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Publicado em: 31/07/2014

Erotismo: presença comum na literatura inglesa

Danielle Kiffer

 Foto: Divulgação

      
  Projeto sobre  o erotismo nas literaturas de língua
               inglesa foi transformando em livro
 
Se, na atualidade, é comum ver cenas mais apimentadas em filmes e até em novelas transmitidas em horário nobre, impressiona observar que, na literatura inglesa dos séculos XVIII e XIX – época de moral bem mais restritiva –, o erotismo também marca presença em diversos livros, inclusive alguns escritos por mulheres. É o que mostra o estudo da pesquisadora Maria Conceição Monteiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.

Para o projeto, historicamente orientado, Maria Conceição partiu da análise de obras dos séculos XVIII, XIX e XX, colocando em relevo, para efeito de análises comparativas, as figurações narrativas do amor. "Procurei focalizar principalmente o corpo feminino e sua relação erótica com o outro, como foram apresentados nos romances.”

Alguns dos livros estudados foram O monge, A princesa de Clèves, A sicilian romance, do século XVIII; O morro dos ventos uivantes, Judas, o obscuro, Drácula, do século XIX; e O amante de lady Chatterley, The end of the affair, Heat and dust, The grass is singing, Wide sargasso sea, do século XX. "Também acrescentei alguns filmes, como A bela da tarde e O Cisne Negro, ao corpo textual da pesquisa. Escolhi essas obras porque em geral elas respondem à minha noção de erótico", explica a pesquisadora.

Na Inglaterra do século XVIII, posição e poder determinavam as relações sociais e até mesmo as familiares e sexuais. “Segundo o livro Mudança estrutural da esfera pública, de Jürgen Habermas, posição e poder andavam juntos. Como os que tinham posição eram os nobres ou os eclesiásticos, e como o poder era de origem divina, isso significava que eles eram os representantes de Deus na Terra”, explica a pesquisadora.  Seu poder podia ser temporal, no caso dos nobres, e religioso, no caso dos representantes da Igreja. Detentores do poder, eram eles quem ditavam as regras.

A arte teria o poder de formar e informar. Basta lembrar que, à época, a Europa vivia um período de desenvolvimento dos jornais e da disseminação dos livros, das ideias, do livre pensamento, dos libertinos. “Na Inglaterra, isso não toma um vulto tão grande porque igreja anglicana e nobreza formam um elo forte, dominando tudo, incluindo as universidades e seu possível pensamento crítico. Contudo, enquanto o desejo erótico florescia nos romances franceses, na Inglaterra, em consequência do caráter repressivo da moral vitoriana, o tema só se desenvolveria na segunda metade do século XIX.

"Entretanto, se, por um lado, é correto supor que, devido a essa moral repressiva, o romance erótico inglês tenha sido menos prolífico do que no resto do continente, por outro, entre dois fortes períodos de repressão moral – sob o influxo do puritanismo no começo do século XVII e sob a liderança metodista e evangélica no início do século XIX –, os ingleses das classes alta e baixa assumiram uma atitude mais tolerante em relação ao comportamento sexual durante mais de um século", explica a pesquisadora.

Até as primeiras décadas do século XVIII, havia certa tolerância sexual, tanto na linguagem quanto na ação, pelo menos nos meios aristocráticos e na alta burguesia, fato documentado, por exemplo, no romance setecentista Love in Excess, de Eliza Haywood. "Levanto a hipótese de que essa modalidade de ficção na Inglaterra se deveu a uma cultura de tolerância em relação à vida sexual nas altas classes, especialmente na Corte. Esses indícios aparecem na difusão de um certo pensamento libertino e no gosto por um tipo de narrativa já comum na França, girando não apenas em torno do amor erótico, mas também do escândalo sexual", enfatiza Maria Conceição. Ela acrescenta ainda que a ética do amor nos romances daquele período pode ser explicada, em parte – como no caso do romance de Haywood –, como uma resposta à limitação do prazer sexual na vida dos indivíduos, o que se estende até o século XIX. "Isso aparece representado nos romances pela encenação da resistência das heroínas femininas à transgressão dos limites, como no caso do adultério, por exemplo."

Ela também observa que, já no final do século XVIII, foram escritos diversos romances em que o amor erótico, o desejo, se manifesta. “Por motivações de ordem política e cultural, havia uma incitação para se falar de erotismo, e, como diria Foucault, falar publicamente, fora da demarcação entre o lícito e o ilícito, tendo o romance se constituído como um dos principais veículos desses discursos", conta a pesquisadora.

No século XIX, as restrições morais continuaram determinando o comportamento, principalmente o das mulheres, como pode ser observado muito claramente em Madame Bovary, O primo Basílio, A dama das camélias, O morro dos ventos uivantes, O moinho sobre o rio Floss, Judas, o obscuro e em tantos outros romances. "É claro que, no século XX, obras de autores como James Joyce, Virginia Woolf, Katherine Mansfield, D. H. Lawrence e Doris Lessing, entre outros, reafirmam a ideia de que todo o erotismo da época é, de certa forma, metafórico e poético. E que as questões humanas, quando perpassadas pelo erótico, afloram com mais vigor", afirma.

Em relação ao século atual, Maria Conceição acredita que o erótico esteja um pouco dissociado da arte. "Talvez seja ainda muito cedo para manifestar opinião sobre o século XXI. No entanto, creio que, na cultura do espetáculo, o erótico abre espaço para o efêmero, para o consumo, para o excesso. O erotismo não deve ser confundido com o desejo meramente sexual, ainda que não o exclua." A pesquisadora ainda vai além, afirmando que o erótico é segredo e sagrado, traz certo vigor de mistério, de silêncio. "Por isso, o erótico dificilmente poderá ser abarcado pelo discurso, pois energiza o inconsciente e o imaginário." O projeto acabou se transformando em um livro Figurações das paixões nas literaturas de língua inglesa, publicado pela editora da Uerj (Eduerj). 

 

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