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Publicado em: 01/03/2012

Álcool e adolescentes: um desafio a ser enfrentado

Vilma Homero



               Conselho Municipal sobre Drogas de Valinhos
    
     Socialmente aceito, o álcool tem sido cada vez mais
        consumido entre jovens na faixa de 10 a 12 anos

O álcool é a droga mais consumida no mundo inteiro, com cerca de 2 bilhões de usuários, como informam os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). É também a de mais fácil acesso e, por isso mesmo, a de uso mais frequente entre os jovens, que, no Brasil, vêm começando cada vez mais cedo suas primeiras experiências – entre 10 e 12 anos. Dados que têm preocupado particularmente os profissionais do Grupo de Estudos e Pesquisas em Álcool e Outras Drogas (Gepad), grupo de pesquisa liderado pela professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Gertrudes Teixeira Lopes.

Como modo de informar crianças e adolescentes sobre esses riscos, o grupo criou uma proposta pedagógica, com abordagem fundamentada no diálogo e ênfase nos conceitos de promoção de saúde e prevenção de agravos. O foco são os alunos do segundo segmento do ensino fundamental de escolas da rede pública. Para isso, o Gepad traçou uma pesquisa qualitativa, inicialmente focada nos estudantes do 6 ano do ensino fundamental da Escola Orsina da Fonseca, na Tijuca, e do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAP/Uerj), no Rio Comprido. "São crianças de 10 a 13 anos. É exatamente a faixa etária que queremos atingir. Ou seja, tentar intervir com informação no momento em que eles estão vulneráveis às primeiras experiências com a bebida", fala Gertrudes, coordenadora do projeto Álcool no espaço da escola fundamental e o enfermeiro: desafios na promoção da saúde e prevenção de riscos, pós-doutorada nessa área. O projeto contou com recursos do edital de Apoio a Grupos Emergentes, programa desenvolvido pela FAPERJ em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Segundo a pesquisadora, o uso do álcool, em geral, começa em festas e comemorações em casa, com a tolerância dos pais, que não se importam quando a criança experimenta uma bebida alcoólica. "Mesmo que, segundo a literatura, o uso comece entre os 10 e 12 anos, isso não significa que muitas crianças não tenham experimentado o álcool antes", afirma. Para ela, é preocupante que já se observem casos de crianças de até 10 anos, dependentes da bebida. "Fatores genéticos, ambientais e comportamentais influenciam na continuidade do uso. E como há certa tolerância social com a bebida, que é uma droga lícita, os jovens têm livre acesso, o que estimula o consumo e torna mais fácil atingir a dependência."

Ela frisa que, no Brasil, embora o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíba o uso, a compra e o transporte de qualquer tipo de droga, incluindo aí o álcool, para menores de 18 anos, isso nem sempre é respeitado. "Essa proibição é importante porque na adolescência o cérebro ainda está em formação. Nessa faixa etária, o álcool afeta principalmente a área da cognição, do aprendizado. E também leva a um aumento da agressividade", explica. Segundo a pesquisadora, durante as atividades preparadas para discutir na escola o uso do álcool e seus efeitos, os relatos de estudantes dão conta de que muitas vezes eles saem de festas, de bailes funk, e vão direto para as salas de aula. "Os jovens têm bebido cada vez mais cedo e em maior quantidade. Nessas condições, eles geralmente se envolvem em brigas com colegas, agridem professores. Sem falar no prejuízo ao próprio aprendizado. Mais um motivo para acreditarmos que a prevenção é a grande arma", conta.

Crianças e adolescentes são um grupo etário particularmente vulnerável e influenciável. "Um conjunto de fatores estimula a bebida. Um deles é que, como muitos jovens fazem uso do álcool, não beber fica sendo considerado careta, numa fase em que é importante para eles o sentimento de fazer parte do grupo, de pertencer. A isso se some que a bebida tem um forte componente de sociabilidade. As pessoas se convidam para ‘tomar um chope’, saem para beber", explica.

 Divulgação

 
    Estudantes conversam, recortam fotos e montam painel mostrando os malefícios do álcool e do fumo

Nas dinâmicas lúdicas, em que a exibição de filmes e DVDs, a apresentação de peças de teatro e a construção de produções artísticas pelos estudantes são vistas como formas amenas de se falar de coisa séria, a participação efetiva dos alunos e o interesse demonstrado nas discussões mostrou aos profissionais do Gepad que estavam no caminho certo. "Procuramos manter um diálogo aberto, buscando passar informação sem julgamento. Até porque beber é prazeroso, um prazer de que muitos não querem abrir mão. Além disso, nosso trabalho não é terapêutico. Conversamos, passamos informações e trocamos experiências para mostrar os efeitos nocivos que a droga produz, procurando lidar com o tema, sem censura nem apologia. A ideia é conhecer e fazer uso com responsabilidade" afirma. Segundo Gertrudes, o interessante foi constatar: "Se nós temos conhecimento teórico, da prática, eles sabiam mais do que nós."

Outra atividade foi o painel de fotos, elaborado com fotos feitas em sala de aula e imagens tiradas de revistas, com que os estudantes iam construindo histórias, contando e interpretando o que achavam que estava acontecendo. "Conseguimos envolver muitos alunos. Aliás, toda essa experiência nos permitiu reunir tamanha riqueza de material, que decidimos passar tudo para o livro Prevenção de Drogas na Adolescência: o uso de atividades lúdicas como abordagem pedagógica. Nele, descrevemos, em detalhes, nossas estratégias pedagógicas", relata.

Ao apresentar a experiência no Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem, evento que a cada dois anos acontece em diferentes capitais do País, Gertrudes percebeu também o interesse de professores de vários estados em discutir o assunto. "Já há escolas em Mato Grosso que realizam trabalhos interessantes nessa área." No que depender dos pesquisadores, a experiência também será repetida no Rio de Janeiro. Numa parceria do Gepad com o Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam), a partir de março, o projeto será aplicado em escolas de Bonsucesso, na Zona Norte da cidade. "Tudo o que esperamos é que mais professores do ensino fundamental assumam e repliquem a experiência em suas escolas. E que, com todas essas informações, adolescentes passem a se abster do uso ou beber com responsabilidade."

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