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Publicado em: 18/12/2014

Fiocruz sediará primeiro centro de nanotecnologia para a saúde do estado

Vinicius Zepeda

      Jorge Costa (de jaleco azul) e Marco Aurélio coordenam estudos
       para o tratamento de doenças pulmonares crônicas, como asma,
       silicose e hipertensão arterial pulmonar (Foto: Vinicius Zepeda)



As doenças pulmonares afetam milhões de pessoas em todo o mundo e, em muitos casos, podem ser fatais. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), só a asma, a mais comum entre elas, estima-se que ela atinja 235 milhões de pessoas, das quais 20 milhões – quase 10% do total – somente no Brasil. Para reverter este cenário, no País, o Ministério da Saúde vem estimulando a nanotecnologia ou tecnologia da miniaturização – em que um nanômetro corresponde a um milionésimo de milímetro – para desenvolver medicamentos. Pensando nestas questões, o biólogo Marco Aurélio Martins e o farmacêutico Jorge Costa, ambos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vêm coordenando estudos para criar fármacos para o tratamento, não somente da asma, mas da silicose, da hipertensão arterial pulmonar (HAP) e da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Já em fase bem avançada, as pesquisas ganharão novo impulso com a implantação, no campus da Fiocruz, de uma estrutura de contêineres climatizados para a criação do primeiro laboratório multiusuário de nanotecnologia voltado para a saúde. Ali também será feita a formação de recursos humanos nas áreas de farmácia e química medicinal, projeto que conta com recursos do edital Pensa Rio – Apoio ao Estudo de Temas Relevantes e Estratégicos para o Estado do Rio de Janeiro, da FAPERJ.

"Isso ocorre porque, com o uso da nanotecnologia, há uma liberação controlada das substâncias em alvos específicos do organismo, com aumento da estabilidade e biodisponibilidade desses fármacos, proteção de sua degradação, além da possibilidade de redução de dose e diminuição de efeitos adversos e da toxicidade. Isso tudo resulta numa maior adesão do paciente ao tratamento", acrescenta Martins.

Os pesquisadores explicam que, como a asma é uma inflamação de vias respiratórias pulmonares, quando o paciente está em crise, sofre com falta de ar e extremo desconforto. Atualmente, o tratamento é feito principalmente com glicocorticoides – as populares "bombinhas" – aplicados por inalação. Eles revertem o quadro inflamatório, normalizando o fluxo de ar e, com isso, trazendo alício ao paciente. "Porém, como se trata de uma doença crônica,  o tratamento a longo prazo gera efeitos colaterais perigosos, o que termina impedindo maior adesão a seu uso", explicam os pesquisadores. "Tomados por um longo período, os corticoides causam, entre seus principais efeitos, diabetes, osteoporose e maior susceptibilidade a infecções, o que muitas vezes assusta o asmático, que muitas vezes prefere ‘esquecer’ seu uso", fala Costa.

Outro problema é que, como a crise asmática não avisa quando ocorrerá, apenas acontece, não ter a bombinha à mão pode ser extremamente perigoso, podendo representar risco de vida", complementa Martins. Pensando nessas questões, os dois pesquisadores resolveram investigar o desenvolvimento de moléculas de eficácia farmacêutica sobre a doença, que apresentem menos efeitos colaterais do que os corticoides e possam ser tomadas por via oral.

"Há cerca de 15 anos, estudam-se os efeitos da lidocaína em substituição aos glicocorticóides. Apesar de se mostrar eficaz, no entanto, a lidocaína causa irritação das vias aéreas, provocando um extremo incômodo", afirma Martins. Ele explica que procurar substâncias de efeito similar à lidocaína, sem suas propriedades anestésicas, seria de extrema importância. "Assim, num primeiro momento, desenvolvemos análogos não-anestésicos da lidocaína. Com patentes aprovadas nos Estados Unidos, China, Japão e Índia, esses análogos foram tema de um acordo de transferência tecnológica, ainda vigente, entre a Fiocruz e um importante agente do setor farmacêutico nacional em 2010", acrescenta Costa. Mais tarde, e com apoio da FAPERJ, resolveram substituir os similares por análogos de outra substância: mexiletina, antiarrítmico de uso oral. "Diferente dos compostos anteriores, os análogos da mexiletina são moléculas quimicamente inéditas, com chances de gerar patentes internacionais mais importantes do que as conseguidas com os derivados da lidocaína", afirmam os especialistas, entusiasmados.

O estudo, apoiado por meio do edital Pensa-Rio, está centrado em quatro análogos não anestésicos da mexiletina – JME-141, JME-173, JME-207 e JME-209. Dados preliminares ainda não publicados, reunidos após depósito de patente no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI), mostraram uma surpreendente potenciação do efeito anti-inflamatório do JME-173. "Testes feitos em camundongos mostraram que o tratamento com nanocápsulas de JME-173 (8mg/kg, via oral) praticamente aboliu o maciço infiltrado inflamatório pulmonar e a subsequente hiper-reatividade brônquica. Em nanocápsulas, o composto teve sua eficácia aumentada em até oito vezes", explica Martins.

Em Minas Gerais, mais de 4.500 trabalhadores de minas de ouro sofrem de silicose

Costa chama a atenção para a importância e explica o que significa o novo laboratório. "Um centro de pesquisa desta categoria é um bem público, um centro de excelência que pode ser usado por pesquisadores de qualquer parte do País, bastando que se faça um agendamento de utilização e que a pesquisa tenha a ver com as diretrizes do Ministério da Saúde para o setor", explica. "Outro aspecto é que, se antes nossos estudos se detinham a dois grupos de pesquisadores da Fiocruz e se concentravam somente na asma, hoje ampliamos nosso escopo para silicose e outras doenças, como a hipertensão arterial pulmonar. Graças ao projeto, ainda ampliamos nossas parcerias com mais dois laboratórios da Fiocruz, dois da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dois da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ao todo contamos com uma equipe de 16 especialistas nas áreas de Química Medicinal e Farmacologia", complementa.

Ele aproveita para falar sobre as outras doenças que serão pesquisadas. "A silicose atinge milhões de trabalhadores em ambientes inóspitos, principalmente aqueles que não possuem protocolos padronizados de segurança e proteção. No Brasil, somente em Minas Gerais, mais de 4.500 trabalhadores de minas de ouro sofrem de silicose. A doença, em sua fase crônica, caracteriza-se por intensa resposta fibrogranulomatosa, acompanhada de dramática redução da capacidade pulmonar. O pior é que até agora inexiste tratamento satisfatório para ela", afirma Costa. "Já a DPOC, caracterizada pelo declínio da função respiratória, é a quarta principal causa de morte nos Estados Unidos e está associada principalmente ao tabagismo. O uso dos glicocorticóides produz alívio imediato no paciente, mas tem pouco ou nenhum efeito sobre o declínio da função pulmonar", acrescenta.

No caso da hipertensão arterial pulmonar, essa doença está associada à elevação crônica da resistência pulmonar, falência do funcionamento do ventrículo direito do coração e morte precoce. Apesar do desenvolvimento de terapias avançadas para o seu tratamento, a possibilidade de sobrevida após o diagnóstico ainda é baixa. "Ao mapearmos todo este cenário, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que há um grande interesse científico e clínico no desenvolvimento de terapias anti-inflamatórias inovadoras eficazes e seguras para o tratamento de todas essas doenças", conclui.

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