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Publicado em: 26/04/2018 | Atualizado em: 27/04/2018

O avesso da história: da África ao Brasil afrodescendente

Vilma Homero

Charge de 1887 mostra os escravos no meio da briga
política entre abolicionistas e 
senhores
de engenho
 (Reprodução: Revista Illustrada) 

“Até que os leões inventem suas histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” Não é por acaso que o provérbio africano já está logo na página de abertura do livro História da África e do Brasil Afrodescendente (Ed. Pallas, 407 p., 2017). Faz sentido. Para a autora, Ynaê Lopes dos Santos, professora adjunta do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a frase ilustra o enfoque com que procurou contar a história nos dois lados do Atlântico. Como explica a autora, história é construção. “Portanto, ao se mostrar a possibilidade de outros olhares, também se abre a perspectiva de novos enfoques.”

No caso da África, dada a tradição de oralidade de suas diversas culturas, os historiadores daquele continente precisaram se valer de estudos arqueológicos, linguísticos e antropológicos para traçar uma produção historiográfica que não fosse eurocêntrica. Foi nessa produção mais recente que Ynaê concentrou suas pesquisas. “Adotei no livro uma abordagem paradidática, para possibilitar a leitura por um público mais amplo e também para estabelecer pontes entre a história africana e a do Brasil, já que para cá vieram milhões de escravizados daquele continente.”

O livro foi pensado a partir da obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas de Ensino Fundamental e contou com o apoio de um Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1), da FAPERJ. “Procurei diminuir o hiato entre o que se produz na Academia e o que era ensinado nos colégios. Afinal, o Brasil é um país cuja história foi construída por milhares de africanos e seus descendentes, homens e mulheres que durante muito tempo tiveram suas vidas e trajetórias pouco contadas ou totalmente silenciadas. Ampliar o conhecimento sobre esse passado é também uma forma de entendermos melhor o mundo e a nós mesmos. E tudo isso ajuda a construir a identidade de muitos estudantes  – sobretudo os afrodescendentes – a partir de lastros históricos”, acrescenta Ynaê.

Os diversos tipos físicos dos diferentes povos africanos trazidos como
escravos 
para o Brasil (Reprodução: Debret, Kingsley, Morel, Reclus e Rugendas) 

Na época em que lecionava para alunos do Ensino Fundamental, Ynaê percebia a enorme confusão quando o assunto era a África. “A maioria vê como uma coisa só, e não como um continente com inúmeros países. Eles conhecem o Egito, mas têm dificuldade, por exemplo, em situá-lo no norte da África.” No livro, ela procura desfazer diversos desses mitos, com mapas e fotos. Para começar, ela enfatiza que nos mais de 30 milhões de km2 daquele continente – um território quase três vezes maior do que a Europa –, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), era possível contar, em 2015, mais de um bilhão de pessoas distribuídas por 55 países independentes.

Outro mito recorrente seria “uma maior facilidade” dos africanos em aceitar a escravidão já que muitas sociedades daquele continente a praticavam. Ela explica as enormes diferenças entre a escravidão moderna, como a que se deu não só no Brasil, mas em vários outros países das Américas até o século XIX, e a praticada nas sociedades africanas.

“Na escravidão moderna, a produção econômica, com suas plantações de produtos para exportação, dependia do trabalho escravo para funcionar, enquanto na África, o escravo era consequência de guerras ou conflitos internos e sua atuação era auxiliar o dono na roça e nos trabalhos domésticos. Mas, principalmente, não há mercado, o escravo não era considerado uma mercadoria, como para os europeus que atuavam no tráfico negreiro”, esclarece. A resistência à escravização ainda no continente africano também foi intensa. Caçados por povos inimigos ou por europeus, habitantes de aldeias inteiras fugiam para o interior. É célebre o caso da rainha Nzinga, do reino de Ndongo, na África Centro-Ocidental, que lutou bravamente contra os portugueses e ficou conhecida como uma grande guerreira.

Os que acabavam capturados e vendidos aos europeus tinham pela frente a longa travessia do chamado Calunga Grande, o oceano Atlântico. A viagem, que podia levar de 25 dias a dois ou três meses, dependendo do porto de destino, era um tormento a mais. Além das crenças, para muitos desses povos, de que o mar era a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, eles vinham acomodados nos porões, em espaços que muitas vezes tinham apenas um metro de altura, o que só lhes permitia ficar sentados, enfileirados, um entre as pernas do seguinte, com permissão para subir ao convés para tomar sol, durante um breve intervalo no dia. O resultado era que boa parte dessa carga humana morria pelo caminho.

Para Ynaê Santos, a luta contra a discriminação
está longe de acabar (Fonte: Divulgação) 

Uma vez no Brasil, esses africanos e seus descendentes tinham diante de si uma existência de trabalho, fosse nas plantações de cana-de-açúcar, na mineração, no plantio do algodão ou do café. Mas apesar das jornadas que variavam de 12 a 18 horas, alguns escravos aprenderam a negociar com seus senhores melhores condições de vida e mais espaços de autonomia, para, por exemplo, plantar sua própria roça e melhorar a alimentação. Com isso, às vezes eles conseguiam um pequeno excedente para vender e guardar o dinheiro obtido para no futuro comprar a sonhada alforria. “Essa acabou se tornando uma prática comum nos engenhos de açúcar e fazendas de café, já que também era um negócio vantajoso para os senhores. Tornava-se um incentivo para os escravos trabalharem com maior eficiência e diminuía a possibilidade de fuga, já que eles precisariam pensar duas vezes antes de abandonar suas pequenas plantações”, fala a autora.  

Nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro, além do trabalho doméstico, os escravos eram alugados para realizar uma série variada de tarefas. Eram os escravos de ganho, que ofereciam seus serviços pelas ruas e pelo comércio em troca de pagamento, que em parte era entregue a seu senhor. Fosse na estiva, junto ao porto, trabalhando como ferreiros, reparando o calçamento das ruas, fazendo a limpeza urbana ou vendendo de galinhas a doces e angu, a população escrava na cidade era numerosa, o que costumava chamar a atenção de viajantes estrangeiros.

O fato é que entre os séculos XVI e XIX, a resistência à escravidão se manifestou de diversas formas, seja fazendo "corpo mole" nas plantações, danificando ferramentas e máquinas de trabalho, como as engrenagens de uma casa de engenho, por exemplo. Além do enorme prejuízo pelo conserto do equipamento, isso também significava vários dias de trabalho parado. Eram atitudes arriscadas e, portanto, raras, já que se descoberto, o castigo era violento, como forma de exemplo para os demais. As fugas também foram frequentes, fosse como forma de negociar melhores condições de trabalho ou mesmo para conseguir juntar-se aos mocambos ou quilombos e viver longe do cativeiro. Embora o Quilombo dos Palmares, na Capitania de Pernambuco, tenha se tornado o mais conhecido e um dos mais duradouros, a verdade é que os quilombos se multiplicaram por todo o império. No Rio de Janeiro, também ficou conhecido o Quilombo das Camélias, no que mais tarde seria conhecido como o bairro do Leblon.

“A assinatura da Lei Áurea, em 1888, apenas acabou com o cativeiro no Brasil, mas não propôs nem ofereceu alternativas para os milhares de ex-escravos que tinham obtido a liberdade”, afirma Ynaê. Da mesma forma, a proclamação da República, um ano mais tarde, também não significou qualquer mudança para os negros. “Na realidade, o novo projeto de Brasil defendido pelos republicanos entendia que a população negra era sinônimo de atraso. Para se tornar uma nação poderosa, era preciso que sua população fosse branca”, continua. Para isso, a ideia era branquear o país com levas de migrantes europeus, política que vigorou nos primeiros anos da República.

Mesmo enfrentando um enorme preconceito, alguns trabalhadores negros conseguiram se incluir no competitivo mercado de trabalho das principais cidades brasileiras, em fábricas ou em empregos informais. Alguns deles conseguiram se destacar, o que possibilitou a formação de algumas poucas famílias de classe média. Para discutir a discriminação e pensar alternativas para melhorar as condições de vida dos afro-brasileiros, trabalhadores e intelectuais negros criaram associações, grêmios, clubes e jornais. Em 1931, a Frente Negra Brasileira foi criada com o objetivo de integrar a população negra em pé de igualdade com o restante da sociedade. Rapidamente, a ela se associaram cerca de cem mil integrantes pelo País. Foi assim até 1938, quando a Frente Negra e todas as publicações da imprensa negra foram fechadas durante a ditadura Vargas.

A efervescência dos anos 1960 trouxe à tona os diferentes movimentos libertários, entre eles o Black Power americano, o reggae jamaicano e as lutas anticolonialistas na África. Os reflexos no Brasil se fizeram sentir nas décadas seguintes, com o surgimento de várias organizações de Movimento Negro pelo País, ao longo dos anos 1970 e 1980. “Embora seja inegável que inúmeras conquistas tenham sido alcançadas, como a configuração do racismo como crime inafiançável ou a lei de cotas para o ingresso de negros na universidade – também alvo de enorme polêmica –, essa luta ainda está longe de acabar”, conclui.

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