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Publicado em: 29/01/2015

Estudo inédito discute homossexualidade na velhice

Vinicius Zepeda

Livro aborda tema inédito no meio acadêmico (Reprodução)

Casado há mais de 20 anos com o argentino Joel, 70 anos, Paulo também está entrando na velhice. Ele não concorda com a atual paquera entre homens. “Antigamente, existia entre nós um clima de sedução muito excitante. Flertes e olhares discretos eram o suficiente para que se percebesse a intenção. Para se chegar às vias de fato era preciso muita perspicácia, coragem e conversa. Entre risadas e trocas de olhares com o parceiro, tudo era difícil mas acontecia. O problema era encontrar um lugar para fazer sexo.” Já a história de Júlio, 68 anos, é permeada de sentimentos de repressão, culpa e vergonha. Casado por 20 anos com uma mulher, ele mantinha relações com homens às escondidas. Como resultado, a clandestinidade lhe gerou dificuldades em manter relações amorosas satisfatórias livres e sem preconceito, seja com homens ou com mulheres.

As histórias contadas acima fazem parte dos quinze relatos contidos no livro Ao sair do armário, entrei na velhice... homossexualidade masculina e o curso da vida. Escrito pelo ativista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Murilo Peixoto da Mota, e publicado pela Móbile Editorial, com apoio do programa de Auxílio à Editoração (APQ 3), o livro de 232 páginas é resultado de sua tese de doutorado na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ).

A expressão “sair do armário” não entrou no título por acaso. “Quem está no armário fica mais vulnerável, pois a proteção pelo silêncio é ambígua, encobre a injúria e o desrespeito. Quanto mais assumimos o que somos, obrigamos o entorno social a tolerar o direito que todos temos diante da diferença. Há muito preconceito. Todo homossexual, assumido ou não, encara o duplo dilema de viver em dois mundos para não enfrentar a violência e a difamação. Ainda no século XXI, muitos gays são expulsos de casa, há muitos casos de suicídio de jovens ainda pouco relatados em pesquisas”, destaca.

Para o pesquisador, a aceitação da condição homossexual pela sociedade é essencial para a felicidade. “O que se quer é o direito à diferença e o reconhecimento de que todos somos iguais perante a lei. A cidadania é para todos em nome da diversidade sexual. Mas é importante que se assuma o que se é. Vivemos em uma sociedade heteronormativa, ou seja, com normas feitas para atender somente os heterossexuais, e preconceituosa com a velhice. Nesse contexto, a cidadania é sempre uma conquista”, explica.

As afirmações do pesquisador são facilmente confirmadas pelo grupo gay Atobá, da Bahia. “Segundo dados da organização, houve mais de duzentos assassinatos de gays no país, o que mostra como o fundamentalismo religioso e a homofobia ainda hoje nos ameaçam”, complementa. Para discutir o assunto, o livro de Mota é o primeiro a abordar o tema da homossexualidade na velhice, de maneira empírica e junto às universidades. “No livro, há relatos de homens que assumiram sua opção sexual após os sessenta anos, ou seja, eram jovens durante os anos 1970, quando se vivia o auge da ditadura militar. Na época, os direitos civis ainda eram bastante reduzidos, reuniões com mais de duas pessoas eram consideradas ameaça e esse assunto ainda não estava na pauta das discussões políticas”, recorda. “Ao mesmo tempo, vale lembrar que entrevistei pessoas e casais da geração do ‘desbunde’, do movimento hippie. Alguns posteriormente contraíram Aids e muitos deles morreram vitimados pela doença”, acrescenta.

Mota fala sobre a atualidade do tema, e do preconceito, que ainda é forte no País. "Um dos erros frequentes da sociedade é atribuir ao homem homossexual um comportamento feminino. A homossexualidade não tem cara. Atribuir aos gays profissões ditas de ‘mulherzinha’, como cabeleireiro, maquiador, dançarino, entre outras, é uma grande falácia. Apesar de certas profissões abrigarem mais o talento dos gays como resposta ao preconceito, eles lutam para sobressair no trabalho”, opina.

O professor da UFRJ também chama a atenção para duas abordagens debatidas em seu estudo: o preconceito entre os próprios homossexuais, e a expressão “terceira idade” para designar as pessoas com mais de sessenta anos. No caso da velhice, os próprios homossexuais discriminam seus pares que chegam a essa idade, logo tachados de “bichas velhas”. "Isso acontece porque vivemos em uma sociedade que cultua a juventude, o corpo e o hedonismo, o velho é encarado como feio, não sexualmente atraente." E a expressão terceira idade muitas vezes esconde o fato de os homossexuais serem considerados cidadãos de segunda categoria. “A velhice acarreta uma série de problemas de ordem cultural, assistencial e social de uma forma geral. Mas no caso dos gays, há um duplo preconceito”, diz. 

Mota reforça ainda a importância e o ineditismo do livro, no qual procura traçar um panorama dos avanços do movimento pela liberdade sexual, que une lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, e o papel nele dos “gays velhos”. “Uma sociedade livre e democrática é aquela que respeita a diversidade sexual. É preciso entender que a orientação sexual é múltipla e que todos têm o direito de manifestá-la publicamente, com respaldo da lei”, afirma o pesquisador. Ele afirma que, apesar de culturalmente a velhice ser sinônimo de obsolescência, com os avanços da medicina e o aumento da expectativa de vida da sociedade como um todo, cada vez mais se vive bem aos sessenta, setenta e mesmo oitenta anos.

“Espero que possamos realmente contribuir para começar o debate na academia sobre o envelhecimento e a homossexualidade. As pessoas não podem ser tratadas como ‘mortas’ só porque ficaram velhas. Por isso mesmo, a idade não deve significar necessariamente inutilidade nem incapacidade. Sejam as pessoas héteros ou gays”, conclui.

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