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Publicado em: 09/09/2009

Museu da Patologia da Fiocruz ganha versão eletrônica

Rosilene Ricardo

 Fotos: Gutemberg Brito/ IOC

    
      Na Coleção do Departamento de Patologia, cada
      órgão corresponde a um importante caso médico
Em 1903, o sanitarista Oswaldo Cruz pediu aos patologistas do então Instituto Soroterápico Federal que guardassem ali peças anatômicas e amostras de patologia para estudos. Foi o ponto de partida para o que se transformou no Museu da Patologia, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). O acervo, de valor inestimável, reúne órgãos humanos de importantes casos médicos, coletados por grandes nomes da ciência nacional, e quase 500 mil amostras de fígado, recolhidas durante campanhas para controle da febre amarela no país. É a maior coleção mundial sobre o assunto. "A restauração das coleções que compõem o museu resgata o perfil empreendedor de Oswaldo Cruz, que afirmava que, para fazer pesquisa no país, a instituição precisava contar com um acervo biológico próprio. Ele acreditava que não era possível estudar febre amarela no Brasil, um de seus objetos de pesquisa, com peças de outros países", exemplifica a microbiologista Barbara Dias, uma das idealizadoras do projeto.

Disponibilizado ao público em sua versão virtual, graças ao apoio da FAPERJ através do edital Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, o museu é formado hoje por três coleções científicas, instaladas nas dependências do Instituto Oswaldo Cruz: a Coleção da Seção de Anatomia Patológica, a de Febre Amarela e a Coleção do Departamento de Patologia. "Com apoio do BNDES, conseguimos realizar a digitalização de 90.000 lâminas da Coleção de Febre Amarela. Estas imagens estão sendo organizadas em um banco de dados que futuramente apresentará as informações de cada um dos casos humanos que compõem o acervo. Futuramente, os usuários terão acesso a essas informações a partir do site", explica o coordenador do projeto e chefe do Laboratório de Patologia do IOC, Marcelo Pelajo Machado.

No site – acessível no endereço museudapatologia.ioc.fiocruz.br –, um dos espaços é voltado diretamente a professores de ensino fundamental e médio, com conteúdo pedagógico e atividades on-line para auxiliar em sala de aula. Tem sido um dos pontos de maior acesso do site que, desde o lançamento, em junho, já recebeu mais de dois mil visitantes. Entre as opções de navegação oferecidas, pode-se interagir com um quiz de perguntas e respostas sobre as coleções ou visitar virtualmente o salão que reúne o acervo. Segundo Marcelo, a próxima meta é lançar versões do site em inglês e em espanhol para facilitar o contato com o público estrangeiro. "Já recebemos contato e visitas virtuais de pesquisadores dos Estados Unidos, Angola, Argentina e de vários outros países. Até o fim do ano, a nova versão já deve estar pronta", diz.

Como conta Barbara Dias, o acervo propriamente dito teve sua restauração enfatizada há quatro anos. "Parte das lâminas coletadas à época de Oswaldo Cruz ainda estão sendo recuperadas. Patologistas renomados, como Gaspar Viana, Carlos Chagas, Emmanuel Dias e Margarinos Torres depositaram materiais de autópsias e de suas pesquisas no museu. Cada peça dessa coleção corresponde a um caso estudado para investigação de mortes em decorrência de doenças como Chagas e malária. Quando o acervo ainda era exposto no Castelo da Fundação, Oswaldo Cruz chegou a receber a visita do físico Albert Einsten", explica.

       
    O funcionário José Carvalho Filho
    trabalha na restauração do acervo 
 
A coleção de Anatomia Patológica é composta por 854 peças humanas em formol, já recuperadas, que se encontram preservadas em grandes recipientes de vidro. É considerada a mais expositiva. Ela foi acrescida de várias peças da Coleção do Departamento de Patologia, que é composta por materiais de animais, para estudos, nas mais diversas condições. São tecidos de camundongos, de galinhas e de outros animais normais ou infectados por tripanosomos ou esquistossomos, por exemplo. Esse material ainda hoje é utilizado pelos pesquisadores para consulta e pesquisa.

A Coleção de Febre Amarela reúne 498 mil fragmentos de fígado (coletados por viscerotomia) de casos suspeitos da doença, coletados entre as décadas de 1930 e 1970, em todo o território nacional e países vizinhos. Esse material, fruto de convênio entre o governo brasileiro e a Fundação Rockefeller, era reunido e processado no então Laboratório de Histopatologia da Febre Amarela, instalado no Pavilhão Rockefeller, construído a partir do convênio. "Cada fragmento de fígado, fixado em formalina, era clivado, emblocado em parafina e gerava lâminas histológicas coradas para diagnóstico", diz Barbara. Desta forma, começou a ser formado o acervo da Coleção de Febre Amarela, que atualmente é composto por cerca de 1 milhão e 500 mil peças. "Hoje, o trabalho está concentrado na recuperação das lâminas, que já totalizam cerca de 20% do total do acervo", explica.

Como seria de se esperar, as peças sofreram a ação do tempo, uma vez que muitas têm cerca de 100 anos. Para recuperá-las, foi feita uma limpeza técnica dos vidros e troca do fixador das peças da Coleção da Seção de Anatomia Patológica, e das viscerotomias da Coleção de Febre Amarela. "Agora, já com 50% das amostras de fígado restauradas, estamos resgatando as lâminas com cortes histológicos da mesma coleção", fala Barbara.

Segundo Barbara Dias, cada uma das coleções mantém sua especificidade, mas todas guardam aspectos importantes da memória do que foi realizado pela Patologia do instituto ao longo dos anos. "Além de resgatar a memória, o trabalho de recuperação permite também que o material seja estudado com as novas tecnologias de que dispomos hoje", explica. E continua: "As lâminas da Coleção de Febre Amarela, por exemplo, ainda estão bem preservadas. Embora o corte do material não tenha a mesma precisão e qualidade de que dispomos atualmente, sabemos que podemos fazer e refazer laudos. Ainda se pode obter um diagnóstico preciso", explica.

Ela diz também que com os microscópios fabricados até a década de 1960 era possível diagnosticar a maioria dos casos de febre amarela e malária, comuns na época, mas que o avanço dessas tecnologias desde então aumenta a precisão. "Hoje, além da tecnologia, os métodos para diagnóstico avançaram e houve a criação de novas técnicas, como aquelas específicas para ver moléculas", conta.

Mas as peças que hoje foram, e ainda estão sendo, restauradas são apenas uma parte do acervo original. Pelo que contam os antigos funcionários, como o auxiliar de necrópsia Nelson Araújo Silva, e como está registrado nas páginas do livro Massacre de Manguinhos, de Herman Lent, durante a ditadura militar, entre 1960 e 1970, boa parte do material foi destruída e jogada no lixo. "Perdeu-se parte da documentação e um grande número de peças históricas. Tudo o que foi salvo foi graças ao esforço dos pesquisadores da época, que esconderam as amostras em casa e em outros locais da fundação. Só para se ter uma idéia, antes havia cerca de 40 armários com uma média de 100 amostras cada. Restaram apenas dois armários", conta Barbara Dias. E continua: "O esforço está valendo a pena. Hoje, o instituto guarda uma parte importante da história da medicina no país. Com certeza, é uma contribuição inestimável para a ciência fluminense e brasileira."

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