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Publicado em: 30/08/2018

Estudo investiga a história dos santos venerados na cidade do Rio de Janeiro

Débora Motta

Interior da Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, inaugurada em 1758,
na Praça da República, no Centro
(Foto: Divulgação/Arquidiocese do Rio)

São Sebastião do Rio de Janeiro. O santo que dá nome à cidade, fundada em 1565, é apenas um entre os muitos que deixaram marcas não apenas na religiosidade carioca, mas em diversos outros campos, como na toponímia, na paisagem, no calendário, nas manifestações artísticas, na linguagem e nas festas populares. “Hoje os santos participam, direta ou indiretamente, da vida de todos os moradores do Rio de Janeiro, sejam católicos ou não. Dentre os diversos santos cultuados, encontramos vários personagens que viveram ou tiveram a sua memória transmitida durante a Idade Média, e que são foco do nosso estudo”, destaca a historiadora Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva, professora do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena, junto com Leila Rodrigues da Silva e Paulo Duarte, o Programa de Estudos Medievais (Pem). Para a realização da pesquisa, Andréia contou com recursos obtidos por meio do programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, no qual foi contemplada.

Para investigar essa herança cultural da colonização portuguesa, Andréia dedica-se, desde os tempos da sua graduação em História na UFRJ, a estudos sobre o tema. Atualmente, um deles é o projeto intitulado A construção medieval da memória de santos venerados na cidade do Rio de Janeiro: uma análise a partir da categoria gênero, do qual é coordenadora geral. O projeto está sendo desenvolvido por uma equipe formada por alunos de graduação e pós-graduação da UFRJ, egressos desses cursos e professores de outras universidades. Para auxiliá-la na coordenação das atividades, Andréia conta com a bolsista Flora Gusmão Martins, contemplada no programa Treinamento e Capacitação Técnica (TCT), da FAPERJ. Flora concluiu seu mestrado em História Comparada pela UFRJ no início de 2018.

“Vinculando nossas reflexões sobre o Medievo com as devoções dos cariocas aos santos no decorrer da história da cidade, selecionamos 11 personagens para estudo, cuja memória foi organizada e difundida pelos chamados ‘religiosos mendicantes’”, explicou Andréia. Os mendicantes, em especial os franciscanos e dominicanos, tinham maior proximidade com a população do que os religiosos de clausura monástica, como os beneditinos, por estarem envolvidos com pregações nas ruas, confissões e a pastoral dos leigos. Segundo o estudo, os mendicantes começaram a se estabelecer no Rio a partir de 1589. “Dos 11 santos selecionados no projeto, sete viveram na Antiguidade: Santa Maria, São Jorge, São Sebastião, São João, Santa Luzia e São Cosme e Damião. Os quatro restantes são do período medieval: São Francisco, Santo Antonio, Santa Clara e São Pedro Gonçales. São todos santos representativos do cotidiano carioca”, completa Flora.

O objetivo do projeto não é simplesmente estudar o culto a esses santos no Rio, mas analisar a construção da memória medieval deles a partir da categoria gênero, articulando a pesquisa ao ensino e à extensão. “Nesse sentido, partimos das seguintes questões iniciais da pesquisa: Como a diferença sexual era concebida no Medievo e de que forma esse saber participou da construção da memória medieval dos santos selecionados? Quais valores, comportamentos, papéis sociais, símbolos, atributos e identidades genéricas foram associados a tais homens e mulheres? Que autoridades fundamentaram a construção de tais memórias? De que forma tais saberes se articularam a outros aspectos da vida social no Medievo?”, resume Andréia.

 Andréia Frazão (à esq., de preto) fala sobre a memória medieval
no Rio, 
no
 "rolé" pela história dos santos (Foto: Divulgação/UFRJ)

A representação da santidade foi influenciada pela construção social dos gêneros ao longo da história. “No caso da construção da memória da santidade, há diferenças nas representações entre os homens e as mulheres que são mantidas ou subvertidas, desde o período medieval. Em geral, vimos que as santas geralmente são representadas por mulheres que prezam pela virgindade e castidade, como Clara e Luzia, e os homens são mais associados à virilidade e à inteligência. Mas também há algumas representações sociais da santidade que subvertem esse padrão medieval. É o caso de santos que, em nome da fé e da fidelidade a Cristo, abandonam seus papéis como provedores e dirigentes das famílias, tradicionalmente associados à masculinidade. Ou ainda, de mulheres, que renunciaram aos bens e ao casamento, para viver em pobreza”, explicou Andréia. Para estudar essa questão, elas utilizam hagiografias – narrativas produzidas sobre as vidas dos santos e suas características excepcionais –, como os relatos contidos na Legenda Áurea, compilação elaborada no século XIII por um frade dominicano.

Uma atividade didática organizada recentemente, para ajudar na compreensão da memória dos santos no Rio, foi uma visita guiada pelo Centro, que reúne diversas igrejas históricas, algumas remanescentes dos tempos do Brasil colonial. No último dia 14 de julho, as pesquisadoras promoveram o tour “Idade Média nas ruas: um rolé pela história dos santos”, junto com os professores-guias Marta de Carvalho Silveira e Rodrigo dos Santos Rainha, ambos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

“Visitamos a Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, localizada na Rua da Alfândega, nº 382; a Igreja de Santo Antonio dos Pobres, na Rua dos Inválidos (esquina com a Rua do Senado); a Igreja de São Francisco da Penitência, na Rua da Carioca (junto ao Convento de Santo Antonio); e a Igreja de São Sebastião (a catedral metropolitana, na Lapa)”, contou Flora. A proposta é facilitar o aprendizado da história do Rio pelas perspectivas da espiritualidade, do culto e do sentido cultural dos santos. “Buscamos estimular um olhar específico para a cidade, despertando o interesse para o estudo da Idade Média, e mostrando  como é possível encontrar elementos de diálogo cultural entre esse período histórico e a atualidade”, concluiu Andréia.

Outro desdobramento do projeto foi a realização, nos dias 14, 15 e 16 de agosto, no Instituto de História da UFRJ, da oficina “Produção e Aplicação de Materiais Didáticos nos Ensinos Básico, Médio e Superior”, com o historiador Marcelo Pereira Lima, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador associado ao Programa de Estudos Medievais da UFRJ. “Foi uma oficina voltada para graduandos, licenciandos e também para professores que já trabalham nas escolas. Estamos elaborando atividades didáticas, para a utilização em sala de aula de hagiografias e a exibição de filmes, para discutir questões ligadas à memória dos santos e aos estudos de gênero, além de atividades lúdicas, como um jogo com imagens dos santos cristãos e de divindades de religiões africanas para tratar do sincretismo religioso no Brasil”, detalhou Flora. 

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