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Publicado em: 07/12/2017 | Atualizado em: 14/03/2018

Testemunhos paleontológicos da passagem do tempo*

Maria Antonieta da Conceição Rodrigues

 
Na bacia de São José de Itaboraí, foram encontrados fósseis que 
registram a vida há 60 milhões de anos
(Foto: Lilian Bergqvist/UFRJ)

Entender a história geológica da Terra, que implica uma dimensão temporal muito maior que o da própria existência humana, constitui uma experiência fascinante. As rochas, os minerais e os fósseis são os elementos que possibilitam o entendimento de eventos e fenômenos geológicos que ocorreram há milhões e até mesmo bilhões de anos. Mares que se transformaram em montanhas, desertos em florestas tropicais e rios caudalosos em amplas planícies geladas – tudo é possível no transcorrer do tempo.

Ao longo dos últimos 3,8 bilhões de anos de história do nosso planeta, a vida surgiu, se diversificou e deixou registros, que possibilitam o remontar de uma história intrincada de ocupação dos espaços ecológicos e de transformações dos cenários ambientais. Desde o aparecimento da primeira célula, até a complexidade atual dos seres vivos, que encontramos no registro geológico estas evidências de vida, materializadas nos fósseis.

Podemos imaginar que eles são como o sequestro da vida pelos processos relacionados à dinâmica interna do planeta. O natural seria imaginarmos que um organismo ao morrer se desintegraria e seus elementos químicos voltassem a fazer parte do ciclo natural de nutrientes do solo. No evento de fossilização, este caminho natural da história da morte é subvertido, e os restos orgânicos passam a ser incorporados aos sedimentos, preservando-se por milhões de anos. Trata-se de um sequestro da história biológica de um indivíduo, em direção ao ciclo das rochas.

Muitos podem imaginar que um fóssil é a matéria orgânica mineralizada, inerte e “desprovido de vida”. Porém, para os paleontólogos, ele se transforma em uma janela no tempo passado, no qual animais e plantas pretéritos realizam uma conexão com aqueles que encontramos no mundo atual. Descobrir um fóssil é uma experiência única, em que se pode vislumbrar mundos que não mais existem, vidas que não mais se repetirão, e que, num ato inimaginável, podemos ressuscitá-las e traduzir em cores, texturas e formas as existências do passado, possibilitando, assim, contar a história da vida no transcorrer da existência da Terra.

Uma pequena parte desta história escrita nas rochas e nos fósseis encontra-se em nosso estado. Apesar de as rochas mais antigas do Rio de Janeiro, datadas de mais de 2 bilhões de anos, não conterem fósseis, são muitos os registros da vida em depósitos com alguns milhões de anos, localizados tanto no interior quanto no litoral. Durante os eventos que resultaram na separação da América do Sul e África, há mais de 140 milhões de anos, desenvolveram-se depressões ao longo dos limites atuais entre estes dois grandes continentes, onde proliferavam em lagos e mares interiores, pequenos organismos que deram origem às importantes jazidas de óleo e gás que hoje encontramos nas bacias de Campos e de Santos. Neste caso, tamanho certamente não é documento! Ainda hoje, fósseis microscópicos representados por esporos, pólens, microcrustáceos e protozoários marinhos são recuperados das sondagens realizadas para a exploração petrolífera, possibilitando, assim, o entendimento da origem de recursos minerais tão importantes para a economia do Rio de Janeiro.

E que outros fósseis encontramos em nosso estado? Talvez a primeira ideia seja de que teríamos dinossauros. Não, não os temos. Porém, possuímos o primeiro grande registro de mamíferos no mundo, em rochas que datam logo após a extinção destes répteis. Trata-se de rochas tão importantes, que até mesmo um tempo geológico é a elas dedicado, o “Itaboraiense”, época em que viveram mamíferos já extintos na região do município de Itaboraí. E é exatamente lá, que se desenvolve, atualmente, um dos grandes programas educacionais em geociências de nosso País.

A Bacia de São José de Itaboraí – assim denominada por sua localização no bairro homônimo do município de Itaboraí, distante cerca de 30 quilômetros de Niterói – é uma localidade-ícone para a paleontologia mundial. Durante aproximadamente 50 anos, realizou-se a extração de calcário na localidade da Fazenda São José, e, durante as etapas de exploração mineral, foram recuperados centenas de fósseis de mamíferos, répteis, aves e moluscos. Um registro monumental da história da vida há 60 milhões de anos no território fluminense.

Inegavelmente, Itaboraí esteve presente na vida de gerações de paleontólogos formados em nossas universidades. A localidade, de fácil acesso, e com afloramentos de rochas que possibilitavam o entendimento dos eventos geológicos dos últimos milhões de anos, sempre representou um espaço aberto para aprendizagem e qualificação de novos geocientistas. Com a descoberta do pré-sal, estas rochas despertaram novo interesse científico na medida em que as mesmas podem ser consideradas como análogas das “rochas reservatório” do pré-sal.

No estado do Rio de Janeiro, temos o maior número de paleontólogos do País, trabalhando em diferentes áreas do conhecimento paleontológico – desde a aplicação desta ciência na prospecção de recursos petrolíferos, até sua utilização para o entendimento teórico dos grandes fenômenos de evolução e extinção da vida na Terra. Universidades, centros de pesquisa, empresas e museus concentram especialistas em diferentes temas, desde o estudo de fósseis manométricos, até os grandes mamíferos das eras interglaciais. Assim, com o apoio da FAPERJ, estabelecemos, há mais de uma década, o Instituto Virtual de Paleontologia (IVP), programa institucional da FAPERJ inicialmente coordenado por mim e atualmente um projeto de extensão da Uerj coordenado pelo professor Hermínio Ismael de Araújo Júnior, também da FGEL-Uerj. O referido programa congrega instituições de ensino e pesquisa neste desvendar da história da vida. O IVP tem sido uma ação colaborativa das instituições sediadas no estado,  trabalhando em rede e possibilitando uma ampla difusão do conhecimento paleontológico. Palestras, exposições, participação em feiras de ciência, difusão por meio da imprensa e programas de treinamento e capacitação profissional são algumas das atividades.

Uma das principais ações do IVP encontra-se no âmbito do programa Jovens Talentos, da FAPERJ, e no apoio à revitalização do Parque Paleontológico de Itaboraí. Atividades importantes, que possibilitaram uma ampla popularização da paleontologia, estimulando, assim, a formação de novos profissionais.

O Parque Paleontológico de Itaboraí é, inegavelmente, uma das experiências educacionais mais importantes já feitas em nosso estado nos últimos anos – com uma conjunção das atividades de pesquisa científica e a transformação da realidade econômica local. Após o encerramento da atividade mineira na região, ocorreu um rápido declínio da empregabilidade na localidade de São José, próxima ao local, levando a inúmeros problemas sociais. A criação do parque na localidade da antiga pedreira de extração de calcário, por meio de um decreto municipal da prefeitura de Itaboraí, inseriu-se num contexto, no qual a pesquisa científica integrava-se com a comunidade, viabilizando ações que permitam transformar os aspectos sociais e econômicos locais. A parceria realizada entre a FAPERJ, instituições universitárias, prefeitura municipal de Itaboraí e a própria comunidade, aponta para uma nova forma de difundir e popularizar a informação científica, possibilitando, tanto o resgate da história da Terra (numa perspectiva que se abre a partir do conhecimento gerado no estado do Rio), quanto à participação da população, que pode ver modificada suas condições sociais por meio do turismo científico. Uma ação, enfim, transformadora da realidade social e educacional do estado por meio da paleontologia, auxiliando, assim, na criação de novos rumos para a solução dos problemas atuais.









Pesquisadora visitante do programa de pós-graduação em Análise de Bacias e Faixas Móveis (PPGABFM) da Faculdade de Geologia (FGEL), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maria Antonieta é professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Uerj
















*Artigo originalmente publicado em Rio Pesquisa, Ano VIII, Nº 29 (Dezembro de 2014)

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