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Publicado em: 27/09/2018

Entrevista: professora e pesquisadora Eliete Bouskela, diretora Científica da FAPERJ

Por Ascom FAPERJ / Entrevista

Eliete: para a dirigente, é preciso que os governos
cumpram com suas responsabilidades para assegurar
o desenvolvimento da Ciência (Foto: Lécio A. Ramos) 

Boletim FAPERJ – A senhora é a primeira mulher a assumir o cargo de diretora Científica da FAPERJ, já tendo sido também a primeira mulher a ocupar a Diretoria de Tecnologia. A senhora considera este fato relevante e por quê?

Eliete Bouskela – Lamentavelmente é muito relevante. A expectativa que temos de um mundo mais civilizado é a de que as diferenças por gênero no trabalho desapareçam. Mas o fato é que há, ainda hoje, no Brasil e em outros países, uma má tradição cultural que ao invés de escolher pessoas por competência e capacidade para o exercício profissional adiciona critérios de cor e gênero para a tomada de decisão. A FAPERJ tem 38 anos de existência e somente agora tem a primeira mulher exercendo a direção científica. No Estado do Rio de Janeiro são, segundo o censo educacional INEP/MEC (2015), 33.420 docentes exercendo suas atividades em diferentes instituições de ensino e pesquisa, e as mulheres respondem por 44% deste universo, totalizando 14.831 docentes. O fato de somente agora uma mulher ocupar a Diretoria Científica de nossa agência de fomento à pesquisa não deixa de ser uma triste constatação de que temos que nos modificar. Preciso ainda destacar que o ambiente acadêmico é mais aberto no campo das ideias, o que nos faria esperar outras posturas em posições de gênero. Acho muito relevante minha assunção à Diretoria Científica, por processo de escolha do Conselho Superior da FAPERJ e nomeação do Governador do Estado, porque é mais um marco para a abertura civilizatória, onde mulheres e homens podem exercer funções dirigentes por conta de sua competência e capacidade e não por outras razões ideológicas que geraram graves atos de discriminação na humanidade. Gostaria de dizer a todas as mulheres cientistas que trabalham arduamente no desenvolvimento da Ciência em nosso Estado que um passo foi dado e espero que muitos outros sejam sequentes.

Boletim FAPERJ – Pesquisadora reconhecida na área de Fisiologia Cardiovascular, a senhora é também Professora Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), membro Titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Nacional de Medicina, da European Academy of Sciences and Arts, da The World Academy of Sciences e membro Associado Estrangeiro da Academia Francesa de Medicina. A senhora sempre manteve suas atividades acadêmicas de ensino e pesquisa e vivenciou a grave crise de financiamento nacional e estadual à pesquisa. O que a senhora tem a comentar sobre isto?

Eliete Bouskela – Em primeiro lugar, não há como manter e desenvolver a atividade científica sem recursos. Há uma certa representação no senso comum que para o desenvolvimento científico bastam cérebros. É claro que sem inteligência e formação não há pesquisador. Mas para que ele exerça a sua atividade são necessários recursos. Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e querido amigo, escreveu um excelente artigo sobre o financiamento de pesquisa, publicado no boletim da Agência Fapesp de Notícias, em 2017. Neste texto, ele, com o rigor de sempre, nos diz de uma redução de cerca de 40% no investimento de Ciência e Tecnologia no Brasil, e denuncia uma participação pífia de nossa área no PIB nacional. Aqui, em nosso Estado, sofremos uma crise sem precedentes em nossa história que comprometeu o funcionamento de nossas instituições estaduais de ensino e pesquisa, e atingiu de maneira trágica a nossa Fundação de Amparo à Pesquisa, mesmo com a salvaguarda constitucional. Não podemos continuar esta curva de descenso, porque as consequências serão graves e afetarão, de maneira definitiva e estrutural, toda a produção acadêmica do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro.

Não é da competência da Diretoria Científica o gerenciamento dos recursos orçamentários, isto cabe à presidência da Fundação e ao Governo do Estado. Entretanto, tenho o dever ético e responsável de alertar aos dirigentes das graves consequências que provocam a falta de recursos em nossas atividades. Interromper um experimento por falta de insumos, instrumentos que sem manutenção deixam de funcionar, estruturas físicas laboratoriais com problemas na rede elétrica e hidráulica, ciências humanas e sociais sem gente para o desenvolvimento de suas pesquisas, colocam em risco a produção de conhecimento, os nossos acervos acadêmicos e científicos e a vida das pessoas.

Houve, neste ano de 2018, em nossa FAPERJ, uma interrupção na curva de descenso, e um pequeno crédito a maior em nosso desempenho econômico. É pouco, mas nos alenta um futuro melhor. Nossa comunidade de pesquisadores é ativa e foi fundamental para, pelo menos, interromper o atraso no pagamento das bolsas, e tenho a esperança de que ainda este ano consigamos diminuir o passivo de atraso nos chamados “Auxílios”, que vêm sendo afetados de maneira significativa desde 2015. O Secretário Estadual de Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Social, Gabriell Carvalho Neves Franco dos Santos, vem agindo junto aos órgãos econômicos do governo para, se não resolver integralmente o passivo da FAPERJ, mitigar o dano. A postura de nossa comunidade é decisiva para que governos cumpram com suas responsabilidades para o desenvolvimento da Ciência.

Boletim FAPERJ – Mas muitos pesquisadores gostariam de saber mais sobre a aplicação dos recursos da FAPERJ, inclusive para poderem de maneira sinérgica colaborar com o bom convencimento dos dirigentes públicos. A senhora considera isto pertinente?

Eliete Bouskela – Tenho a convicção republicana de que a transparência dos atos públicos é uma obrigação a ser cumprida. No nosso caso, mais ainda. Somos uma comunidade de cientistas e intelectuais que pensam e que não são manipuláveis por ideologias fantasiosas. A adesão e o comprometimento de nossos pares serão proporcionais à transparência dos atos da FAPERJ. Vou ainda este ano apresentar aos pesquisadores ferramentas públicas de divulgação de todos os financiamentos da FAPERJ, quem recebeu e quanto, que projetos e Auxílios, com seus respectivos valores, ainda estão em débito, e assim por diante. Considero que algumas aproximações são fundamentais para a difusão e controle de nossos atos. Vou me reunir de maneira sistemática com o Fórum de Pró-reitores de Pesquisa e Pós-graduação em nosso Estado e teremos uma agenda permanente de acompanhamento e desenvolvimento. Orientei toda a minha assessoria e a todos os novos Coordenadores de Área a serem solícitos na prestação de informação aos nossos pesquisadores. Quero que nossos cientistas e intelectuais do Rio de Janeiro sintam que a FAPERJ é um bem de Estado e, por isto, de posse pública, e é desta maneira, com unidade e comprometimento, que faremos a diferença.

Boletim FAPERJ – Muitos pesquisadores se queixam da burocracia da FAPERJ. Isto não prejudica esta proximidade que a senhora tanto almeja com a comunidade científica?

Eliete Bouskela – Claro que sim. Procedimentos burocráticos que se superpõem e que exigem um tempo precioso do pesquisador é um mal a ser combatido. Nossa cultura ibérica de Estado é extremamente burocrática e, se não vigiarmos, privilegiamos o meio e não a atividade fim. A burocracia deve estar consonante com sua responsabilidade de controle, transparência e eficácia. Quando os procedimentos burocráticos aumentam não há controle, transparência e eficácia. Constituí um grupo de trabalho em minha assessoria para imediatamente reduzir custos burocráticos (de tempo e de esforço) e já em pouco tempo de exercício na Diretoria Científica desobriguei que bolsistas de Mestrado e Doutorado tenham que apresentar relatório parcial da atividade. Agora, somente no final da bolsa que deverá ser apresentado o relatório, cujo resultado principal é a sua aprovação na dissertação ou tese, porque esta é a finalidade da bolsa. Cito este exemplo para apresentar uma metodologia de que é a finalidade que desenha a exigência burocrática e não ao contrário.

Nós, cientistas e intelectuais, temos uma grave dificuldade com procedimentos burocráticos, e se eles estão mal dimensionados, provocam resistências e insolvências na FAPERJ. É preciso que todos nós tenhamos a consciência de que deverá haver controle, afinal, é dinheiro público e de todos, mas convenhamos um pouco de bom senso não faz mal a ninguém. A finalidade da FAPERJ é apoiar projetos consistentes e que sejam bem desenvolvidos; e não multiplicar procedimentos burocráticos desnecessários.

Boletim FAPERJ – Voltando à questão destas redes civis de apoio ao desenvolvimento de Ciência e Tecnologia em nosso Estado, a senhora já disse que uma destas redes civis é composta pela comunidade científica e de intelectuais. É possível pensar em outras redes?

Eliete Bouskela – Não só é possível pensar em outras redes civis de apoio ao desenvolvimento da Ciência e Tecnologia como devemos estimular que sejam criadas, dentro das finalidades da instituição. Nós temos um edital denominado “Prioridade Rio”, que teve diferentes versões e que era centrado em estudos e projetos e provimento de soluções para temas sociais prioritários. Este edital, em minha opinião, deve ser reaberto e em outras bases. Vou propor ao Conselho Superior que estes temas sejam definidos em ampla participação social, adaptando o modelo das conferências temáticas que foram realizadas por todo o Brasil. Que cidadãos de todo o Estado do Rio, com ampla participação social e de todos os municípios de nosso Estado, decidam os temas e áreas prioritárias com objetos mais concretos, e que isto signifique uma real demanda para nossos cientistas e intelectuais. Este edital pode ser uma ponte, um diálogo muito profícuo entre a sociedade civil, cientistas e intelectuais e gerar uma nova rede civil de apoio ao desenvolvimento da Ciência e Tecnologia e nos aproximar. Não queremos ocupar o lugar democrático dos dirigentes públicos, mas todos nós sabemos que o conhecimento que produzimos pode desenvolver novas soluções para antigos problemas. Mas não devemos fazer sem escutar as cidadãs e cidadãos de nosso Estado. Acho que isto constituirá uma aliança significativa e forte com a população e proporcionará mais cidadania.

Vou também promover um encontro mensal entre instituições temáticas e cientistas na FAPERJ, em workshops de menor número de participantes, e para isto contarei com as Coordenações de Área. Por exemplo, um workshop com membros do Judiciário e cientistas, um outro com sindicalistas, um outro com empresários, um outro com dirigentes de instituições públicas e privadas de Ensino Superior, e assim sucessivamente. Considero que este também pode ser um bom caminho para a constituição destas Redes Civis.

Em relação aos entes de Governo, é preciso que saibam melhor o que fazemos para além de nossos custos. Assim, a Assembleia Legislativa, o Ministério Público e a Defensoria, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, e os órgãos da administração direta e indireta têm que ser aproximados e, meu papel, neste caso, como Diretora Científica, é demonstrar a pungência e força de nossos pesquisadores e a qualidade de nossos trabalhos. Pretendo recuperar a capacidade de Difusão Científica de nossa Fundação. Temos tantos intelectuais e pesquisadores que têm esta questão como tema de sua atividade. É preciso convocá-los.

Boletim FAPERJ – Esta sua disposição de convidar pesquisadores e intelectuais de nosso Estado para auxiliarem na tomada de decisões será uma prática?

Eliete Bouskela – Claro que sim. Todos os teóricos de ciência, independentes de sua filiação teórica, afirmam sobre o processo de especialização do conhecimento. Não sou capaz, e posso afirmar com certeza de que ninguém é, de dominar todas as áreas de conhecimento. As Coordenações de Área da FAPERJ são um ente precioso para assessorar a tomada de decisões. Uma consulta prévia em câmaras temáticas e solicitação de apoio da expertise desta excepcional comunidade científica que temos é um ato de inteligência e correção. Neste grave momento em que vivemos, não é adequado abdicarmos do que temos e somos. Nós, cientistas e intelectuais, acreditamos que o conhecimento científico é um acelerador de processos civilizatórios e principalmente de impedimento de retornos a barbárie. Em um mundo complicado que estamos vivendo, com fundamentalismos de toda ordem, é mais do que necessário nos lembrarmos de nossos valores humanitários. E um deles é manter, dentro de todas as instituições, o compartilhamento, o diálogo e a cooperação.

Boletim FAPERJ – A senhora foi escolhida para ocupar a Diretoria Científica em votação no Conselho Superior da FAPERJ, tendo sido a mais votada entre todos os candidatos, em um processo novo que permitiu pela primeira vez que cientistas apresentassem suas candidaturas. O que a senhora tem a dizer sobre isto?

Eliete Bouskela – Agradeço a confiança de meus pares que me elegeram com o maior número de votos no Conselho Superior. Isto significa responsabilidade e compromisso de minha parte.

Boletim FAPERJ – Que palavras a senhora gostaria de dirigir à comunidade científica do Estado do Rio de Janeiro?

Eliete Bouskela – Esperança e Trabalho. Espero novos tempos sem descontinuidade de financiamento e trabalharei, com muitos, para que o Estado do Rio de Janeiro seja um território comprometido com o desenvolvimento da ciência.

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