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Publicado em: 10/03/2003

Academia do Carnaval

Marcos Patricio
Fotos de Lewy Moraes
           

As escolas de samba têm conquistado bem mais do que a paixão dos foliões, sambistas e do público em geral. O universo do carnaval atrai, também, o interesse de pesquisadores das mais diferentes áreas. Antropólogos, economistas, sociólogos, jornalistas, historiadores e especialistas vêm, ao longo dos anos, acompanhando as transformações ocorridas na maior festa popular do planeta. Por meio de pesquisas, livros e projetos culturais eles buscam resgatar a memória do carnaval, registrar sua evolução e apontar novas tendências.

E transformação é o que não falta nos 73 anos de história dos desfiles. Do primeiro campeonato, vencido pela Mangueira em 1930, muita coisa mudou até chegarmos às apresentações da década passada, marcadas pela grandiosidade, o luxo, a teatralização e a polêmica. “O desfile em seus primeiros anos era muito tímido e nada tinha a ver com o espetáculo que é oferecido hoje. A apresentação das escolas passou por uma mudança radical nos últimos 30 anos”, destaca o pesquisador e musicólogo Ricardo Cravo Albin, que acompanha profissionalmente os desfiles desde 1963.

Segundo Cravo Albin, o Carnaval, como um todo, foi se modificando ao longo dos tempos e o desfile das escolas de samba está inserido nessas transformações. “No século XIX já existia o desfile do corso na Avenida Rio Branco. As escolas só chegaram cerca de 50 anos depois”, explica.

Estado intervém. Classe média adere

No processo de evolução dos desfiles há momentos marcantes, como a Era Vargas, quando o governo passou a intervir na organização do Carnaval de uma forma geral. Getúlio Vargas enxergava nas escolas um canal de contato com a população mais pobre e, em 1937, com o advento do Estado Novo, um decreto do presidente determinava que os sambas-enredos tivessem em suas letras uma função didática, com apelo histórico e patriótico.

Para o pesquisador José Henrique Carvalho Organista, a transformação do samba e da figura do malandro, lídimas expressões da nação brasileira, ocorreu justamente em um momento em que o Estado aumentou sua estrutura burocrática e implementou, junto às classes populares, um processo de civilização do seu  jeito de falar, vestir e se comportar, e ainda, uma maior aproximação e interdependência entre as classes sociais.

“O processo de construção de uma ‘cultura civilizada’ implicou na transformação da mestiçagem e dos símbolos culturais populares-urbanos, especialmente o samba, como uma forma de diálogo entre o mundo da ordem e da desordem”, afirma o doutorando em Ciências Sociais pela Uerj, cuja dissertação de Mestrado teve como tema “O processo de civilização do malandro: canção e política no tempo de Vargas (1930-1945)”.

Outro período notável de mudanças teve início na década de 1960. “Com a evolução do espetáculo oferecido pelas escolas, a classe média aderiu ao Carnaval e houve uma nova transformação dos desfiles”, destaca Ricardo Cravo Albin. “A classe média sempre foi à reboque de onde estava o poder”, conclui. O poder, nesse caso, deve ser entendido como o enorme potencial econômico que o desfile representava, já naquela época, para o turismo. E foi justamente no fim dos anos 60 que surgiu a proposta de cobrar ingresso para assistir ao desfile.

Canto e dança mais rápidos

A gravação dos sambas-enredos em Long Play (LP), a partir de 1968, e a criação do quesito cronometragem no desfile, dois anos mais tarde, também vieram a contribuir para novas transformações no Carnaval. “Mudou-se a essência do canto e da dança do samba, que passou a ser mais rápida. Os sambas-enredos estão dando lugar a marchas carnavalescas”, explica Ricardo Cravo Albin que, à frente do Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA), pretende desenvolver um projeto de resgate da história das escolas do Rio de Janeiro.

A diminuição do tempo de apresentação, conseqüência do excessivo número de agremiações por desfile, pode ter contribuído para essa aceleração do canto e da dança. “Isso está transformando o desfile em prova de atletismo”, brinca o Professor Julio Cesar Farias Santos, mestre em Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O pesquisador ressalta, entretanto, que as mudanças foram surgindo naturalmente, à medida que o desfile evoluiu para um espetáculo de proporções gigantescas. “O samba, como elemento do Carnaval, também teve de se adequar aos novos tempos. Não há mais lugar para os sambas arrastados, porém muito mais elaborados e poéticos, do passado”, explica Julio Cesar Farias, autor de “Para tudo não se acabar na quarta-feira”, livro em que analisa a linguagem do samba-enredo na década de 1990.

Mais profissional e menos popular

A inauguração do Sambódromo, em 1984, também pode ser considerada outro marco do Carnaval do Rio de Janeiro e, certamente, contribuiu para levar ainda mais profissionalismo à festa. Entretanto, há quem defenda a tese de que a construção da passarela do samba, criada para dar mais conforto e melhores condições do povo ver os desfiles,  teve um efeito contrário: fez diminuir a participação popular.

Para o Professor José Henrique Organista, a transformação das agremiações em “super escolas de samba S/A” fez com que o Carnaval se caracterizasse como um espetáculo cada vez mais grandioso e voltado para o público estrangeiro. “Com isso, se perdeu o caráter lúdico da festa e o seu espaço popular foi deslocado para o entorno da passarela do samba”, afirma.

A Professora Cida Donato discorda de que a apresentação das escolas tenha perdido o caráter popular. “O desfile é popular, não porque é aberto ou fechado ao povão, mas por pertencer ao povo. É o povo quem o movimenta com seus desejos, com suas necessidades, com seus princípios. O desfile é o resultado de pessoas que se unem para imaginar. Não fosse isso, veríamos, como na TV e no teatro, os figurantes sendo pagos para trabalhar nas cenas, ao contrário, as pessoas pagam, e muito caro, para estar ali, desfilando como componentes de uma agremiação”, afirma a pesquisadora, Mestre em Ciência da Arte pelo Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A profissionalização dos desfiles foi, segundo o Professor Julio Cesar Farias Santos, necessária em parte para atender às demandas de um palco fixo, o sambódromo, e à comercialização do Carnaval como arte para o mundo. “É importante ressaltar que o principal ponto do ‘carnaval profissional’ é empregar milhares de pessoas na sua feitura o ano inteiro. O caráter popular, logicamente, foi abalado pela estrutura de hoje. As fantasias e alegorias não são mais feitas exclusivamente pelas comunidades das escolas, mas por profissionais especializados no evento. O popular, mesmo assim, ainda se preserva nas alas de comunidade, na velha-guarda e nos foliões que se sacrificam financeiramente para obter um lugar na avenida”, explica.

Evitando fazer qualquer conceito de juízo, tarefa que, segundo ela, cabe aos críticos e não aos pesquisadores, a Professora Cida Donato afirma que o desfile é hoje o que tem de ser. “Aliás, é isso que impede que as Escolas de Samba esclerosem: as interferências do poder econômico, da tecnologia e das fantasias cada vez mais pesadas. O próprio sistema que mantém o carnaval, digo o sistema natural, espontâneo, filtra as interferências que podem e que não podem ser absorvidas, como também descarta certos valores ultrapassados. É isso. O desfile é o que, e a nós, cabe-nos admirá-lo e estudá-lo em sua metamorfose contínua”, explica a pesquisadora,  doutoranda em Ciência da Literatura pela escola de Letras da UFRJ e que há 15 anos trabalha com o Carnaval.

Festa ganhou novos atores

Um processo que vinha em marcha desde meados da década de 1970, com a ascensão da participação dos bicheiros, recebeu novo impulso nas duas décadas seguintes com a transformação do desfile em grande espetáculo e a crescente profissionalização das escolas de samba. O Carnaval, cada vez mais, deixava de ser uma coisa de sambistas, dando espaço ao aparecimento de novos atores. “Na verdade, os desfiles nunca foram só dos sambistas”, destaca a mestranda em Ciências Sociais pela Uerj, Joseane Paiva Macedo Brandão.

Em sua dissertação, que tem como tema  “Memória e identidade social - Um estudo das narrativas de componentes de velhas guardas de escolas de samba do Rio de Janeiro”, Joseane Brandão aponta, entre outros aspectos, a movimentação dos mais antigos componentes das escolas, como forma de preservar o espaço dos sambistas no universo do Carnaval. Segundo a pesquisadora, um bom exemplo de velha guarda atuante é a da Mangueira, agremiação que se modernizou para a captação de recursos e cujo marketing sempre esteve ligado à tradição.

Preservação à parte, os desfiles atuais não têm mais, segundo Ricardo Cravo Albin, o objetivo de preservar o samba, mas sim manter o grande espetáculo oferecido pelas escolas. “Não há outro exemplo no mundo de festa com tamanha magnitude. O desfile é um grande momento de confraternização”, afirma o pesquisador, que dedicou ao samba e ao Carnaval alguns dos 5 mil verbetes do Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira. A obra, que conta com o apoio da FAPERJ, pode ser acessada no site da Biblioteca Nacional, em www.bn.br e até abril ganhará uma nova versão, que ficará hospedada no portal do Ibest. Pode ser consultada, provisoriamente, em http://pippin.ibest.com.br.

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