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Publicado em: 16/05/2013

Para acelerar a cicatrização de lesões na pele

 Divulgação / Uerj
 
 Ao lado da bolsista Taíza Castro (esq.), a pesquisadora
  Andréa Monte Alto trabalha em seu laboratório na Uerj
 
Poliéster é um material sintético com inúmeras aplicações. Para os pesquisadores da área da saúde, no entanto, ele pode ter um uso bastante específico: servir como curativo para lesões na pele. É exatamente o que a equipe coordenada pela professora Andréa Monte Alto Costa, do Laboratório de Reparo Tecidual, vem estudando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em colaboração com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): como o emprego de filme de poliéster coberto com óxido nítrico pode acelerar a cicatrização de ferimentos. "Hoje, estamos tratando apenas lesões agudas. Nosso próximo passo será aplicá-lo sobre lesões isquêmicas, como as que surgem em consequência de úlceras venosas, ou de escaras, tão comuns em pacientes acamados", explica a pesquisadora. Com o mesmo objetivo, o de promover a regeneração dos tecidos, a equipe vem experimentando dois outros caminhos: usar pele de rã-touro e o consumo de erva-mate. Esses estudos contaram com o apoio do edital Pensa Rio, da FAPERJ.

No caso do filme de poliéster, embora os resultados ainda sejam preliminares, os pesquisadores tomaram como ponto de partida antigos trabalhos sobre o tema para tentar novas abordagens. "Como o óxido nítrico nada mais é do que um gás produzido pelas células do organismo, que participa ativamente do processo de cicatrização de lesões, procuramos formas de torná-lo disponível nesse ponto. Para isso, utilizamos um doador, ou seja, um tipo de molécula capaz de liberá-lo continuamente. Nesse caso, empregamos a s-nitrosoglutationa, e constatamos que era possível acelerar o processo de cicatrização da lesão", anima-se a pesquisadora.

Os resultados foram consequência de testes feitos em camundongos, tratados com curativos com e sem óxido nítrico. Agora, a equipe está procurando chegar à dosagem adequada do gás. "Sabemos que, em excesso, ele se torna tóxico. E em quantidade insuficiente, não produzirá os resultados desejados", esclarece Andréa. A equipe também espera responder várias perguntas, entre elas saber como o uso de óxido nítrico funciona exatamente para acelerar o mecanismo de reparação cutânea.

Como explica Andréa, o processo de cicatrização da pele segue três fases distintas: a inflamatória, a de formação de tecido de granulação, e a de remodelagem ou formação de cicatriz. "Imaginamos que um dos mecanismos do óxido nítrico seja a modulação da fase inflamatória. Outra possibilidade pode ser a de acelerar a deposição de colágeno. Isso combinado promove um processo de cicatrização mais rápido."

No caso da erva-mate, o interesse dos pesquisadores também é grande, já que, pelo que já constataram, ela também acelera a cicatrização de lesões agudas na pele de animais. O interesse pelo trabalho surgiu a partir da descrição das propriedades antioxidantes da erva. Os animais do experimento foram submetidos à pressão psicológica, condição que sabidamente retarda a cicatrização e aumenta o estresse oxidativo. "No entanto, vimos que a ingestão do mate só produzia efeitos positivos nos ratos sob estresse, e nos animais do grupo de controle isso não acontecia. Sabemos que o mate contém diversas substâncias, mas não sabemos exatamente qual delas está envolvida no processo. Os resultados foram repetidos e constatamos que não é a via antioxidante." Para os pesquisadores, fica uma pergunta no ar: se isso se deve a uma questão de adequar a dose, que talvez esteja sendo apenas suficiente para melhorar as condições de cicatrização, mas não reduzir o estresse oxidativo.

Uma das hipóteses levantadas para explicar o que acontece é que, como o estresse retarda a fase inflamatória, ou seja, a primeira etapa do processo de cicatrização, o mate faz exatamente o contrário: que essa fase ocorra mais próximo do tempo normal. "Estamos estudando o perfil das células inflamatórias para entender esse processo e criar hipóteses para o que acontece, que é o trabalho de conclusão de curso de Taíza Castro, bolsista de iniciação científica da Uerj."

A terceira linha de pesquisa é com a pele de rã-touro, trabalho desenvolvido em colaboração com a professora Lycia Gitirana, também da UFRJ. "Na medicina popular, o emprego da rã-touro é tido como um bom curativo. Mas ainda não há estudos científicos a respeito. Então, estamos justamente investigando se essa pele realmente pode ser um bom curativo biológico, se tem comprovadas propriedades bactericidas, particularmente para o tratamento de queimados."

O trabalho tem sido minucioso. Os pesquisadores primeiro procederam à coleta da pele da rã, que em seguida foi esterilizada. "Com isso, já estabelecemos um protocolo para o procedimento. Numa segunda etapa, investigamos se a pele em si tem propriedades bactericidas (de eliminar bactérias) ou bacteriostáticas (de impedir o crescimento dessas bactérias)." Embora não tenham sido constatados efeitos bactericidas ou bacteriostáticos da pela de rã, nos testes efetuados, mesmo assim a equipe vê vantagens em seu uso. Uma delas é o interesse dos especialistas em encontrar alternativas para o tratamento de queimaduras extensas. "Como a pele é uma grande barreira do organismo contra agentes externos, no caso dos grandes queimados, por exemplo, perde-se essa barreira e há uma enorme exposição do corpo", explica a pesquisadora. Curativos biológicos, como seria o caso da pele de rã, são uma boa opção, por permitir que a pele respire, possibilitando troca de gases, o que, por si só, já ajuda a acelerar o processo de cicatrização. "Ela faria o papel dessa grande barreira, protegendo o organismo enquanto a pele se reconstituísse durante a cicatrização. Isso, por si só, já é muito bom", fala a pesquisadora.

O que a equipe também está procurando descobrir é até que ponto vai a permeabilidade dessa pele. "Se ela possibilitar o uso de medicamentos tópicos, será mais uma contribuição ao tratamento. Porque, dessa forma, se além de criar a barreira capaz de proteger o organismo, também permitir o uso de cremes e pomadas que atinjam a derme, isso será uma contribuição e tanto. Essa, aliás, é a próxima etapa de investigação do nosso trabalho", conclui Andréa.  

 

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