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Publicado em: 25/06/2009

Alunos do pré-escolar criam e atuam em vídeos educativos

Vinicius Zepeda

Fotos: Divulgação/EEEFR 

           
      Cena do vídeo "O aniversário de Pedrinho", considerado
      o roteiro mais bem elaborado entre os 20 desenvolvidos

Escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) em 1943 e lido por milhares de crianças, adolescentes e adultos, o livro O Pequeno Príncipe fala sobre a amizade sincera de um piloto de avião e uma criança. Em linhas gerais, ouvindo as histórias narradas pela criança, o adulto aprende valores de amizade, amor, companheirismo e humanidade, que julgava saber simplesmente pelo fato de ser “gente grande”. Passando da ficção para a vida real, as crianças continuam não apenas aprendendo, mas também ensinando bastante aos adultos. Um exemplo disso são as 110 crianças, entre quatro e cinco anos de idade, da Escola Estadual de Ensino Fundamental República (EEEFR), que acabam de desenvolver um projeto educativo que, segundo seus realizadores, é inédito no estado: a elaboração de roteiros, escolha de personagens e atuação na gravação de vídeos infantis inteiramente concebidos e elaborados por elas próprias.

O "Projeto TV Criança – professores e crianças, sujeitos de direitos", desenvolvido em 2008 com apoio do edital Apoio à Melhoria do Ensino nas Escolas Públicas do Estado do RJ, tem a coordenação da professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Guaracira Gouvêa de Sousa, e a participação das professoras da EEEFR Luciene de Sousa e Maristela Porto, contempladas com APQ 1 (Auxílio Básico à Pesquisa) da FAPERJ, além da colaboração de todo o corpo docente, pais e alunos da escola. Ao todo, foram produzidos 20 programas infantis, com uma média de 8 a 20 minutos de duração, editados e gravados em DVDs, e distribuídos ao final do ano para todos os pais. Segundo Luciene e Maristela, o material se transformou em um ‘portifólio vivo’ das atividades escolares. "O mais gratificante do trabalho é podermos, ao final da edição, descobrirmos que os vídeos são muito mais que apenas um presente destinado a pais e mães ‘corujas’. Eles são histórias com lógica, começo, meio e fim, de qualidade, elaboradas, produzidas e protagonizadas por crianças de apenas quatro e cinco anos de idade”, explica Luciene. “O resultado final foi de tão boa qualidade que alguns trabalhos nossos foram aceitos e selecionados para participar de um festival de vídeos produzidos por crianças mais velhas, acima de sete anos, do colégio particular Oga Mitá”, acrescenta Maristela.

A coordenadora Guaracira destaca que as narrativas criadas foram de vários tipos. Algumas reproduziam histórias já conhecidas, como a do programa humorístico Chaves. Outras apresentaram narrativas próprias, como Família Feliz, que mostra, numa casinha de brinquedos com bonecos de palitos feitos pelos próprios alunos, o cotidiano de uma família  ideal que mora na Barra da Tijuca e é composta por pai, mãe, filho, avô, avó, empregada e uma tia rica que é dona do MacDonald’s, mas trabalha para ocupar o tempo e se sentir útil. E todos vivem muito felizes. Há ainda narrativas próprias, desenvolvidas com personagens já conhecidos, como “Aniversário do Pedrinho” e “Cantando com Kelly Key”. “Neste último, consideramos a proposta inédita e com formato original. Duas meninas da turma se revezavam no papel de cantora/apresentadora, enquanto os meninos, fantasiados de super-heróis, cantavam e dançavam as músicas infantis que escolhiam”, complementa a coordenadora.

“A narrativa Família Feliz foi elaborada por uma turma que, entre seus alunos, tinha um menino portador de necessidades especiais, criado pela tia. Apesar das dificuldades, ele é uma espécie de líder entre seus colegas. No vídeo, podemos observar que, seja pela liderança que exerce ou mesmo como demonstração de amizade, seus colegas resolvem incluir mais um personagem: sua "tia-mãe" e ainda a caracterizarem como rica. É uma forma de fazer com que o menino não se sinta excluído da história. No final do processo, pudemos observar naquele aluno uma melhora do desempenho escolar, particularmente na dicção, comprometida devido à sua deficiência. Hoje, ele já está cursando a classe de alfabetização, totalmente integrado e socializado”, exemplifica Maristela. Ela acrescenta ainda que o roteiro, a elaboração e os objetivos alcançados por todo o projeto ratificam as propostas apresentadas na carta produzida durante a 4 Cúpula de Mídia para a Criança e o Adolescente, em 2004, no Rio. No documento, crianças e adolescentes do Brasil e de outros países falam sobre o que gostariam de ver discutido no dia-a-dia e na mídia e fazem algumas propostas: criação de espaços na escola em que os nos tivessem contato prático com determinada mídia, locais de produção e circulação de programas realizados por crianças, e ainda que fosse incluída uma atenção às crianças e adolescentes portadores de necessidades especiais.

Crianças passeiam livremente entre o mundo real e o da fantasia

A professora Luciene de Sousa chama a atenção para o vídeo “O Aniversário de Pedrinho”, considerado o roteiro mais bem elaborado de todos os vinte programas do DVD. Ele conta uma história passada no Sítio do Pica-Pau Amarelo, em que personagens de outras histórias como “o incrível Hulk” e o “Sportacus" (vilão do Lazy Town, desenho animado exibido em canal de TV por assinatura) também participam. A Cuca não foi convidada, mas aparece de surpresa, lança um feitiço no bolo e foge. Quando todos cantam parabéns, o bolo explode. O Sportacus, transformado em herói na história criada pelas crianças, captura a Cuca e a faz pedir desculpas. Ela é perdoada, se arrepende e termina se divertindo na festa com os novos amigos. “Ao interpretar a criação deste vídeo, podemos perceber aspectos do que a educadora Solange Jobim e Souza definiu como ‘reelaboração criativa’. Ou seja, as crianças não fazem somente copiar o que consomem da mídia, mas modificam e subvertem os modelos da TV, criando programas que nunca existiram e misturando espaço-tempo e personagens de histórias bem diferentes”, explica Luciene.

           
    Para Guaracira de Sousa, a proposta de "Cantando com    
   Kelly Key" pode ser considerada inédita e inovadora   

Outro tipo de vídeo foi desenvolvido em junho, como uma espécie de oficina de criação, com uma hora de duração para cada turma. A idéia era ver se, naquele espaço de tempo, as crianças teriam capacidade de se organizar em grupo e construir uma narrativa coletiva. A professora Maristela Porto toma como exemplo a atividade produzida por uma das turmas. O trabalho foi dividido em três momentos. No primeiro, explicava-se às crianças que elas teriam liberdade para construir a história e dizer como queriam que fosse filmada. Elas não apenas demonstraram compreender a atividade, como foram capazes de mostrar o que gostariam de filmar. Na segunda parte, elas escolheram a sala de jogos como o local de filmagens e decidiram usar fantasias. Os meninos se fantasiaram de super-heróis e a única menina presente no dia da atividade usou um vestido de princesa. No terceiro momento, passaram a criar uma história em que os super-heróis salvavam a princesa, ao mesmo tempo em que escolhiam alguns brinquedos para ilustrar a narrativa.

Os meninos escolheram carrinhos e livros, a menina preferiu uma cozinha em miniatura. Depois, eles se dividiram em pequenos grupos e criaram outras histórias. “Um menino vestido de Batman, em vez de salvar a princesa, resolveu brincar de fazer comida e lavar a louça. Outros dois garotos que brincavam de super-heróis começaram a fingir uma briga e, no meio da disputa, o Super-Homem disse ao Batman que eles não podiam brigar, pois heróis eram amigos. Na única intervenção feita pela menina da turma, no momento em que os meninos começaram a se bater, foi dizer que eles podiam se machucar de verdade e que a história ali era de mentirinha”, lembra Maristela. “Os super-heróis pararam de brigar. E como ‘a vida imita o vídeo’, a intervenção espontânea da menina alertando que tudo era fantasia pode ser interpretada como prova de que as crianças transitam muito bem entre o mundo real e o da fantasia”, acrescenta Guaracira.

Ela ainda chama a atenção para as observações feitas pelos professores e pesquisadores envolvidos na pesquisa sobre o comportamento, o conhecimento e a interpretação das crianças em relação aos programas exibidos na TV. “Durante a construção da narrativa dos 20 programas – em que filmaram, tomaram decisões, se deslocaram e se organizaram –, as crianças puderam elaborar diferentes aspectos, como a relação espaço-tempo, o trabalho coletivo e o individual, a disciplina, a organização, aceitar a opinião do outro mesmo quando ela foi contrária à sua”, explica Guaracira. Ela destaca também a melhora das condições de infraestrutura e reciclagem profissional dos professores da escola, que o projeto possibilitou. “Continuo eventualmente ligada ao projeto, dando o suporte necessário. Porém, saio da coordenação do TV Criança bastante satisfeita e, principalmente, ciente de que devido ao apoio do edital e das bolsas concedidas pela FAPERJ às professoras Luciene e Maristela, elas puderam transferir o conhecimento de gravação de imagens digitais e edição de vídeo aos outros professores da EEEFR. Assim, será possível a realização de futuras edições do projeto, tanto com crianças na mesma faixa etária, como também com outras mais velhas”, acrescenta.

Um centro de excelência em educação infantil ameaçado de acabar

            

      Ao centro, a imagem digital do logotipo da TV Criança junto
       as professoras
Luciene de Sousa (E) e Maristela Porto

Situada dentro da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (Faetec) de Quintino, bairro da Zona Norte do Rio, e com apenas 12 anos de existência, a Escola Estadual de Ensino Fundamental República conta com uma infraestrutura única em termos de educação, se comparada a outros colégios da rede municipal de ensino. Ali, há uma sala de computadores e outra de multimídia com equipamentos, como filmadoras digitais, projetor multimídia, câmera digital e amplificadores. O corpo docente é altamente qualificado, com todos os professores com, no mínimo, graduação em pedagogia e/ou educação, além de vários outros com cursos de pós-graduação e mestrado. Os salários também são compatíveis com a qualidade dos profissionais, que recebem o equivalente a professores universitários. “Nossa escola atende a alunos de duas comunidades carentes do bairro: os morros do Fubá e Dezoito. Ela atende também os moradores da região e de outras localidades, como São João de Meriti, Nilópolis e Baixada. Devido à grande procura, as vagas são preenchidas por sorteios anuais”, destaca Maristela Porto.

O resultado é a satisfação dos professores em trabalhar ali, alunos envolvidos e que dificilmente faltam, além do reconhecimento a nível nacional pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e pela própria Faetec. “Um projeto de produção de jogos interativos para as crianças levou nossa colega Luciana Muniz a receber o prêmio Professores do Brasil, projeto do MEC voltado a selecionar práticas pedagógicas inovadoras que contribuam para melhorar a qualidade dos ensinos Infantil e Fundamental. Em 2007, recebi o mesmo prêmio pelo projeto Figurinhas da Infância. O assunto foi noticiado inclusive pelo jornal O Dia, conta Luciene. No estado, o reconhecimento também não tem sido diferente. Em 2005, a professora Fátima Uhr e o professor Luiz Emílio receberam o Prêmio Inova, da Faetec, por um projeto de contação de histórias sobre os jogos olímpicos.

Este ano, o projeto TV Criança continua com total apoio da direção geral da escola e traz uma novidade: a elaboração e a produção de comerciais televisivos pelas crianças. Entretanto, estes projetos de sucesso podem acabar em 2010, o que vem preocupando professores, entre eles Guaracira de Sousa, da UniRio, Luciene, Maristela, alunos e funcionários da Escola Estadual de Ensino Fundamental República. “Estamos muito preocupadas com a continuidade de nossos projetos, reconhecidos e premiados em todo o Brasil e ministrados numa escola de periferia do Rio, porque ano que vem a Faetec pretende acabar com todas as turmas de Educação Infantil e posteriormente com todas as turmas de Ensino Fundamental da escola”, afirmam Luciene e Maristela. “Esperamos que possa ser encontrada uma solução para que este projeto vitorioso seja mantido e para que a escola continue a existir e a desenvolver muitos outros projetos, elevando cada vez mais a qualidade da educação oferecida em nossa rede pública”, concluem.

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