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Publicado em: 15/01/2015

Design estratégico: entre a liberdade criativa e a praticidade

Danielle Kiffer

O cavalete Deployer, sistema feito de duas chapas
cortadas e tencionadas entre si, foi uma criação 
apresentada na feira de Milão (Fotos: Divulgação)

Como mediar o espaço existente entre a prática da criação e a reflexão fundamentada para projetos de design? O designer e diretor do Departamento de Artes e Design, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Cláudio Freitas de Magalhães, propõe um estudo que leve a esse ponto central – em que a criatividade e as justificativas do projeto de design não se anulem; em vez disso, se complementem.

Magalhães é autor do livro Design estratégico. Integração e Ação do Design Industrial dentro das Empresas, editado em 1997 como parte das políticas de design do então recém-lançado Programa Brasileiro de Design, criado em novembro de 1995 para aumentar a competitividade de bens e serviços produzidos no Brasil. “O conceito de design estratégico surgiu no início dos anos 1990, mesma época em que grandes transformações econômicas e sociais aconteceram no Brasil, com uma maior abertura para o mercado internacional, estimulada por reduções de tarifas de importação e incentivos à liberalização do comércio exterior e privatização.

“Nessa época, era fundamental articular a fase de concepção à fase de análise de um projeto. Ou, em outras palavras, fazer com que o designer participasse da definição do problema do projeto, e não apenas trabalhasse na solução.” As empresas não estavam acostumadas com este novo ambiente, que passava a exigir inovação, e tinham dificuldades para definir claramente o que queriam.” Segundo Magalhães, foi assim que, aos poucos, o designer passou a trabalhar de modo estratégico, desenvolvendo pesquisas e ajudando na formulação de estratégias que eram materializadas através de produtos, comunicações e ambientes projetados.

Tudo isso transformou conceitos anteriormente formulados e estabeleceu novos paradigmas. “Muita coisa mudou, mas para inovar, não se pode prescindir de nenhuma alternativa ou processo criativo. Se queremos inovar, não podemos usar só as fórmulas conhecidas”, diz o pesquisador.

Para Magalhães, o conceito de design estratégico se tornou preponderante a outras abordagens para processos criativos no setor, fortalecidos pela difusão do conceito de design thinking – termo cunhado para expressar a diferença entre ser designer e pensar como designer – e do branding, ou gestão de marcas. “Atualmente, se dá muita ênfase às análises do ambiente mercadológico, tecnológico, social e cultural em detrimento à reflexão na prática da atividade da configuração do design em si”, diz Magalhães, que também é Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.

“Continuamos com uma grande dificuldade de integrar a reflexão à prática no projeto.”  E acrescenta: “Além de discutir o design estratégico como uma forma específica de conhecimento e produção de saber, o objetivo com essa pesquisa é flexibilizar, articulando o design com fundamentos de arte e administração.”

Complementando o estudo, o designer desenvolve projetos experimentais e exercícios com seus alunos, pois, para ele, a questão passa pela reflexão na prática. Assim, ele propõe a seus jovens alunos do segundo semestre do curso de Design de Produto, do Departamento de Arte e Design da PUC-Rio, uma exploração do espaço tridimensional. Os alunos recebem um desafio: são encorajados a falar e a escrever sobre o que estão vendo e a comparar os efeitos de suas ações no desenvolvimento das diversas variantes da forma. Ele também pede aos estudantes que escolham o trabalho de outro aluno, fotografem e comentem.

Pregador sem mola com sistema mecânico
aplicado: exemplo de design inovador que não 
perde a funcionalidade

“Nessa atividade, eles são estimulados a dar nome às formas, às cores, a perceber equilíbrios e a harmonias entre as formas e os espaços vazios. Com isso, eles ganham vocabulário, adquirem a capacidade de entender, de falar sobre a forma em si, de maneira apropriada. É um esforço para inverter a prioridade, dando ênfase à composição visual 3D”, explica Magalhães. Para o pesquisador, o exercício é uma fundamentação específica do design, que prioriza o entendimento da forma dos desenhos e o olhar do aluno e que pode ser ampliado para outros exercícios de composição estratégica, como o de articular as necessidades dos usuários com as prioridades dos processos de fabricação, uso de materiais, negociação de custos e tantas outras variáveis que influenciam o desenvolvimento do design dos mais diversos tipos de produtos.

Durante sua estada em Nova York, em 2014, quando visitou o Departamento de Design de Produto da Pratt Institute, Magalhães teve a oportunidade de ampliar o contato com a teoria e a prática pedagógica desenvolvida pela professora Rowena Reed Costellow. Ela  iniciou seus estudos nos anos 1940, e deixou muitos seguidores, que criaram uma fundação e publicaram, em 2002, o livro Elements of Design: Rowena Reed Kostellow and the structure of visual relationships, pela Editora Princeton Architectural Press. Como parte de sua pesquisa, Claudio Magalhães está preparando o lançamento da versão brasileira do livro, que deverá ser publicado pela editora Cosacnaify, em 2015.

Ele também pretende realizar um workshop e uma exposição sobre o tema, mas  introduzindo algumas novidades, como o uso de um eye tracking, que permite registrar o caminho do olhar pela forma, prestando-se mais atenção aos detalhes do design, não apenas vendo o todo, o resultado, mas as diferenças de estruturas de cada desenho. “Estamos pensando em ir além, dar um tratamento aprofundado ao assunto”, fala o pesquisador , que também recebeu apoio do edital Prioridade Rio, da FAPERJ, para adquirir o equipamento.

“Estamos conversando com o Museu de Arte Moderna (MAM-Rio) para montarmos uma exposição, convidando os visitantes a usarem o eye tracking para observar tanto as peças desenvolvidas no workshop como trabalhos artísticos do acervo do museu. Seria uma forma de motivar uma conversa sobre a imagem a partir da vivência do percurso do olhar”, fala Magalhães.

Algumas dessas reflexões sobre design estratégico puderam ser vistas, concretamente, na exposição Rio+Design, realizada pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico Energia Indústria e Serviços, que, em 2014, foi exibida no Jockey Club do Rio de Janeiro e em Milão. Nelas, Magalhães – que foi um dos membros do conselho de design da mostra –  expôs uma mesa e um pregador diferentes, inovadores no design sem deixar de serem funcionais.

“O cavalete Deployer, apresentado em Milão, usa um sistema feito de duas chapas cortadas e tencionadas entre si. Expusemos também um sistema mecânico aplicado a um pregador que não tem mola e abre para o lado.” Segundo Magalhães, trata-se de uma forma simples, funcional, com menor número de componentes, e que está sendo patenteado.

“Esses são tipos específicos de design estratégico, mas jamais chegaríamos a essas formas por pesquisas de mercado. Mas são peças inovadoras e podem ter espaço para consumo”, conclui.

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