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Publicado em: 24/01/2003

Vestígios do Cretáceo

Ao desenvolver sua pesquisa paleontológica com coprólitos – excrementos fossilizados (copro=fezes; lito=petrificado) - o geólogo Paulo Roberto de Figueiredo Souto, do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acabou montando a maior coleção do gênero da América do Sul, com mais de 200 amostras de fezes de tartarugas, crocodilos, peixes e dinossauros do período Cretáceo, entre 135 milhões e 65 milhões de anos atrás. A coleção está no Departamento de Geologia do Instituto de Geociências da UFRJ, onde Paulo Souto defendeu tese de doutorado na sexta-feira 11 de janeiro.

O pesquisador estudou coprólitos coletados em sedimentos das bacias de São Luís (Maranhão), de Bastiões e do Araripe (Ceará), Alagoas (Alagoas) e Bauru (São Paulo e Minas Gerais), algumas das mais importantes jazidas fósseis do país.  Esta pesquisa, apoiada pela Faperj, tem ajudado a descobrir o comportamento alimentar e ecológico dos animais e com isso permitir na reconstituição ecologia terrestre desses ambientes pré-históricos.

 

Nas massas fecais petrificadas, Paulo Souto pôde avaliar, macroscopicamente, a preservação do muco fecal e das cavidades gasosas e os resíduos alimentares, como ossos, escamas e invertebrados (carapaças), que testemunham o comportamento alimentar dos animais no passado e permitem supor os níveis de interações alimentares que existiam entre os organismos.

 

Gregários e canibais

 

O estudo atestou a existência de áreas de nidificação (formação de ninhos) de dinossauros saurópodes e crocodilianos na Bacia Bauru, confirmando que, já nesta época, os animais apresentavam comportamento gregário durante o desenvolvimento dos ovos. Também foi evidenciado o canibalismo entre indivíduos de grupos familiares diferentes de crocodilos tal como observado nos dias atuais, pois foram encontrados restos de crocodilos jovens em fezes de crocodilos.

 

Ainda na Bacia Bauru, Paulo Souto descobriu que os titanossauros, grandes herbívoros de pescoço longo, se reproduziam sazonalmente no mesmo lugar, como fazem até hoje as tartarugas marinhas. A mistura de cascas de ovos e fezes é uma evidência forte de que eles tinham áreas específicas de nidificação.

E o sertão era mesmo mar

Com auxílio de microscópico, o pesquisador identificou restos vegetais e de micro-invertebrados (ostracodes, radiolários e nematódeos) nas fezes petrificadas. A presença de radiolários (micróbios aquáticos que possuem uma carapaça de sílica) em coprólitos coletados na bacia do Araripe pôs fim a um debate antigo: o sertão era mesmo mar.

Na bacia São Luís, dinossauros carnívoros eram pescadores. As fezes de espinossaurídeos (parentes distantes do tiranossauro, com cerca de 15 metros, focinho comprido) apresentam farta quantidade de escamas de peixes extintos.

Estudo comparado com fezes atuais revelou similaridades

Paulo Souto realizou estudo comparado com as fezes produzidas por animais selvagens mantidos em cativeiro do zoológico da cidade do Rio de Janeiro, como jacarés, onças, elefantes e avestruzes. Foi revelada uma forte similaridade dos coprólitos com a composição química dos excrementos produzidos por animais atuais. Animais carnívoros pré-históricos e atuais apresentam maior quantidade de fósforo nas fezes, herbívoros, mais cálcio e silício, e onívoros revelam fósforo, cálcio e silício.

Coprólitos ajudam a compreender evolução da vida na Terra

Há muito tempo a paleontologia utiliza dois procedimentos básicos para compreender aspectos paleoecológicos e paleobiológicos da evolução da vida na Terra: a análise dos grãos de polens e a reconstrução de fósseis de paleovertebrados. Entretanto, trabalhos na linha da pesquisa de Paulo Souto têm demonstrado os coprólitos como um terceiro componente para auxiliar nesse entendimento.

 

   

 

Segundo o pesquisador, as chances de conservação de um coprólito são tão boas quanto as da conservação do esqueleto, já que, ao longo da vida, um animal sempre produz muito mais fezes do que a sua massa corporal. É comum encontrar fezes petrificadas em escavações, mas algumas se assemelham a simples pedras.

 

Os coprólitos estudados são cilíndricos, ovóides, espiralados, cônicos ou de forma esborrada, nunca descrita em literatura. Supõe-se que os excrementos com esta forma, associados a dinossauros saurópodes, sejam resultado da ingestão de alimento com água e sedimento.

A pesquisa estabeleceu parâmetros metodológicos e descritivos que permitem aos paleontólogos no futuro diferenciar os coprólitos de outras estruturas fósseis e identificar com mais facilidade que animais os produziram e em que ambiente e circunstâncias.

 

O padrão de ranhuras na superfície externa do excremento, por exemplo, revela se ele foi liberado ao ar livre ou dentro da água. Também é possível identificar pelas marcas nas fezes o esfíncter de cada animal.

 

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