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Publicado em: 24/05/2018

Consultório holográfico virtual: saúde ao vivo, a cores e em 3D*

Aline Salgado

        
Consultório virtual: a nova tecnologia que permitirá aos médicos do HCE acompanhar o atendimento realizado
no Acre em tempo real.
(Foto: Divulgação)

No limiar do território brasileiro, na tríplice fronteira com Peru e Bolívia, está o município de Assis Brasil, no estado do Acre. Cortado pela Floresta Amazônica, ele abriga pouco mais de 6.863 habitantes, segundo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Parte deles é de militares do 2º Pelotão de Fronteira do Exército brasileiro. Além de reprimir o narcotráfico, o contrabando de armas, a biopirataria, a exploração ilegal de madeira e minérios, o Exército garante também a saúde e o bem-estar da população local. Num futuro bem próximo, os militares de lá poderão contar com uma tecnologia que promete mudar por completo o apoio ao atendimento médico realizado dentro dos hospitais de campanha: é o consultório holográfico virtual.  

Há exatamente 4 mil km de distância de Tefé, o Acre, no Hospital Central do Exército (HCE), no Rio de Janeiro, uma junta de médicos-especialistas, em colaboração com os pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), já vem testando a nova tecnologia, que permitirá aos médicos do HCE acompanhar o atendimento que está sendo realizado em Tefé, em tempo real. Além de ver o paciente em 3D, a junta poderá interagir na consulta, auxiliando o médico no diagnóstico da doença do paciente e até determinando rapidamente a necessidade ou não de cirurgia e remoção para uma unidade hospitalar. O aparato tecnológico foi desenvolvido pelos pesquisadores do Núcleo de Estudos de Tecnologias Avançadas da Escola de Engenharia (NETAv/UFF), em parceria com o Corpo de Saúde do Hospital Universitário Antonio Pedro (Huap), e já está sendo utilizado semanalmente pelo Exército brasileiro. 

Semelhante a um consultório comum, com maca, mesa e cadeira, o consultório virtual é equipado com uma webcam, um microfone, Internet, um tripé – que garante a fixação de um celular capaz de fazer fotos nítidas –, um computador para transmissão de imagem holográfica e lâmpadas, posicionadas estrategicamente para garantir a boa visibilidade do paciente na sala. Enquanto conversa com o médico à sua frente, o paciente também é ouvido e analisado por uma junta, reunida em um centro de saúde holográfico a quilômetros dali, em qualquer grande polo urbano do País, como na UFF ou no HCE. Na sala, os médicos conseguem ouvir, conversar e ter a visão real da cena, como se estivessem também frente a frente com o paciente.    

A um custo médio de instalação de R$ 10 mil e manutenção à distância, o consultório virtual é um investimento que pode não só reduzir as despesas de transporte de pacientes de uma região remota, como também salvar vidas. Essa é a principal motivação dos pesquisadores envolvidos no projeto, que levou cinco anos para ser desenvolvido. 

Batizado de Projeto Telessaúde, o sistema foi idealizado em 2012 e maturado ao longo dos anos de 2014 a 2016 dentro do Centro de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, Serviço de Geriatria do Huap. Coordenadora da equipe de Saúde, Yolanda Moreira Boechat conta que a ideia partiu de uma aluna da pós-graduação, que tinha o desejo de promover o atendimento médico à distância, tendo como foco a interiorização da medicina na Amazônia.

"Junto à Escola de Engenharia, vimos que era possível trazer a tecnologia para o auxílio à saúde. Contamos também com o apoio de algumas empresas parceiras, como a Eyemotion, a Embratel e a Star One, que foram determinantes para a escolha da holografia como sistema ideal para a transmissão das imagens", conta a professora Yolanda. 

Do ponto de vista da medicina, o “sistema ideal”, mencionado pela professora Yolanda, seria aquele que permitiria à equipe de especialistas do consultório virtual ter uma visão em tamanho real e global do contato entre o médico e seu paciente. "A imagem refletida em uma tela fina, posicionada à frente da junta médica, garante a sensação de conforto e tridimensionalidade. Pelo sistema holográfico é possível acompanhar a cena completa. Os médicos observam dos pés até a cabeça do paciente. Seus gestos e sinais de relaxamento ou tensão", ressalta o engenheiro de Telecomunicações, professor titular da UFF e coordenador-geral do projeto, Julio Cesar Rodrigues Dal Bello.

Passada a etapa de determinação do sistema a ser adotado, faltava encontrar meios de garantir que o envio dos dados – som e imagens –, fossem feitos de modo online e on time. "O emprego da holografia em shows já nos era conhecido. Mas as imagens transmitidas não eram feitas em tempo real", diz o engenheiro de Telecomunicações, professor da UFF e um dos responsáveis pelo planejamento e implantação de Sistemas Holográficos, René Pestre Filho.

Colega de equipe, a engenheira em Eletrônica e Computação e professora Natalia Castro Fernandes conta que, quando o grupo pensou em utilizar a holografia para o atendimento médico, logo sentiram a necessidade de criar mecanismos que garantissem a conexão em tempo real entre médico e paciente e a junta de especialistas. "Tudo isso sem deixar de pensar no lado da economia. Era preciso fazer com que todo esse conjunto fosse viável, a custos bem baixos", enfatiza Natalia.  

A segurança no envio e compartilhamento de dados dos pacientes também é assegurada pelo sistema, garante a dupla de especialistas. De acordo com os engenheiros, as informações são transmitidas dos consultórios virtuais até o centro de saúde holográfico de forma criptografada, por meio de um provedor de Internet público ou por satélite.

“Com uma Internet de 2 megabits por segundo de velocidade (de upload) no consultório virtual já é suficiente para que as imagens do médico e paciente em High Definition (HD) cheguem ao centro de saúde holográfico, onde a junta médica estará reunida. Já a velocidade de download pode ser baixa, visto que do centro de saúde holográfico só são enviados dados de voz ao médico”, explicam René e Natalia.

No ano de 2014, com o fomento inicial da FAPERJ, a equipe envolvida no projeto desenvolveu o protótipo do consultório de saúde virtual. Um piloto do consultório de saúde virtual foi instalado no HCE, em 2016, e o pedido de patente da tecnologia também já foi realizado junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi). No mesmo ano, foi feita a entrega dos resultados à Marinha do Brasil, instituição parceira na pesquisa, e também à FAPERJ.

Aqui no Rio de Janeiro, exatamente no Centro de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, no campus da UFF, o consultório virtual já auxiliou profissionais na realização de testes psicológicos e no diagnóstico precoce de demência. Já a médica-dermatologista Capitão Fabiana de Sousa Borges Rudolph, do HCE, tem utilizado o aparato, em parceria com médicos da UFF desde 2016, para definir um protocolo que, futuramente, irá ajudar médicos-militares de regiões remotas a identificar doenças de pele. Na Marinha, o sistema foi testado no navio de apoio oceanográfico Ary Rongel, em uma viagem para a Antártica.

Consultor da Escola de Engenharia da UFF para assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação junto à Marinha do Brasil, o Capitão-de-Mar-e-Guerra reformado Gustavo Benttenmüller Pereira ressalta que o sistema tem como potencial adicional o de auxiliar no treinamento de médicos inexperientes, especialmente os que estão longe de uma base de apoio formada por profissionais mais maduros. "A tecnologia dá mais segurança ao médico na definição do diagnóstico da doença que acomete o paciente”, avalia.

Experiente no atendimento em áreas remotas da Amazônia, o médico-cirurgião do Departamento de Ensino e Pesquisa do Exército, coronel Celso Luiz Chouin exemplifica que nem sempre um médico generalista será capaz de conseguir fazer a diferenciação entre uma mancha simples na pele e o diagnóstico de hanseníase. "Ter o apoio de um grupo de especialistas de forma ágil e fácil é uma vantagem tanto para o médico-militar, quanto para o paciente. Essa tecnologia também pode ajudar a fixar mais médicos na região", aponta. 

A numerosa e multidisciplinar equipe de pesquisadores do projeto está ansiosa por alçar novos voos, dentro e fora do Brasil. Para este ano, o grupo planeja aperfeiçoar o Sistema Holográfico, garantindo-o novas funcionalidades. Além disso, os pesquisadores querem viajar com a tecnologia para Oriximiná, no Pará, onde a UFF conta com uma unidade avançada de atendimento médico-ambulatorial à população local, de 50 mil habitantes. Pretende-se, também, implantar o sistema nas outras unidades de fronteira do Exército brasileiro. 

“Estamos discutindo a elaboração de um projeto de extensão para o curso de Medicina em Oriximiná. A unidade, especializada em saúde da mulher, poderia receber os internos, que seriam submetidos a acompanhamento constante e avaliação, tanto por um médico preceptor local como pela junta de professores-médicos instalada no centro holográfico da UFF", antecipa a coordenadora da equipe de Saúde do projeto, Yolanda Boechat.

"As aplicações na área médica e no ensino e pesquisa são tão grandes que não conseguimos contabilizar as milhares de possibilidades vislumbradas. Até um banco de dados sobre doenças tropicais poderá ser criado por meio desse sistema", diz o professor Ricardo Campanha Carrano, engenheiro de Telecomunicações e coordenador do NETAv/UFF. 

Diante de tantos novos rumos que o Projeto Telessaúde começa a seguir, Dal Bello diz que a sensação é de dever cumprido. "Sem o suporte da FAPERJ não teríamos chegado tão longe, transformando um protótipo em piloto", afirma, entusiasmado, o coordenador-geral do projeto. "Mas queremos continuar avançando. Precisamos de mais recursos e novas parcerias, seja com agências de fomento, órgãos de Defesa ou empresas."

Para a professora Yolanda Boechat, é preciso que toda a sociedade conheça o potencial do projeto e de seus pesquisadores. "Precisamos dizer que isso existe no Brasil. Essa é uma estratégia de assistência à saúde e, por que não dizer também, ao ensino e à pesquisa.", conclui a professora. 

 

Serviço de telemedicina encurta distâncias e acelera laudos médicos

De seis meses para 48 horas. Essa é a redução do tempo que populações ribeirinhas de municípios do interior do estado do Amazonas têm levado para receber o laudo médico de exames radiológicos e por imagem, como uma mamografia. A revolução é resultado da aplicação de um serviço inovador, que possibilita a realização dos exames em regiões distantes dos grandes centros urbanos e até mesmo em localidades com infraestrutura de telecomunicação precária.

"Se antes as chapas de exames precisavam viajar de barco até a capital, Manaus, e entrar na fila de laudos para serem analisadas pelo médico, agora os exames seguem para os especialistas rapidamente", diz Leonardo Severo Alves de Melo, executivo da Diagnext.com, empresa contemplada em dois editais da FAPERJ – Apoio ao Desenvolvimento da Tecnologia da Informação e Tecnova/Rio Inovação/Subvenção Econômica à Inovação – que oferece o serviço à Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas, desde 2012.

A tecnologia da Diagnext.com permite o envio dos arquivos de imagens de forma compacta, em ambientes hostis, isto é, regiões com falta ou ausência de infra-estrutura de energia e de telecomunicações. O sistema foi implantado em 51 hospitais do interior do estado do Amazonas, viabilizando a realização de cerca de 110 mil exames radiológicos, inclusive de emergência, no período de um ano. Desse total, cerca de 4,5 mil, em 2015, e 15 mil, em 2016, foram mamografias.

"Um caminhão de radiologia móvel do Sistema Único de Saúde (SUS) é levado para o interior e nós viabilizamos a conectividade da transmissão dos dados de imagem, de forma rápida e com custos bem mais viáveis, comparados aos serviços oferecidos pelo projeto de uma companhia inglesa", explica Leonardo Melo.

Por meio desse sistema, a rede do interior é conectada a uma central que funciona em Manaus, onde uma equipe médica analisa as imagens geradas nos municípios e devolve os laudos via satélite ou telefonia móvel para as unidades de saúde do interior. Segundo a companhia, a partir da tecnologia, é possível transmitir, em menos de 10 minutos, um exame que, por outros métodos, poderia levar até 8 horas para chegar aos especialistas.

Leonardo Melo diz que sua empresa é a única do Brasil no segmento de telemedicina a transmitir dados em ambientes hostis, utilizando um sistema que combina simultaneamente o uso de transmissão via telefonia móvel ou por satélite. "Além do Amazonas, a Diagnext.com levou sua tecnologia de transmissão de grandes volumes de dados para o interior do estado de São Paulo. Hoje, trabalhamos ainda em outra frente: aperfeiçoar a rede tecnológica de armazenamento e transmissão de dados de grandes hospitais do Rio de Janeiro, Brasília e Bahia", diz o executivo.

O sistema inovador levou a Diagnext.com a se destacar no mercado e a receber quatro premiações: o Abimed de Inovação Transformacional, da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (Abimed), em 2015; o terceiro lugar no Prêmio Inova Saúde 2015, da Associação Brasileira de Insumos Médicos e Hospitalares (Abimo); o prêmio latino-americano de Inovação em Saúde (Healthcare Innovation Awards) do órgão internacional do segmento de saúde Healthcare Information and Management Systems Society (HIMSS); e os "100 mais influentes em Saúde" na categoria Inovação, da revista Healthcare Management.

*Reportagem originalmente publicada em Rio Pesquisa, Ano IX, Nº 38 (Março de 2017)

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