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Publicado em: 03/12/2015

Fé e tradição se fundem na festa da Semana Santa de Ouro Preto

Aline Salgado

A imagem de Nossa Senhora do Rosário na
procissão
 em Ouro Preto (Fotos: Ed Pereira)

As disputas de poder que dominaram a cidade mineira de Ouro Preto, então Vila Rica, no século XVIII, se fundiram à fé e à devoção, deixando uma herança viva até os dias de hoje. E é na procissão da Semana Santa que essa tradição ganha vida aos olhos de moradores e turistas. Muito além do encantamento com a festa religiosa, o olhar apurado do pesquisador em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Edilson Pereira conseguiu desvendar mistérios por trás dessa famosa festividade. O projeto rendeu ao pesquisador o prêmio Capes 2015 de melhor tese na área de Antropologia e Arqueologia, a ser entregue em cerimônia marcada para a próxima quinta-feira, dia 10 de dezembro, no auditório do edifício-sede da Capes, em Brasília. 

Entre os anos de 2009 e 2013, Edilson, que é professor adjunto do Departamento de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), observou a dramatização da paixão, morte e ressurreição de Cristo na cidade mineira. A etnografia desse contexto é realizada pela análise da sequência de ações, atores sociais e personagens rituais que são mobilizados por conta da dramatização da paixão cristã – incluindo imagens religiosas (de Cristo e de Nossa Senhora) e uma centena de moradores que interpretam outras figuras bíblicas. 

A investigação ganhou a forma de tese de doutorado, sob a orientação da professora Renata de Castro Menezes, da UFRJ, intitulada "O teatro da religião: a Semana Santa em Ouro Preto vista através de seus personagens", defendida em fevereiro do ano passadoParte dos resultados da pesquisa foi apresentada ao público em agosto de 2014, na 29ª Reunião Brasileira de Antropologia, no Rio Grande do Norte. A ida ao evento contou com o suporte da FAPERJ, por meio do Apoio à Participação em Reunião Científica (APQ 5). 

A tese rendeu duas grandes surpresas ao pesquisador: as premiações no Concurso Sílvio Romero de monografias, do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), de 2014; e o prêmio Capes 2015. "Foi uma surpresa maravilhosa receber os prêmios. O próximo passo agora é transformar a tese em livro", diz Edilson, entusiasmado. 

O pesquisador conta que o primeiro contato com o seu objeto de estudo foi ainda nos tempos da graduação, em 2004, quando estudava na cidade mineira de Viçosa. "Me encantei com o aspecto estético da procissão, que é construída sob a inspiração da herança histórica barroca do período colonial", conta ele. O pesquisador ressalta, no entanto, que o barroco que desfila hoje pelas ruas enladeiradas de Ouro Preto é diferente daquele do século XVIII. 

"Para perceber os tipos de sociabilidade e os sentimentos coletivos que aparecem em cada festa, comparei a procissão da Semana Santa com os festejos do Carnaval e da festa do Doze (que celebra a fundação da Escola de Minas, a primeira voltada aos estudos mineralógicos, geológicos e metalúrgicos do País). Foi aí que pude identificar os sentimentos coletivos que envolvem a festa da Paixão de Cristo e quão particulares eles são", enfatiza Edilson. 

Vila Rica, atual Ouro Preto, foi criada a partir
da união de dois arraiais (Foto:Reprodução)

Segundo o antropólogo, embora o mote da festa seja religioso, a celebração carrega em si sentidos que remetem à própria construção histórica da cidade de Ouro Preto, como a formação de Vila Rica por meio da união de dois arraiais antagônicos. As disputas de poder local aconteciam entre bandeirantes paulistas e mineradores forasteiros, estes associados à Coroa Portuguesa, dando origem à Guerra dos Emboabas (1708). Sem falar nos choques entre mineradores e a Coroa, que suscitaram a Revolta de Felipe dos Santos (1720). E é justamente a imagem de uma cidade partida, desde a sua fundação, que reaparece de forma sutil na celebração atual.

"As regiões que originalmente formavam os dois arraiais deram origem às paróquias do Pilar e de Antonio Dias, que se mantêm até hoje. E elas se revezam na organização das procissões, havendo uma disputa amigável de quem faz a representação da via-crúcis mais bonita", conta Edilson. "O contexto de celebrar a Paixão de Cristo recupera uma rixa histórica. Algo que mobiliza as emoções e os sentimentos dos moradores", salienta o pesquisador.

Um dos aspectos que mais chamou a atenção do antropólogo é o tipo de relação que os moradores da cidade mantêm com as imagens religiosas. Figuras barrocas do século XVIII, as representações dos santos são protegidas cada qual por sua paróquia e, às vésperas da Semana Santa, são preparadas para a procissão. O preparo consiste desde as vestimentas do santo – uma para o altar e outra para a procissão – até o perfume a ser colocado em algumas imagens. 

"São postos em ação uma progressiva pessoalização dessas imagens", diz Edilson. "No momento da troca da roupa do Cristo, as zeladoras, responsáveis por essa preparação, fecham os olhos para evitar ver a imagem nua, apesar de não existir genitália aparente na figura. Um comportamento de respeito à imagem do santo", observa o pesquisador.    

Junto com as imagens de Cristo e de Nossa Senhora das Dores, alvos de grande devoção local, uma centena de moradores são convidados a participarem da procissão vestidos de figuras bíblicas. "É uma espécie de drama silencioso. Não é um Auto da Paixão. Os moradores que se assemelham a figuras bíblicas, contemporâneos ou não a Cristo, como Moisés, são convocados a participarem da festa vestidos à caráter", afirma Edilson. 

Fiéis rezam aos pés da imagem barroca
de Nosso Senhor 
dos Passos na Igreja do Pilar

Segundo ele, há organizadores do figurino bíblico que, baseados em novelas e filmes religiosos, montam as roupas e escolhem moradores que tenham características físicas comuns aos personagens. Um deles, que faz Moisés, precisa deixar a barba crescer seis meses antes. "Esse comportamento revela que as pessoas ocupam o personagem antes mesmo da festa", enfatiza o pesquisador.   

Mantendo o costume antigo, a paróquia do Pilar organiza a celebração da festa nos anos pares e a de Antonio Dias, nos ímpares. Tendo a Praça Tiradentes como marco fronteiriço, cada qual inicia a procissão do seu lado da cidade, atravessando a região e chegando à paróquia vizinha. Lá, as figuras santas são guardadas e preparadas para a procissão do dia seguinte, que parte dessa igreja. Mas o clima de competição é tão forte entre as paróquias que se chove no meio da procissão, os fiéis interpretam o fenômeno natural como um sinal divino de que o santo quer retornar para a sua paróquia, como lembra Edilson. 

"Além do zelo ao objeto histórico, visto que as imagens são do século XVIII, há uma torcida para que o santo da paróquia do Pilar não fique muito tempo no lado da Antonio Dias. Um comportamento que se liga ao mito de origem da própria cidade", diz o pesquisador.

Edilson se refere a uma das famosas lendas de Ouro Preto. Conta-se que as imagens de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos Passos haviam chegado juntas à cidade, trazidas por um burro. A primeira, de Nossa Senhora, seria deixada no Pilar e a outra seguiria para Antonio Dias. Mas acontece que o animal empacou e, como as diversas tentativas de fazê-lo andar não tiveram sucesso, os moradores daquela paróquia entenderam que a vontade do Senhor dos Passos era ficar ali também, e não atravessar a cidade. Esse então seria o motivo pelo qual a imagem teria sido supostamente “roubada” da paróquia de Antonio Dias. Por isso, até hoje, os fiéis da igreja do Pilar ficam apreensivos quando chove no dia do retorno, em procissão, da imagem para sua “casa".

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