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Publicado em: 27/11/2014

Compulsão alimentar na mira da psicoterapia

Elena Mandarim

  Segundo a psicóloga Letícia Balbi, muitas
      vezes a obesidade tem origem em 
  dificuldades emocionais (Foto: Divulgação)

A sociedade moderna vive um paradoxo: de um lado a crescente epidemia de obesidade, que fez essa condição clínica se tornar um grave problema de saúde pública; e de outro a "ditadura" da magreza que impõe padrões de beleza muitas vezes incompatíveis com uma vida saudável. Para a psicóloga Letícia Martins Balbi, essa contradição contemporânea pode explicar o aumento significativo observado na procura de atendimento psicoterapêutico por pessoas com queixas sobre o corpo e sobre alimentação. De 2007 a 2013, ela coordenou um projeto no Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Federal Fluminense (SPA/UFF), buscando entender a relação entre compulsão alimentar e a angústia apresentada pelos pacientes na clínica psicanalítica. "Ao longo do estudo, compreendemos que a obesidade é na verdade uma porta de entrada para tratar o indivíduo em suas várias questões psíquicas. Frequentemente, o paciente se queixava do excesso de peso na primeira consulta e depois não tocava mais no assunto, evidenciando que outros pontos eram talvez mais importantes naquele momento de desabafo", esclarece a psicóloga.

O projeto, que recebeu recursos do Auxílio à Pesquisa (APQ 1), da FAPERJ, foi desenvolvido em duas etapas. A primeira foi oferecer aos pacientes o tratamento propriamente dito, em atendimento psicanalítico individual. Segundo Letícia, a pessoa obesa geralmente apresenta dificuldades de relacionamento interpessoal no trabalho, na escola, na família, na sexualidade etc. Isso pode levar ao isolamento social desses pacientes, desencadeando muitas vezes um quadro de depressão. "Em um primeiro momento, a psicanálise busca justamente fazer o individuo entrar em contato com suas dificuldades. O objetivo é que, ao longo do tratamento, ele aprenda a lidar com seus desejos e angústias, buscando controlar os fatores que o levam à compulsão alimentar", explica a psicóloga. 

Ela ressalta, no entanto, que o tratamento psicanalítico não deve focar nos sintomas e sim nas causas. "Com base na fundamentação teórica de Freud e Lacan, o papel da psicanálise é deixar o individuo livre para falar o que quiser, porque é nesse exercício que inconscientemente ele toca seus pontos críticos", esclarece. E acrescenta: "Entendemos a obesidade como a consequência de uma causa psíquica angustiante ou traumática. Ou seja, o prazer da alimentação minimiza aquela dor. Nesse sentido, o risco de o terapeuta insistir somente no fator obesidade, por exemplo, é o paciente mascarar momentaneamente esse sintoma, podendo buscar, no futuro, alívio para esses mesmos problemas psíquicos só que desenvolvendo outros transtornos, como fobia social ou síndrome do pânico."

Segundo Letícia, um dos desafios é garantir a adesão do paciente ao tratamento, que geralmente é longo. Ela explica que o abandono da psicanálise muitas vezes está ligado a uma expectativa irreal de resolução do problema. "Os pacientes estão cada vez mais seduzidos pela grande oferta de dietas milagrosas e intervenções médicas que prometem eliminar peso de forma rápida. No entanto, para nós, psicanalistas, mais importante do que métodos rápidos e sedutores é entender por que esse tipo de paciente se torna obeso e que lugar a comida ocupa em sua constituição psíquica e afetiva. E essas respostas só aparecem com o tempo."

A outra etapa do projeto foi a realização de uma extensa pesquisa teórica para o desenvolvimento de uma abordagem terapêutica mais eficiente. Com a atividade intitulada "Oficina de textos científicos", Letícia e sua equipe procuraram articular a parte clínica com a teórica. O objetivo foi buscar argumentos que pudessem ser apresentados aos pacientes para mostrar o quanto é importante a adesão ao tratamento psicanalítico. "Observamos que o primeiro passo é oferecer um espaço atrativo de diálogo, sem as características estigmatizantes de consultórios psiquiátricos. Outro fator importante é desviar o foco da obesidade e deixar que outros assuntos sejam abordados. E, por fim, estimular outras vias, como dança e luta, para o paciente lidar com a angústia que o leva à compulsão alimentar."

Letícia ressalta que os resultados foram satisfatórios e contribuíram para melhorar a compreensão em relação ao atendimento de pacientes com obesidade. "Nossa conclusão é que não só a compulsão alimentar como outros transtornos, como bulimia e anorexia, são respostas a eventos de angústia ou trauma, que nem sempre são percebidos conscientemente. Assim, a psicanálise pode contribuir de forma efetiva para melhorar a qualidade de vida social e psíquica de quem sofre com esses distúrbios alimentares", conclui Letícia.

Embora o projeto tenha sido concluído, o SPA/UFF continua aberto para atendimento da população. Lá são aceitos pacientes não só com queixas referentes à alimentação e ao corpo como também todas as pessoas que buscam acompanhamento psicológico. Os interessados podem buscar informações no site http://www.ichf.uff.br/index.php?url=spa

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