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Publicado em: 10/02/2011

Projeto da UniRio recupera repertório desconhecido de Francisco Mignone


Débora Motta

              Acervo pessoal de Josephina Mignone
  
  Mignone: sua predileção pela flauta é revelada em
  peças inéditas que exigem habilidade do executante
 

Um dos maiores músicos eruditos brasileiros do século XX, o compositor Francisco Mignone (1897-1986) deixou um vasto legado de obras para orquestra sinfônica, ópera, coral e música de câmara. Mas esse acervo tão diversificado ainda guarda preciosidades inéditas, que vão além da sua produção para piano solo, mais conhecida pelo público. Uma das facetas pouco exploradas de Mignone é seu repertório para música de câmara que contempla extensivamente a flauta transversal. Para resgatar estas obras, o flautista Sérgio Barrenechea, professor da Universidade Federal do Estado Rio de Janeiro (UniRio), coordena um projeto de pesquisa que resultou na gravação do CD triplo A Música para Flauta de Francisco Mignone (ouça arquivos em áudio neste link). A iniciativa teve apoio da FAPERJ por meio do Edital de Apoio às Artes.

"O objetivo do projeto é resgatar obras relevantes da literatura para flauta na música de câmara de Francisco Mignone, tentando contribuir assim para a sua divulgação entre o público e músicos interessados em sua performance", resume Barrenechea. Em sua avaliação, a contribuição de Mignone ao repertório para flauta transversal merece atenção especial não apenas devido ao grande número de obras do compositor que incluem este instrumento, mas também pela maneira inventiva como a flauta é utilizada, frequentemente exigindo habilidades virtuosísticas do executante. "Entre peças originais e transcrições, Mignone compôs mais de trinta obras para música de câmara que incluem a flauta transversal", contextualiza.

Flauta em destaque

O repertório de Mignone voltado para a flauta permeia seu desenvolvimento enquanto um compositor completo, que escreveu para diversos gêneros e formações instrumentais – com destaque para obras sinfônicas e as de música de câmara para fagote, voz, piano e cordas–, mas também reflete a sua história de vida. "A predileção de Mignone pela flauta decorre principalmente do fato de seu pai, Alfério Mignone, ter sido um flautista profissional e tê-lo incentivado a tocar este instrumento na juventude", conta Barrenechea. Além de revelar a influência paterna, sua predileção pela flauta também aponta para a proximidade do compositor com a música popular brasileira. "Para se esquivar do preconceito da época contra os músicos que não se dedicavam à música erudita, Mignone assinou diversas composições populares com o pseudônimo de Chico Bororó, na época de sua juventude."

Dessa fase dedicada à música popular, quatro peças entraram no repertório da coletânea: Céo do Rio Claro, Assim Dança Nhá Cotinha, Saudades de Araraquara e Celeste. "Todas elas foram gravadas com a participação do pai de Francisco Mignone, frequentemente tocando a parte melódica principal da flauta", conta. Apesar de terem sido compostas anteriormente, todas as obras assinadas por Chico Bororó foram gravadas em discos (long-players) de 78 rotações pelo selo Parlophon, que registrou nesse período 19 composições de Mignone, muitas com a Orquestra Paulistana, dirigida e regida por seu pai, um flautista italiano que se radicou em São Paulo.

A coletânea também faz um apanhado das outras fases da produção do compositor, que foi maestro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), à época conhecida como Universidade do Brasil. "Procuramos apresentar um repertório representativo, que destacasse todas as fases da produção musical ao longo da sua vida", diz Barrenechea.

 Reprodução
 
Capa do CD triplo: repertório contempla todas as 
fases da produção musical do maestro Mignone
 
 
Além da popular, as outras vertentes da obra de Mignone presentes nas faixas do CD triplo são: o eurocentrismo e neoclassicismo sem intenção nacionalista explícita; o nacionalismo (influenciado por compositores como Villa-Lobos, que beberam na fonte das raízes populares brasileiras); o dodecafonismo e procedimentos seriais (música atonal, influenciada pelo modernismo); e a fase da maturidade do compositor, em que ele fez uma síntese de duas ou mais características das suas fases anteriores.

A escolha do repertório para a coletânea deu-se após um longo processo de pesquisa, que incluiu busca de partituras manuscritas em instituições como a Biblioteca Nacional, que guarda parte do acervo particular de Mignone doado pela viúva do compositor, Maria Josephina, além de visitas a músicos eruditos que foram contemporâneos do maestro. "Entrevistando os músicos que conviveram e tocaram com Mignone, conseguimos alguns manuscritos com Odette Ernest Dias, que foi professora de flauta da UnB, com Celso Woltzenlogel, que foi professor de flauta da UFRJ, e com Noel Devos, que foi professor de fagote da UFRJ e da UniRio", detalha.

Para Barrenechea, a causa do desconhecimento dessa parte do acervo de Mignone até hoje é a ausência de registros sonoros. "A maior parte do repertório da coletânea está sendo gravado pela primeira vez", destaca o flautista. "Essas obras não foram editadas, por isso caíram no esquecimento. A maioria das partituras estava apenas no manuscrito de Mignone. Só uma minoria havia sido publicada e comercializada", relata. Mas o material ainda está longe de ser esgotado. "Ainda ficou muita coisa de fora, dá para gravar mais três CDs", diz. Por isso, a ideia do professor da UniRio é dar continuidade ao projeto. "Essa foi só uma primeira produção em áudio. Depois, vamos tentar publicar as partituras registradas no CD triplo e ainda gravar outra coletânea", adianta.

O projeto contou com a participação de um grupo de músicos de notória excelência artística, além de estudantes da graduação e da pós-graduação em Música e de pesquisadores – todos ligados, de alguma forma, ao Instituto Villa-Lobos, da UniRio. Entre os músicos participantes estão: os professores Sérgio Barrenechea, flauta, flauta em sol e piccolo; Lúcia Barrenechea, piano; Hugo Pilger, violoncelo; Luís Carlos Justi, oboé; Fernando Silveira, clarineta; e Elione Medeiros, fagote; os pós-graduandos José Benedito Viana Gomes, flauta, e Nilton Antonio Moreira Jr., flauta; o ex-aluno Carlos Prazeres, oboé; e o bacharelando Felipe Braz da Silva, flauta.

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