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Publicado em: 24/07/2013

Como a grande mídia impressa vê a questão das ações afirmativas

Vinicius Zepeda

AlagoasWeb

             
          A ação afirmativa mais comum é aquela que facilita o
        ingresso de alunos de escolas públicas às universidades
Ações afirmativas são medidas criadas pelos governos para compensar a discriminação histórica de certos grupos da sociedade. É o caso, por exemplo, das bolsas ou cotas em instituições de ensino superior para estudantes vindos de escolas públicas, indígenas, deficientes, jovens vindos de comunidades de baixa renda, negros e outras minorias. "Entretanto, quando o assunto é pautado pela grande imprensa brasileira, acaba restrito apenas à questão das cotas para negros, limitando o debate de um tema tão rico e complexo à questão racial, gerando, naturalmente, muita polêmica. Mas acaba não dando voz nem identidade a outros grupos sociais discriminados em nossa sociedade", afirma o cientista político João Feres Júnior, doutor em Ciência Política, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Feres Junior, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, vem coordenando um projeto audacioso: analisar a abordagem das ações afirmativas nos últimos treze anos pelos jornais Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense e O Estado de Minas, além das revistas Veja, Isto É e Carta Capital. "

Entre algumas conclusões preliminares do projeto, Feres Júnior destaca que o enquadramento dado pelos jornais toma casos particulares como representações do geral, transformando ação afirmativa em sinônimo de cotas para negros. "As ações que beneficiam outros estratos sociais, como indígenas, estudantes de escolas públicas ou jovens de famílias de baixa renda são praticamente desconsideradas pelo noticiário", diz o pesquisador. Num levantamento feito junto a 70 universidades públicas brasileiras que utilizam alguma ação afirmativa, os resultados mostram que as cotas para negros sequer são o benefício mais empregado no país. Pelo levantamento feito, a ação afirmativa mais comum é a que beneficia alunos vindos de escola pública, adotada em 59 universidades (84,3% do total das instituições pesquisadas ou 61,4% de todas as universidades federais e estaduais do País). Para o João Feres Júnior, esse dado já derruba dois argumentos contrários às ações afirmativas, que costumam ser mencionados nos jornais: o primeiro é o de que ao se centrarem na questão racial, elas desconsideram o problema da desigualdade socioeconômica brasileira. "Isso é uma grande falácia, pois há ações que beneficiam tanto grupos sociais quanto étnico-raciais", afirma Feres Júnior. O segundo argumento é o de que excluem os brancos pobres. "Não é verdade. Se as politicas afirmativas beneficiam predominantemente alunos de escolas públicas, os maiores beneficiários são exatamente os brancos pobres", completa.

Ele lembra que, num primeiro momento, as notícias publicadas sobre o tema se restringiram às medidas tomadas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pela Universidade de Brasília (UnB), duas universidades que adotam cotas raciais. Na Uerj, que também aplica critérios socioeconômicos, basta o estudante se autodeclarar negro, enquanto na UnB é necessário que o estudante seja fotografado para provar o critério racial. “É importante notar que a utilização de comissões de verificação racial ou fotografia como mecanismo de homologação dos candidatos às ações afirmativas raciais está presente em um número ínfimo de universidades, o que nos leva a crer que a UnB é muito mais exceção do que um exemplo generalizado ou uma tendência a se chamar a atenção”, afirma Feres Júnior.

Adriana Lorette 
      

Feres Júnior: "No Brasil, as universidades têm
autonomia sobre o uso das ações afirmativas."  

Examinando o jornal O Globo, a equipe constatou que aproximadamente 20% de tudo o que foi publicado sobre políticas afirmativas raciais saiu em 2004. "Vários episódios contribuíram para esse pico, entre eles o apoio por várias instâncias do governo federal ao projeto de lei 73/1999, batizado como Lei das Cotas, ainda em tramitação no Congresso Nacional, que tem como proposta básica tornar obrigatória a adoção de cotas raciais e sociais pelas universidades federais brasileiras", explica o pesquisador da Uerj. Ele lembra que, embora na época o então presidente Lula tenha recuado em relação ao apoio dado ao projeto, a imprensa, sobretudo O Globo, repetia em suas matérias que a cota racial era uma política do governo federal. "Uma das críticas mais comuns adotadas pelo jornal é dizer que elas são consequência direta do aparelhamento do estado por movimentos sociais, especialmente pelo movimento negro", acrescenta. "A maioria desses programas foram criados dentro das próprias universidades, em exercício de sua autonomia. Não houve, até o ano passado, legislação federal para regular essas políticas no país", fala Feres Junior, derrubando a tese.


O  cientista político destaca ainda que, para garantir a imparcialidade, os jornais utilizam o recurso do controle de valência, em que se procura distribuir de forma controlada, argumentos contra, a favor, ambivalentes, neutros e ausentes. Entretanto, essa imparcialidade nem sempre acontece. "De 944 textos coletados em O Globo, 44% foram contra e 25% favoráveis. No caso da Folha de S. Paulo, o viés foi menor, com 29% de opiniões contrárias, 26% a favor, 11% ambivalentes e 33% ausentes e 1% neutra", afirma. Ainda segundo a pesquisa, a equipe de Feres Júnior verificou que, no caso dos jornais, o debate público se deu pela separação entre textos opinativos e reportagens. "Em relação aos textos opinativos, nos dois jornais quase 100% dos editoriais foram contrários às ações afirmativas. Na seção de Cartas do Leitor, O Globo também mostrou predominância de opiniões contrárias, enquanto a Folha de S. Paulo balanceou meio a meio as opiniões contrárias e favoráveis. No caso das colunas assinadas, houve equilíbrio de opiniões nos dois impressos", cita o pesquisador. Ele explica ainda que, no caso das reportagens, O Globo optou por abordar mais aquelas com viés contrário, enquanto a Folha de S. Paulo continuou defendendo a neutralidade. "Assim, verificamos que, embora os jornais optassem por uma aparência de neutralidade jornalística em seus textos, na cobertura do tema apresentaram o viés defendido por sua linha editorial", complementa.

Feres Júnior afirma que atualmente a pesquisa está em estágio avançado de coleta de dados, codificação e análise de resultados. Faltam ainda os dados sobre as revistas e sobre o jornal O Estado de Minas. No caso específico da revista Veja, ele adianta alguns resultados. "Sua linha editorial apresenta opinião sem controvérsia, como se tudo que ela defende fosse verdade absoluta e não houvesse diferença entre opinião e fato", lamenta. "O curioso é que, antes de 2003, quando as ações afirmativas se tornaram realidade, a revista ainda apresentava algumas opiniões favoráveis ao tema, que, depois disso, passaram a não mais existir", destaca. Ao final do estudo, o pesquisador espera que esse levantamento sirva para entender melhor as vozes autorizadas pela grande imprensa a falar sobre temas sensíveis como o que ele vem estudando. "A mídia se utiliza fortemente da opinião de um grupo específico de intelectuais contrários às ações afirmativas. Porém, no meio acadêmico as opiniões são bem mais plurais e, não raro, mais progressistas do que as expressas por aquele pequeno grupo", conclui.

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