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Publicado em: 30/01/2014

Subúrbios: 150 anos de história carioca

Vilma Homero

 

      Arquivo do Museu Histórico Nacional
    
 Botafogo: até fins do século XIX, arrabaldes
    ocupados apenas por sítios e chácaras

Quando o comerciante inglês John Luccock aportou em terras brasileiras, poucos meses após a chegada da família real portuguesa e da abertura dos portos da então colônia ao comércio internacional, a cidade do Rio de Janeiro compreendia um quadrilátero que pouco ultrapassava os limites entre o Cais Pharoux, hoje Praça XV, até o Campo de Santana, que mais tarde seria a Praça da República. O que existia para além desse núcleo eram sítios e chácaras, onde residia a população mais abastada, que não precisava trabalhar ou circular pelas ruas do Centro, ocupadas majoritariamente por pequenos comerciantes, trabalhadores, ambulantes e escravos.

Pode-se dizer que a "certidão de nascimento" dos subúrbios é a estrada de ferro Central do Brasil, que teve seu primeiro trecho inaugurado em 1858, e as fábricas que viriam a se instalar nas regiões mais distantes, como Magé, Petrópolis e Paracambi, aproveitando os cursos dos rios e suas quedas d’água. Com a máquina a vapor e o primeiro surto fabril no país, na década de 1880, as fábricas se aproximariam mais da área urbana da cidade, instalando-se em arrabaldes, como Jardim Botânico, Gávea, Laranjeiras, e ainda Tijuca, São Cristóvão e Bangu, às margens da ferrovia. Na esteira desses novos caminhos rumo à zona rural e com a grande reforma urbana que aconteceria nos primeiros anos do século XX, com o prefeito Pereira Passos, novos bairros vão surgindo, povoamentos urbanos ocupados tanto por operários quanto por parte da população pobre, agora desalojada do antigo Centro da cidade. A história dessa ocupação e da formação do subúrbio carioca é contada em uma série de artigos, reunidos no livro 150 Anos de Subúrbio Carioca, organizado pelos geógrafos Márcio Piñon de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes, ambos da Universidade Federal Fluminense (UFF), e publicado com apoio do Auxílio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ.

"Tanto eu quanto o Nelson estudamos o tema subúrbio de longa data. Em 2008, quando a Central do Brasil completou 150 anos de existência, aproveitamos a data e organizamos um colóquio na UFF para reunir as diferentes pesquisas que falassem sobre essa ocupação. Em 2010, transformamos esses trabalhos em livro", conta Piñon. Como é possível ver em 150 Anos de Subúrbio Carioca, o livro procurou trazer ao leitor uma visão multidisciplinar do tema, reunindo história, geografia, antropologia, sociologia, urbanismo e até mesmo cinema. "Queríamos apresentar a história da ocupação dos subúrbios por diferentes enfoques, desmistificando os conceitos vigentes."

A começar pelas palavras do britânico Luccock, um tanto surpreso ao constatar que, naqueles começos do século XIX, "decididamente, as ruas do Rio não eram lugar para senhoras. Não havia lojas comerciais com vitrines atrativas, apenas comércio atacadista e importadores, um passeio público e praças nauseabundas, verdadeiros depósitos de imundícies, frequentadas pela ralé, o que não era para mulheres de família. O melhor mesmo era que continuassem fechadas em casa", comenta o viajante, sobre suas impressões da cidade. Nesse contexto, o Rio de Janeiro se dividia entre o urbano e o rural, com uma tênue zona fronteiriça, os chamados arrabaldes, em que se incluíam Botafogo, Tijuca, Laranjeiras e Andaraí, só para citar alguns.

 Autor não identificado / Souza, 1944
     
     Imagem dos sobrados da Vila Proletária Marechal Hermes,    
                    na rua 1 de Maio em 1919
Com a reforma urbana de Pereira Passos, o eixo Zona Norte e Zona Sul se consolida. Progressivamente habitados por moradores bem-nascidos, os subúrbios ao sul da área central foram sendo incorporados à cidade, transformando-se em bairros. "Aliás, a invenção da expressão Zona Sul, que aparece pela primeira vez em 1927, se deve ao jornal da Associação Comercial de Copacabana, o Beira-Mar, que passa a denominar assim a região geograficamente localizada ao sul do Cristo Redentor", explica Piñon. Como conta o pesquisador, o assunto foi tema da tese de doutorado de Elizabeth Dezouzart Cardoso, orientada por ele, em que se mostra como os bairros abastados de Botafogo, Laranjeiras e mais tarde Copacabana, Ipanema e Leblon passam a identificar o moderno, o requinte e a sofisticação.

Por outro lado, as áreas ocupadas por uma população operária ao longo da via férrea, que vão de Santa Cruz até São Cristóvão, começam a ser identificadas pejorativamente como subúrbio – a sub urbis. Subúrbio, portanto, eram as áreas distantes do Centro, que não contavam com a infraestrutura e os símbolos de poder econômico que caracterizavam esse Centro. "A palavra passa a ter uma diferente conotação social, associada àquilo que é antiquado, que é precário", afirma Piñon. Como se vê no livro, em artigo do antropólogo Rolf de Souza, esse conceito se estende até mesmo às pessoas, passando a designar uma certa masculinidade subalterna. "Seria aquele homem sem refinamento, encontrado nas esquinas e nos botecos. Segundo as representações que aparecem nas reportagens de jornais da época, todos eles teriam em comum, além da pouca instrução, a postura machista, a malandragem", afirma Souza.

Durante a gestão do presidente marechal Hermes da Fonseca, no entanto, houve pela primeira vez a preocupação em intervir no espaço urbano de forma planejada, na criação de bairros inteiros, as chamadas vilas proletárias. A ideia era marcar três pontos cardeais distintos na cidade: Gávea, o limite da periferia urbana ao sul, densamente ocupada pelos operários das fábricas têxteis Corcovado, Carioca e São Félix, onde foi construída uma vila em 1913, batizada como Vila Orsina da Fonseca, em homenagem à esposa do marechal presidente; Manguinhos, zona em franca industrialização, nas proximidades do recém-inaugurado porto e servida por bondes e pelas estradas de ferro da Leopoldina, Auxiliar e Rio D'Ouro, foi o espaço escolhido para a segunda vila proletária; e os terrenos vizinhos à Vila Militar, projeto mais ambicioso, onde se ergueriam moradias para cinco mil pessoas, com infraestrutura de hospitais, escolas, teatro etc. Seria, portanto, um grande bairro planejado como até então nunca se vira. Como explicam Alfredo Cesar Tavares de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes, autores do artigo que trata do assunto, "em gritante contraste com os demais bairros do subúrbio, Marechal Hermes seria a primeira iniciativa em habitação popular, monumental, planejada pelo Estado para contar com todos os serviços. Seus imponentes sobrados e espaçosas ruas sombreadas pelo verde aparecem pelas lentes do cineasta Cacá Diegues, no filme Chuvas de Verão".

 Museu Aeroespacial

    
    Vista aérea de Marechal Hermes, em 1935: no centro,
            praça da estação e cúpula do cinema
Como Piñon faz questão de citar, "destacam-se ainda o texto do historiador Almir Chaiban El-Kareh, que conta as andanças do inglês Luccock e de outros viajantes, numa época em que subúrbios eram os arrabaldes; o trabalho da socióloga Maria Laís Pereira da Silva sobre a formação das favelas nos subúrbios do Rio; e a rica pesquisa histórica de Laura Antunes Maciel em torno da atividade intelectual e letrada nos subúrbios".  Mas o livro vai além ao trazer ainda o trabalho do arquiteto e urbanista Antonio Pedral, comentando sobre o significado da segmentação espacial dos bairros dos subúrbios cortados pela ferrovia e sua repercussão na vida social dos seus moradores; e por fim a análise do cineasta Luiz Cláudio Motta Lima sobre a trama socioespacial expressa no clássico filme Rio Zona Norte, do cineasta Nelson Pereira dos Santos, levando para as telas o cotidiano e os dramas da população que o subúrbio abriga.

"Queríamos trazer à tona os aspectos menos visíveis e menos conhecidos da geografia e da sociedade dos subúrbios cariocas, e indicar horizontes de análise mais amplos, vistos sob um olhar mais crítico. Esse foi parte de nosso propósito", finalizam os organizadores.

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