realizada na última década”, explica.

Mapeamento

O relatório da Comissão Executiva Têxtil (Cetex), de 1946, foi o guia inicial para o encontro dos estudos mapeados pela pesquisa. No período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), considerado uma era de ouro para a indústria têxtil do País, existiam 420 fábricas de tecidos de algodão. Pouco mais da metade estavam em São Paulo. Outros estados que reuniam um bom número de fábricas e empregados eram Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Alagoas e Paraíba, que juntos respondiam por 84% das unidades têxteis instaladas no Brasil. As empresas Bezerra de Melo e Companhia de Tecidos Paulista reuniam a maior quantidade de trabalhadores. Como exemplo, Ribeiro cita que somente em Pernambuco a Companhia de Tecidos Paulista registrava 10 mil funcionários, número que pode ser ainda maior devido às subnotificações.

Operários de Magé comemoram vitória dos
Aliados sobre Eixo em 1945 (Foto: Acervo/Cedim)

Esses números fornecem uma dimensão da importância da indústria têxtil na metade do século XX e foram reforçados pelo decreto do esforço de guerra, que suspendeu diversos direitos trabalhistas em meio à promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), para que a produção desse conta de atender às demandas de um Ocidente paralisado pela guerra.

Dispostos a cortar seus salários e trabalharem horas extras infinitas em esforço patriótico e, também, de resistência ao fascismo – reuniões para discutir a temática colocavam na mesma mesa patrões e trabalhadores em prol de um ideal comum –, os trabalhadores se sentiram traídos após o término da guerra por não terem seus direitos respeitados. Os industriais têxteis brasileiros, que venderam como nunca quando seus concorrentes estavam enfraquecidos, queriam manter as vantagens que tinham durante o esforço de guerra, sem avançar no cumprimento dos direitos trabalhistas.

Ribeiro então explica que a partir de meados dos anos 1950, os trabalhadores brasileiros começaram a ter um protagonismo político importante, inclusive no processo eleitoral, que retorna após o fim do Estado Novo. A partir daí, os operários não só passam a votar como também começam a eleger colegas de trabalho. “Eu me lembro de antigos tecelões que, com muito orgulho, diziam: ‘quando eu pude votar pela primeira vez, eu também pude eleger um colega de tear’”, conta o pesquisador.

Outra característica das pesquisas consultadas é a evidência do papel das mulheres enquanto protagonistas de lutas por direitos trabalhistas ao longo dos anos. O professor ressalta que essa tem sido, inclusive, uma crítica frequente à historiografia dos trabalhadores têxteis, porque a mão de obra feminina é tradicionalmente maioria no setor têxtil, mas era pouco mencionada nos estudos. O mapeamento realizado mostrou que isto está mudando e as mulheres estão em evidência nos novos trabalhos de pesquisa sobre o tema.

Fortalecimento da pesquisa documental

A ampliação da rede de pesquisadores permitiu a descoberta e a doação para o estudo de material documental vindos de acervos pessoais. Parte dos documentos reunidos ao longo do projeto foi digitalizada pelo Centro de Documentação e Imagem (Cedim) da UFRRJ e encontra-se disponível para pesquisa. Uma das realizações mais recentes foi a digitalização de um filme mudo, da década de 1950, realizado pela administração da Prefeitura de Magé e que foi resgatado por um colecionador da cidade. Em agosto deste ano, o filme, exibido em praça pública, atraiu inúmeros curiosos e houve até quem se reconhecesse na tela. “O filme mostrava vários locais e imagens raras, inclusive da fábrica de tecidos Pau Grande, região onde [o jogador de futebol] Garrincha nasceu e foi criado”. 

Fábrica Santo Aleixo, em Magé, desativada 
com desindustrialização da década de 1990

A iniciativa contribuiu para que mais moradores se sentissem motivados a ceder seus documentos para o Cedim. Ribeiro conta que é comum colecionadores terem receio de disponibilizar seus acervos para pesquisa. Com a disponibilidade de fazer cópias e registros digitais no centro de documentação e, em seguida, devolver o acervo ao proprietário, isso deixou de ser um problema. A partir daí, o grupo envolvido na pesquisa conseguiu obter depoimentos de trabalhadores têxteis com outros pesquisadores, em diferentes estados, com o envio de diversos documentos, até mesmo uma coleção de 90 fotos, que tinha sido doada por um antigo gerente de uma das fábricas, retratando não apenas a produção fabril, como também sua vila operária e todo o seu entorno.

A partir desse mapeamento de estudos sobre o trabalho têxtil no Brasil e a formação de uma rede de pesquisadores, Ribeiro espera fomentar novas pesquisas sobre o tema, promovendo diálogos e realizando mapeamentos mais amplos sobre o assunto.

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