O seu browser não suporta Javascript!
Você está em: Página Inicial > Comunicação > Arquivo de Notícias > Mundo proletário ilustrado
Publicado em: 17/07/2014

Mundo proletário ilustrado

Danielle Kiffer

 Revista Kosmos, 1905

     
 Nos início da República, operários aparecem nas fotos das
 revistas como parte do cenário das obras de modernização



“Subiu a construção como se fosse máquina, ergueu no patamar quatro paredes sólidas, tijolo com tijolo num desenho mágico (...)”. Construção, música de Chico Buarque da década de 1970, retrata, como muitas outras, a realidade do operário brasileiro de uma forma crítica. Esse universo de trabalhadores também foi objeto de historiadores, como Andréa Casa Nova Maia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela coordenou uma pesquisa para investigar o mundo do trabalho e para isso buscou as páginas das revistas ilustradas do Rio de Janeiro à época da primeira república – período compreendido entre a proclamação, em 1889, até o fim da primeira república, em 1930. “O estudo faz a relação entre a imprensa – representada pelas revistas ilustradas –, a república e a classe trabalhadora, sob o olhar das principais produções da cultura visual brasileira”, ressalta Andréa, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.

Ao levantar fotos e ilustrações das principais revistas ilustradas da época, entre elas Fon-Fon, Careta, Kosmos e O Malho, uma das primeiras observações da historiadora foi a ausência de material especificamente relativo aos trabalhadores. “Achamos pouquíssimas imagens que os retratassem; chegamos a cerca de 100 fotos, o que é muito pouco para um período de três décadas”, diz Andréa. Dentre as fotos coletadas, a pesquisadora pôde observar que a grande maioria mostrava os operários apenas como coadjuvantes e não como atores principais. "As imagens traduzem um desejo de apresentar o Rio de Janeiro como uma cidade moderna, e o trabalhador aparece sempre atrelado a essa ideia, até porque ele fazia parte da grande reforma urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos. Quando as fotografias os capturavam, principalmente nas reportagens sobre as obras de melhoramento na cidade, eles aparecem apenas como parte do cenário."

 Revista Kosmos, 1905
          

 Nas raras vezes em que os trabalhadores protagonizavam
  uma foto, revelava-se sua vida pobre e sem recursos

De acordo com Andréa, o não protagonismo da classe trabalhadora, que pode parecer muito óbvio aos olhos da sociedade contemporânea, à ocasião, poderia ser justificado pela ausência de força política do proletariado. “Eles não tinham nenhum direito: não havia salários estipulados, horário de trabalho definido, muito menos benefícios. Os direitos trabalhistas só surgiram após muita luta depois de 1930. Essa ausência de força da classe trabalhadora na sociedade se traduz na figuração dos operários nas fotos, quase como se eles fossem semelhantes às paredes de concreto que erguiam para compor a nova cidade”, explica a historiadora. Outra característica observada por ela é que as imagens dos menos abastados aparecem nas charges como forma de crítica e questionamento ao governo da época ou então de forma pitoresca, como se os operários fossem uma obra de arte. “Às vezes, trabalhadores comuns ao cotidiano da época, como a lavadeira ou o vendedor de frutas, eram ilustrados de forma bem bucólica, inocente, sem se mostrar sua verdadeira realidade, que era bastante sacrificada.”

Em raros momentos, os operários foram fotografados em suas moradias ou em momentos de lazer. “Com base nessas imagens, podemos reafirmar a pobreza vivida por essas pessoas, que, na maioria, habitavam cortiços sem conforto, vestiam roupas simples. Eles tinham poucas opções de lazer, e o que notamos, além de jogos, apostas, futebol de várzea e o samba, principalmente no carnaval, é a descoberta da boêmia. Em sua maioria, eles são estrangeiros pobres, negros ou mestiços, já que a época coincide com o pós-abolição e com um período de grande êxodo rural”, explica a historiadora, que complementa : "Desde o século anterior os trabalhadores lutaram por direitos, protagonizando inúmeras greves, geralmente organizadas por lideranças anarquistas e depois socialistas e comunistas. Porém, na imprensa ilustrada da época, isso pouco aparecia. Afinal, tratava-se de uma imprensa voltada para a elite e as classes médias urbanas". Assim que essa pesquisa terminar, o que está previsto para o ano que vem, a pesquisadora pretende dar continuidade ao trabalho, focando no período que se segue a 1930 para averiguar se a conquista de direitos trabalhistas alterou a forma com que passaram a ser retratados.

Compartilhar: Compartilhar no FaceBook Tweetar Email
  FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
Av. Erasmo Braga 118 - 6º andar - Centro - Rio de Janeiro - RJ - Cep: 20.020-000 - Tel: (21) 2333-2000 - Fax: (21) 2332-6611

Página Inicial | Mapa do site | Central de Atendimento | Créditos | Dúvidas frequentes