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Publicado em: 06/04/2017

‘Made in Brazil’ ou tecnologia aplicada ao esporte*

Aline Salgado

Seletiva nacional de Va'a: esporte que ganha novos adeptos no País
recebe canoas 
adaptadas às condições do litoral brasileiro (Foto: CBCA)

Esporte em ascensão no País, a canoagem do tipo Va 'a, também conhecida como canoa havaiana ou polinésia, mobiliza hoje mais de mil praticantes regulares em oito estados do Brasil. Segundo a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCA), estão nesta lista Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Pará, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro, sendo Cabo Frio, na Região dos Lagos, um dos polos  mais desenvolvidos da modalidade. Natural daquela cidade praiana, o surfista e fabricante de pranchas (shaper) Adriano Rodrigues de Macedo viu na popularização do esporte no País a oportunidade de alcançar o sucesso nos negócios e a medalha de ouro. Mas não para si, e sim para o seu filho. 

Davi Lopes de Macedo é tricampeão brasileiro da categoria júnior, modalidade individual (V1), nas competições de 2012, 2013 e 2014. O atleta também coleciona vitórias no campeonato brasileiro na modalidade em equipe (V6), alcançado em 2015, e em competições internacionais. Em 2014, Davi foi um dos três atletas classificados para o mundial de canoagem individual – categoria 500 metros júnior. As medalhas e troféus do jovem são, em larga medida, frutos de muita união em família. Sem patrocínio, o filho de Adriano tira recursos para competir do trabalho como ajudante de obra civil. 

“Minha inspiração é o meu filho. Devido à nossa falta de recursos, comecei a pesquisar como poderia desenvolver uma canoa para ele. Assim como foi comigo, no princípio, quando comecei a praticar o surf e, por não ter recursos para comprar uma prancha nova, fui aprender a fazer a minha própria”, conta Adriano.

Há pelo menos cinco anos, o microempresário e dono da Nativa'a vem se dedicando ao desenvolvimento de um equipamento inédito, adaptado às condições hidro e aerodinâmicas do mar brasileiro e do biotipo dos nossos esportistas. A intenção, segundo Adriano, é melhorar a performance dos atletas e paratletas da categoria Va’a. “A experiência como shaper e na fabricação de pranchas de surf e embarcações para a indústria náutica me colocou em contato com profissionais das áreas de Engenharia Mecânica, Naval e Química”, diz Adriano.

“Todo esse conhecimento adquirido em 25 anos de experiência em sistemas fiberglass [a fibra de vidro] me fez perceber que as canoas polinésias usadas pelos adeptos da modalidade Va'a no Brasil eram cópias de canoas ‘gringas’ e, logo, não consideravam as nossas condições de mar, nem de vento, sem falar do biotipo de nossos atletas”, acrescenta o microempresário, técnico em mecânica. 

Adriano explica que no litoral brasileiro o mar tem ondulações menores e tempo de intervalo entre as ondas também reduzido. Realidade diferente da do Havaí, estado norte-americano onde a canoagem do tipo Va'a é uma tradição milenar bastante disseminada, com cerca de 10 mil praticantes, de acordo com estimativas da CBCA. “No Havaí, as ondas são maiores e contam também com mais espaço de tempo entre elas. Por isso, as ‘canoas gringas’ têm mais rocker, isto é, são mais envergadas. E quanto mais envergadas, mais lentas são”.

Essa característica, no entanto, ajuda a canoa a não penetrar na onda, o que leva a uma navegação mais deslizante, como uma espécie de surf em canoa. Porém, em águas mais calmas, como as do litoral brasileiro, o efeito é inverso. “A envergadura na canoa cria mais arrasto [a força que faz resistência ao movimento de um objeto sólido através da água]. Assim, as canoas acabam se encaixando entre as ondas, travando a navegação”, acrescenta.

Este foi um dos motivos para que Adriano iniciasse o desenvolvimento de um equipamento que tivesse um fundo mais plano para melhorar o desempenho de navegação. A inspiração veio da hidrodinâmica aplicada em navios e embarcações de baixa proporção: “Quanto maior o contato com a água, melhor projeção e deslocamento eles têm”, salienta o fabricante de pranchas.

O biotipo dos atletas também foi estudado. Adriano explica que as diferenças entre brasileiros e polinésios/havaianos são expressivas. Logo, o uso de equipamentos não adaptados, freava o bom desempenho dos desportistas nacionais. “A altura é a principal variante. Por isso, a nossa canoa é um pouco mais baixa que as tradicionalmente utilizadas. Também foi inserido um banco ajustável, que pode ser modificado conforme a necessidade da equipe, permitindo um alcance melhor do remo na água pelo atleta”, informa Adriano.    

O empreendedor Adriano Macedo (à dir.) e seu filho, o tricampeão
Davi Lopes, inspirador da produção de canoas  (Foto: Divulgação)  

O empreendedor conta que consultou amigos atletas de dentro e de fora do País, como os que moram no Havaí, para desenvolver um modelo de canoa “Made in Brazil”. “Precisava ter a certeza de que o projeto não era uma viagem da minha mente, que ele era concreto e necessário aos atletas nacionais”, lembra. Há três anos, Adriano conseguiu tirar seu sonho do papel, por meio da ajuda de dois edital da FAPERJ – Apoio ao Desenvolvimento de Tecnologias Assistivas e Inovação Tecnológica, ambos de 2013.

O projeto prevê a construção de uma canoa do tipo V6, com capacidade para seis atletas. Em uam segunda etapa, serão fabricadas canoas do modelo individual (V1), possível de ser usado por atletas normais e paratletas da categoria Va’a. 

Adriano revela como foi o passo a passo da construção deste equipamento. Segundo ele, com a colaboração de dois amigos, com profundos conhecimentos em canoagem e administração de empresas, foi possível o desenvolvimento do projeto com a ajuda do software AutoCAD, ferramenta de desenho em 3D. O documento foi então enviado para uma consultoria onde o sistema foi testado em um simulador automático.

“Colocamos o equipamento em um túnel de vento virtual para simular as condições hidro e aerodinâmicas do mar brasileiro. Em seguida, plotamos o projeto [impressão em impressora do tipo plotter, para grandes formatos] e o reproduzimos na íntegra em escala real. Em resumo, fizemos uma construção naval desde o zero”, detalha Adriano.

Construída em fibra de vidro ou de carbono, a canoa conta com um fundo mais retilíneo, permitindo, assim, uma maior área de contato com o mar e uma maior projeção em reta da embarcação. Adriano explica que foram incluídas modificações no flutuador (ama) e no estabilizador, para melhorar o contato com a água, reduzindo a resistência de empuxo [força vertical para cima que atua em corpos total ou parcialmente submersos] de desvio.

O empresário ressalta que, para a elaboração do projeto da canoa V1, seguiu à risca a orientação de amigos paratletas. “Tentamos atingir um equipamento que fosse mais satisfatório para eles, pois as canoas usadas por atletas paraolímpicos também vêm de fora. É um mercado muito ativo e com crescimento potencial no Brasil”, diz Adriano.

Se tudo correr conforme o cronograma e o desejo do empresário de Cabo Frio, os atletas da equipe brasileira de Va'a poderão testar as canoas “Made in Brazil” do outro lado do mundo: nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. 

* Reportagem originalmente publicada em Rio Pesquisa, Ano IX, Nº 34 (Março de 2016)

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