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Publicado em: 10/05/2018 | Atualizado em: 28/06/2018

A identidade musical brasileira nas curvas de um violão*

Débora Motta

A professora e violonista Marcia Taborda vem
apresentando 
seu DVD em várias universidades,
no Brasil e no 
exterior  (Fotos: Divulgação) 

Para contar a história da inserção social do violão na cultura do Rio de Janeiro, que se confunde com a própria trajetória da cidade, a violonista Marcia Taborda, que é professora da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lançou o DVD Viola e Violão em Terras de São Sebastião. Trata-se de uma aula-espetáculo gravada em junho de 2016, na Sala Guiomar Novaes, anexa à Sala Cecilia Meireles, em que ela apresenta a história do instrumento, desde seus antepassados à chegada ao Brasil Colônia até meados do século XX, com uma linguagem audiovisual agradável e didática. O trabalho foi contemplado pela FAPERJ, por meio do programa Apoio à Produção e Publicação de Livros e DVDs Visando à Celebração dos 450 Anos da Cidade do Rio de Janeiro, lançado em 2014.O violão se consolidou na música popular brasileira ao assumir o papel de um importante instrumento de base harmônica, que hoje serve de acompanhamento para os principais gêneros da MPB. Mas o universo que permeia esse instrumento é bem mais abrangente. Muito antes da estética bossa-novista internacionalmente difundida, que consagrou a sonoridade cadenciada de “um cantinho, um violão...”, presente nos versos na música Corcovado, do maestro Tom Jobim, ele foi base de execução de gêneros que participaram da formação musical brasileira, como as modinhas, lundus, choros e maxixes, no século XIX e início do século XX. Também se reafirmou como ferramenta fundamental nas batidas do samba, samba-canção e bossa-nova no decorrer do século passado, além de ter mantido seu lugar cativo como instrumento tradicionalmente executado solo, por exímios violonistas.

A chegada do violão em terras de São Sebastião

Para desvendar as origens da viola e do violão no Brasil, e especificamente no Rio, Marcia percorreu acervos históricos, onde pesquisou diversos tipos de documentos, desde relatos de viajantes, fontes hemerográficas, iconográficas e registros musicais, em locais como a Biblioteca Nacional, o Centro Cultural do Banco do Brasil e o Museu Imperial de Petrópolis, entre outros. “Desde os primeiros tempos da colônia, o violão se tornou um fiel depositário das emoções do povo brasileiro”, diz Marcia, que coordena na UFRJ o Grupo de Pesquisa Núcleo de Estudos do Violão (NEV), cuja infraestrutura foi constituída com fomento da FAPERJ.

Ela conta que há registros do uso da viola, instrumento antecessor do violão, pelos padres jesuítas. “Quando chegou ao Brasil, era ainda uma viola de arame de quatro ordens de cordas, instrumento indispensável na orquestra jesuítica, nas mãos dos curumins da catequese, e que também acompanhou em Pernambuco as cantorias de Bento Teixeira, autor de Prosopopeia, obra inaugural da literatura brasileira do século XVI”, contextualiza. “Já no século XVIII, a mesma viola de arame fazia o encanto das camareiras de D. Maria I, rainha de Portugal que veio ao Brasil junto com a Família Real, em 1808. Aqui, as violas eram tão difundidas nessa época que até nos testamentos de bandeirantes elas eram arroladas”, detalha.

Durante o Império, a velha viola ganhou dimensões maiores e foi batizada de violão. De acordo com Marcia, o violão de seis cordas simples surgiu na Europa em fins do século XVIII e chegou ao Brasil em princípios do século XIX. “Embora eu acredite que o violão tenha chegado ao Rio com a transferência da corte portuguesa, em 1808, um dos documentos mais antigos que encontrei sobre o ensino da viola francesa (nome dado ao violão na época) foi um anúncio publicado em 1826, no qual o músico italiano Bartolomeu Bortolazzi divulga seu trabalho de professor do instrumento na cidade”, conta.

Capa do DVD Viola e Violão em Terras de São
Sebastião: obra foi gravada em 2016, na Sala
Guiomar Novaes, anexa à Sala Cecilia Meireles

Em solo brasileiro, o violão era utilizado para tocar gêneros populares na Europa, especialmente transcrições de árias de ópera e danças, como a polca, a mazurca, a valsa e a schottisch, que acabaram ganhando características locais. “O violão também assumiu o papel de constante acompanhador de gêneros, como modinhas, lundus,  cateretês e sambas”, aponta Marcia, que é autora do livro Violão e identidade nacional: Rio de Janeiro 1830-1930 (Ed. Civilização Brasileira, 2011, 300 p.). A obra recebeu em 2010 o Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música e foi inspirada na sua tese de doutorado, desenvolvida no Departamento de História Social da UFRJ, e que teve como orientador o historiador José Murilo de Carvalho. Ela é mestre em violão pela mesma universidade, com dissertação sobre o violonista Dino Sete Cordas, produzida sob supervisão do renomado violonista Turíbio Santos.

Marcia defende que, apesar de o violão estar associado no imaginário coletivo como um instrumento relacionado às classes populares, e mesmo a setores considerados marginalizados, é equivocado dizer que ele era um instrumento alijado das altas rodas da sociedade. “Essa associação do violão como um instrumento dos setores marginalizados é uma construção do período republicano. Minha visão é de que ele sempre foi difundido de maneira democrática, e que, especialmente no século XIX, foi um instrumento de elite”, diz a musicóloga, que é pesquisadora residente da Fundação Biblioteca Nacional desde 2016, onde acaba de desenvolver o projeto “O violão na corte imperial”.

Prova disso é a carta manuscrita pela imperatriz Leopoldina (1797-1826), destinada ao seu irmão, Francisco I, que vivia na Áustria. No registro histórico, datado de 01 de janeiro de 1818 e descoberto durante o processo de pesquisa de Marcia, a imperatriz, então casada com dom Pedro I, relata o estudo do violão como parte da sua rotina diária na casa de São Cristóvão, que incluía também o estudo do piano, de latim e gramática: Levanto-me todos os dias às seis horas, pois já às oito e meia costumo ir dormir; é como apraz ao meu marido; aqui não é costume frequentar o teatro exceto nos dias em que há grande gala. Depois, das sete horas até as dez horas, ando de coche, a cavalo ou a pé; então volto a casa, visito o rei para o beija-mão, e em seguida vem o meu mestre de gramática portuguesa e de latim. À uma hora estudo violão e, com o meu esposo, piano; ele toca viola e violoncelo, pois toca todos os instrumentos, tanto os de corda como os de sopro; talento igual para música e todos os estudos, como ele possui, ainda não tenho visto. Às três jantamos. […] Às seis horas vou passear outra vez e em seguida lemos algo e ceamos sozinhos. É este todos os dias o meu modo de viver.

O som das seis cordas no Rio do século XX

Já no período da República Velha, o violão frequentou o Palácio do Catete pelas mãos da primeira dama Nair de Teffé (1886-1981), mulher do presidente Hermes da Fonseca. “Nair apresentou a música Gaúcho, de Chiquinha Gonzaga, conhecido como Corta-Jaca, um ritmo sensual que escandalizou a sociedade da época e gerou um pronunciamento extremamente crítico de Rui Barbosa, em 7 de novembro de 1914. Para alfinetar o rival político Hermes, ele caracterizou o Corta-Jaca como ‘a mais baixa, a mais chula e grosseira de todas as danças selvagens’. Na verdade, Nair declarou que escolheu tocar o Corta-Jaca para prestigiar composições nacionais, escritas em português”, pondera a pesquisadora. “A associação do violão como um instrumento ligado à marginalidade e à boemia ocorreu nessa época. Esse preconceito era alimentado pela crítica da imprensa de então, que distinguia erroneamente alta e baixa culturas. Esses críticos questionavam como um instrumento de malandro podia estar em uma sala de concerto”, completa.

Polêmicas à parte, os anos passaram e o violão se espalhou ainda mais pelo Rio na primeira metade do século XX, se tornando o veículo de acompanhamento das canções, além de integrar o famoso choro conjunto, grupo instrumental composto de violão, cavaquinho e instrumento solista. Nesse período, desembarcaram no Rio violonistas estrangeiros, que faziam temporadas como solistas e contribuíram para a formação erudita dos músicos instalados na cidade. “Entre 1916 e 1917, e posteriormente, o violonista paraguaio Agustín Barrios fez diversas apresentações. Também constam nas publicações da época temporadas da espanhola Josefina Robledo. Eles ajudaram a sedimentar o conceito de ‘concerto de violão’, quase inexistente até então no País”, relata.

Nos tempos em que o Rio era a capital do Brasil, a produção cultural da cidade ganhava contornos de música nacional. O desenvolvimento das comunicações e do rádio permitiu o surgimento da cultura de massa. Assim, a cidade fervilhava, ditava modas, gostos e costumes, e atraia artistas de todos os recantos do País. “Os violonistas que fizeram a história da música carioca na verdade vieram de vários locais do Brasil e se reuniram no Rio. Nomes como João Pernambuco, Dilermando Reis, Garoto, Turíbio Santos e João Gilberto desenvolveram suas carreiras transitando pelas rádios, casas de espetáculos e estúdios cariocas. Nesse momento, a obra para violão do maestro Heitor Villa-Lobos, que reunia a brasilidade do folclore colhido durante suas incursões pelos rincões do Brasil, também é um marco. A violonista brasileira Olga Praguer Coelho, que era uma senhora da sociedade e se casou com o mestre Andrés Segovia, também completava esse cenário”, diz Marcia.

Hoje, inegavelmente, o violão continua sendo uma paixão nacional. “Nos anos 1920, quando o movimento modernista pregava a importância de se estabelecer uma cultura nacional própria, textos da época descreviam o violão como o alto-falante da alma brasileira. Quase um século depois, essa frase ainda tem muito de verdade. O violão brasileiro é riquíssimo tanto no contexto popular como da música de concerto”, destaca Marcia. Essa visão de mundo ecoa no trabalho do escritor Lima Barreto, que fez seu personagem Policarpo Quaresma proclamar: É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede.

A verdadeira aula de história da música apresentada no DVD é acompanhada de interpretações de Marcia Taborda, que executa um repertório cuidadoso. Estão presentes as pérolas: Guárdame las vacas, de Luys de Narváez, Isto é bom, de Xisto Bahia (a partir da gravação original de Eduardo das Neves), Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga (com o arranjo garimpado do caderno de músicas de Nair de Teffé), Cordão de prata, de Brasilio Itiberê (como executado por Olga Praguer Coelho), Abismo de rosas, de Américo Jacomino (a partir da gravação original de Jacomino), Graúna, de João Pernambuco, Estudo nº 8, de Heitor Villa-Lobos e Vivo sonhando, de Garoto (inspirada em Raphael Rabello).

*Reportagem originalmente publicada em Rio Pesquisa, Ano IX, Nº 39 (Junho de 2017) 

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