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Publicado em: 23/07/2009

Violência: presente e passado da história

Vilma Homero

 
  
 
Ao olhar para passado, costumamos imaginar que estamos nos afastando dos tempos da "barbárie pura e simples" para alcançar uma almejada "civilização", calcada sobre relações livres, iguais e fraternas, típicas do homem culto. Um olhar sobre a história, no entanto, põe em xeque esta visão utópica. Organizado pelos historiadores Regina Bustamante e José Francisco de Moura, o livro Violência na História, publicado pela Mauad Editora com apoio da FAPERJ, reúne diversos ensaios que mostram, ao longo do tempo, diferentes aspectos da violência, propondo uma reflexão mais demorada sobre o tema.

O livro é fruto de um ciclo de palestras organizado pelo professor André Chevitarese em 2001, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na ocasião, profissionais de diversas formações acadêmicas, com estudos focados em diversas temporalidades históricas, apresentaram suas análises. Estiveram presentes historiadores, como Ciro Flamarion Cardoso, Norma Mendes e Francisco Carlos Teixeira da Silva, mas também cientistas sociais, como Cristina Buarque de Holanda, o jurista Nilo Batista, o filósofo Gabriele Cornelli, o teólogo Paulo Nogueira e vários outros pesquisadores interessados em refletir sobre questões como essas. "Isso nos permitiu traçar uma análise sob múltiplos enfoques, perceber como a violência é um fenômeno multifacetado, com diferentes significados ao longo da história e das diferentes sociedades. Desta forma, esperamos ter um olhar menos autocentrado, procurando compreender realidades diferentes para melhor entender o presente", explica a professora Regina Bustamante.

Nos ensaios reunidos no livro, podemos vislumbrar como, desde a antiguidade e ao longo da história humana, a violência se insere, sob diversos vieses, nas relações de poder, seja entre Estado e cidadãos, entre livres e escravos, entre homens e mulheres, ou entre diferentes religiões. "Durante a Idade Média, por exemplo, vemos como a violência se manifesta na religiosidade, durante o movimento das Cruzadas. Ou, hoje, no caso dos movimentos sociais, como ela acontece em relação aos excluídos das favelas. O sentido é amplo. A desigualdade social, por exemplo, é um tipo de violência; a expropriação do patrimônio cultural, que significa não permitir que a memória cultural de determinado grupo se manifeste, também", prossegue a organizadora.

Há também a questão da identidade, que se constroi na diferença em relação ao "outro", negativando-o. "Isso pode ser exemplificado na era Bush. Enquanto os Estados Unidos procuram ser vistos como os defensores da democracia, o olhar sobre o 'outro', o inimigo, se torna negativo, qualificando-o como Eixo do Mal, no caso de Irã, Iraque e Coréia do Norte. O texto do Francisco Carlos Teixeira da Silva mostra como se elabora um discurso político para justificar o embate político e as guerras no Oriente Médio", aponta Regina.

A própria palavra "violência", que etimologicamente deriva do latim vis, com significado de força, virilidade, pode ser positiva em termos de transformação social, no sentido de uma violência revolucionária, usada como forma de se tentar transformar uma sociedade em determinado momento. No extremo oposto desse embate estão as formas de violência consideradas institucionais, que procuram manter o status quo, como expõem os trabalhos de Anita Prestes e de Cyro Garcia.

Essas variadas abordagens vão aparecendo ao longo do livro. No Egito dos faraós, como nos conta Ciro Flamarion Cardoso, a violência do Estado estava presente de várias formas. Num reinado de obras monumentais, a existência de cidades operárias, descobertas por escavações arqueológicas, revela verdadeiros povoados-prisões, sob constante vigilância, habitado por artífices e operários especializados. Mesmo aqueles que eram proprietários de terras, escravos e ouro, eram obrigados a viver ali, e, a qualquer infração, também estavam sujeitos a castigos físicos.

Na Roma antiga, as penas, aplicadas após julgamento, ganhavam um sentido religioso. Despido de sua humanidade, o réu era declarado homo sacer. Ou seja, sua vida passava a ser consagrada aos deuses. Segundo a pesquisadora Norma Mendes, "havia o firme propósito de fazer da morte dos condenados um espetáculo de caráter exemplar, revestido de sentido religioso e de dominação, cuja função era o reforço, manutenção e ratificação das relações de poder". Este espetáculo assumia diversas formas: decapitação, enforcamento, crucificação, afogamento, morte pelo fogo ou em festas populares, em que se incluíam o circo de feras ou os jogos de gladiadores.

Mas, como nos diz Norma Mendes, a imagem de que a plebe romana passava a maior parte do ano no Coliseu, olhando homens lutando até a morte ou sendo mortos por feras selvagens é uma distorção. "Simbolicamente, a arena dividia o que era romano do que não era. (...) era onde a civilização confrontava a natureza, representada pelas feras; em que a justiça social confrontava a má ação com os criminosos que ali eram executados; e onde o Império Romano confrontava seus inimigos, os prisioneiros capturados em guerra." Por outro lado, os gladiadores tanto eram símbolos da disciplina, do treinamento e da bravura, modelo para os soldados romanos e para os romanos honrados.

O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva é um dos que traz a discussão para o presente, analisando as transformações políticas do último século. "Desde Voltaire até Kant e Hegel, acreditava-se no contínuo aperfeiçoamento da condição humana como uma marcha inexorável em direção à razão. (...) O Holocausto, perpetrado em um dos países mais avançados e cultos à época, deixou claro que a luta pela dignidade humana é um esforço contínuo e, pior de tudo, lento. (...) E, sobretudo, mais de 50 anos depois da II Guerra Mundial, a ocorrência de outros genocídios – Ruanda, Iugoslávia, Camboja etc. – leva a refletir sobre a convivência entre os homens nesse começo do século XXI."

O historiador prossegue: "De forma paradoxal, a globalização, conforme se aprofunda e pluga os homens a escalas planetárias, é fortemente acompanhada pelo localismo e o particularismo religioso, étnico ou cultural, promovendo ódios e incompreensões crescentes. Na Bósnia ou em Kosovo, na Faixa de Gaza ou na Irlanda do Norte, a capacidade de entendimento chegou a seu mais baixo nível de tolerância, e transpor uma linha, imaginária ou não, entre bairros pode representar a morte."

Como nem tudo se limita às questões políticas e às guerras, o livro ainda analisa as formas que a violência assume nas relações de gênero, na religião, na cultura e aborda também a questão dos direitos humanos, vista sob a perspectiva de diferentes sistemas culturais.

Regina Bustamante é professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e participa de três grupos de pesquisa: Laboratório de História Antiga, Laboratório de Estudos sobre o Império Romano e o Laboratório de História do Esporte e do Lazer. José Francisco de Moura é doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de vários artigos acadêmicos sobre História Grega e do livro Imagens de Esparta.

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