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Publicado em: 10/07/2014

Projeto avalia os impactos de mudanças climáticas nos manguezais fluminenses

Débora Motta

                                        Acervo Nema/Uerj 
 
 Árvores de raízes aéreas se destacam nos
 mangues: agentes na captura do carbono
 do ar
O Brasil possui a segunda maior extensão territorial de manguezais, perdendo apenas para a Indonésia. Eles estão presentes em todo o litoral brasileiro, desde o Amapá até o município de Laguna, em Santa Catarina. Esses ecossistemas, com árvores de raízes aéreas e retorcidas, equilibradas na lama e na água salobra, são fundamentais para o equilíbrio ambiental. Afinal, são verdadeiros berçários naturais de diversas espécies, como peixes, moluscos e crustáceos, que neles encontram condições ideais para reprodução e abrigo. “Os manguezais protegem a costa contra os ventos e a inundação do mar, sendo fontes de subsistência de populações, pela pesca e turismo”, disse o oceanógrafo Mário Luiz Gomes Soares, coordenador do Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema) e do programa de pós-graduação em Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).     

Essa riqueza natural, contudo, pode ser comprometida pelas mudanças climáticas em curso no planeta. Para avaliar como o aquecimento global e outros fatores ambientais vêm afetando esses ecossistemas, Soares coordena pesquisas sobre o nível de vulnerabilidade dos manguezais, que tiveram início no estado do Rio de Janeiro, com apoio da FAPERJ, e se ampliaram para outros estados brasileiros, em projetos desenvolvidos com a rede de pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Ambientes Marinhos (INCT-AmbTropic), coordenado por pesquisador vinculado à Universidade Federal da Bahia e destinado ao estudo das respostas do litoral brasileiro às mudanças climáticas.  

O estudo, considerado como o marco inicial das pesquisas de Soares, vem sendo realizado desde o final da década de 1990, no manguezal de Guaratiba, localizado a cerca de 70 quilômetros a oeste da capital fluminense, na Baía de Sepetiba. Contemplado pela Fundação por meio dos editais Apoio à Pesquisa Básica (APQ 1), Apoio a Programas de Pós-Graduação Estaduais, Prioridade Rio e Apoio ao estudo de soluções para problemas relativos ao meio ambiente, o oceanógrafo foi também bolsista da FAPERJ pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado. O trabalho vem sendo financiado ainda pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O manguezal de Guaratiba é o único no Brasil acompanhado em detalhes por pesquisadores durante um período tão extenso. “Em Guaratiba, nosso primeiro laboratório a céu aberto, observamos o impacto da elevação do nível médio do mar e dos ciclos climáticos sobre os manguezais. A partir desse modelo de estudo, a pesquisa foi ampliada para áreas de monitoramento em todo o Brasil, desde Santa Catarina até o Pará, e outras localidades no estado do Rio de Janeiro, incluindo os manguezais da Baía de Guanabara”, disse.

Em outras palavras, os ciclos climáticos regulam a vida nos manguezais. Durante os períodos mais úmidos, a chuva lava o solo, dilui o sal e as árvores conseguem se estabelecer nas planícies hipersalinas, conhecidas como apicuns – uma área descampada que lembra um deserto, extremamente salina, com solo duas a quatro vezes mais salgado do que a lama do manguezal, e sem a presença de vegetação arbórea. Já durante os períodos mais secos, ocorre o inverso e a vegetação do mangue fica prejudicada. "As mudanças climáticas podem alterar o regime de chuvas, fazendo com que elas fiquem mais escassas em algumas regiões e mais frequentes em outras. Em Guaratiba, por exemplo, observamos as respostas da floresta aos ciclos de clima. Nos anos mais úmidos ela cresce, e nos mais secos retrai", destacou Soares. "Em algumas regiões sem aporte de rio, os manguezais dependem apenas da água da chuva. Quando chove menos que o normal, a vegetação do mangue fica prejudicada, e até morre", completou.

Durante todos esses anos de pesquisa de campo, em que o oceanógrafo e a equipe do Nema deixa o conforto do Rio para fazer medições na lama e na mata fechada de Guaratiba, foi observada uma tendência comum em outros manguezais. "Ao longo dos anos, as espécies de vegetais do mangue e, consequentemente, de animais, começaram a colonizar uma área diferente, avançando em direção ao continente. Essa migração é uma resposta da floresta à elevação do nível médio do mar, devido a fatores como o aquecimento global. Para sobreviver, o manguezal precisa ir se adaptando conforme a subida das águas", resumiu Soares.

Assim, as florestas de mangue vêm avançando continente adentro sobre os apicuns. Quando a maré sobe, o mar inunda essas planícies. A água empoçada, após sua evaporação, deposita sal em excesso no solo, o que inviabiliza a sobrevivência das espécies típicas do mangue. Apesar das condições de sobrevivência adversas, aos poucos as plantas se instalam ali, devido à inundação dessa área, cada vez mais frequente com o aumento do nível do mar. "Em Guaratiba, a floresta avançou rumo ao continente quase 80 metros, desde 1998", detalhou Soares.

 Acervo Nema/Uerj
    
Mário Soares, da Uerj, ressalta a importância
de políticas públicas para conservar manguezais   
 
Diante dessa observação, o desafio é avaliar se há espaço físico nos territórios que devem ser ocupados pelos manguezais, vizinhos a esses ecossistemas. “Prevendo esse movimento de migração dos manguezais, que vai se intensificar nos próximos anos, temos que ter políticas públicas, a longo prazo, para a gestão adequada da zona costeira. É preciso saber se essas áreas atrás dos manguezais, perto do continente, estão disponíveis. Muitas delas já foram ocupadas por empreendimentos imobiliários, o que deve ser uma fonte de preocupação”, explicou. E prosseguiu: “Em Sepetiba, a Companhia Siderúrgica do Atlântico foi construída exatamente na área onde o mangue deveria migrar. Daí a importância do planejamento urbano de ocupação territorial.”

Na Baía de Guanabara, há um problema de planejamento similar. Entre os manguezais estudados ao longo desse período pela equipe do Nema, os da região metropolitana do Rio apresentam, na maioria, alta vulnerabilidade à subida do nível do mar. "Em um estudo comandado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fizemos uma análise dos sistemas costeiros, mapeamos todos os manguezais dos municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e analisamos a vulnerabilidade deles no caso de elevação do nível do mar", resumiu Soares. "As únicas áreas de vulnerabilidade intermediária na Baía de Guanabara são aquelas protegidas pela APA de Guapimirim e a Estação Ecológica Guanabara", completou. (Veja o mapa da vulnerabilidade dos manguezais à elevação do nível do mar na região metropolitana do Rio de Janeiro, sendo que as áreas representadas em vermelho apresentam alta vulnerabilidade, as áreas em amarelo, média vulnerabilidade, e as áreas em verde, baixa vulnerabilidade, segundo as pesquisas do Nema: http://www.faperj.br/images/Mapeamento_manguezais_RJ.jpg). 

Outra característica dos manguezais monitorados por Soares, de extrema relevância ambiental, é a sua importante capacidade de absorver carbono da atmosfera. Para estudar como os manguezais "sequestram" o carbono do ar, o grupo do Nema desenvolveu alguns modelos matemáticos para estimar a quantidade de carbono armazenada em cada espécie vegetal do mangue, ou mesmo na lama. O manguezal tem uma capacidade de armazenamento de carbono pouco menor que a de outras florestas tropicais. Em relação à Amazônia, o valor total só não é maior porque a área do ecossistema costeiro é muito menor (pouco mais de 1 milhão de hectares) do que a da Amazônia (aproximadamente 500 vezes maior) ou da mata atlântica.

Acervo Nema/Uerj 

 
 Equipe do Nema em trabalho de campo: estudo do manguezal
 de Guaratiba foi a base para entender mangues em outros estados

"No entanto, se considerarmos a soma da quantidade de carbono aprisionado na biomassa aérea (a parte das árvores acima do solo), com a biomassa subterrânea (as raízes) e o sedimento (a lama), o manguezal ganha da Amazônia no armazenamento de carbono por unidade de área", avaliou Soares. E prosseguiu: "É importante conservar os manguezais, que têm grande potencial para aprisionar o carbono e, quando um sistema com tanto carbono é destruído, libera esse carbono na atmosfera, o que aumenta os gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global", alertou.

Com o aumento da temperatura do planeta, os manguezais também devem ampliar sua distribuição geográfica. A vegetação dos manguezais não cresce em baixas temperaturas, e por isso mais da metade desses ecossistemas do mundo está entre as latitudes 10N e 10S. "Como o sul do Brasil deve se tornar mais quente até o fim do século XXI, conforme as previsões climáticas, os manguezais devem ocupar latitudes mais altas e se expandir para regiões onde não existem hoje, ao sul do limite deles em Laguna", disse Soares. Até o momento, conforme artigo do Nema publicado na renomada revista científica britânica Estuarine, Coastal and Shelf Science, não houve expansão dos manguezais além dos limites latitudinais, nos últimos 30 anos.

Assim, pela importância ecológica, econômica e social, e pela vulnerabilidade das áreas costeiras onde preferencialmente ocorrem os adensamentos urbanos, empreendimentos portuários e industriais, e o cultivo de camarões, os manguezais merecem atenção especial. “Esperamos, dessa forma, contribuir, através da elaboração de um estudo aplicado, para a estruturação de políticas de conservação, restauração e monitoramento dos remanescentes de manguezal do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil e, por conseguinte, dos bens e serviços vinculados a esses sistemas”, justificou o oceanógrafo.

Ao lado de Soares, participam do projeto os professores Felipe de Oliveira Chaves e Gustavo Calderucio Duque Estrada, ambos do Nema/Uerj; as professoras Cláudia Hamacher e Cássia Farias, do Laboratório de Geoquímica Orgânica Marinha da Uerj; e a professora Carla Madureira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de diversos alunos de pós-graduação do Nema/Uerj, como os doutorandos Viviane Fernandez, Paula Almeida, Daniel Medina, Michelle Passos e Marciel Estevam, além dos mestrandos Mayne Assunção, Brunna Tomaino, Carolina Cardoso e Ana Carolina Teixeira.

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