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Publicado em: 16/04/2009

Boto-cinza indica nível de poluição por mercúrio na costa fluminense e no Amapá


Débora Motta

                                                                      Fotos: Marcos C. O. Santos 

          

     Mamífero estritamente costeiro, o boto-cinza dispensa grandes migrações
     durante toda a sua vida, tornando-se bioindicador das condições ambientais 
 

 

Reza a lenda que o boto emerge das águas dos rios da Amazônia em noite de lua cheia e transforma-se em um belo rapaz, sedutor de donzelas indefesas. Longe de ser apenas um personagem que enriquece o imaginário popular brasileiro, o mamífero é um indicador natural do nível de mercúrio presente no ambiente aquático, por acumular esse metal tóxico nos seus tecidos. Essa é a tônica do projeto O boto-cinza (Sotalia guianensis) como sentinela da saúde dos ambientes costeiros: estudo das concentrações de mercúrio no estuário amazônico e costa norte do Rio de Janeiro, desenvolvido na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), como dissertação de mestrado do biólogo Jailson Fulgencio de Moura, com auxílio de uma bolsa da FAPERJ.

O pesquisador escolheu como objeto de estudo a espécie boto-cinza (Sotalia guianensis), encontrada desde Santa Catarina até a América Central e membro da família dos Delfinídeos – a mesma dos golfinhos. "O boto-cinza acumula em seu organismo mais substâncias contaminantes presentes nas águas do que outras espécies que habitam o mesmo ecossistema, como os mexilhões. Isso ocorre pelo fato dele ser um animal que vive bastante, até 30 anos, o que aumenta o tempo de exposição às substâncias tóxicas", diz Jailson.

Além disso, o boto-cinza está no topo da cadeia alimentar e ingere animais que já têm no organismo um acúmulo prévio de mercúrio e de pesticidas organoclorados. "O boto-cinza se alimenta de lulas, camarão e peixes, especialmente do peixe-espada, o Trichiurus lepturus, um predador que acumula mercúrio proveniente de outras espécies que consome. Por mais que na água os níveis de mercúrio sejam reduzidos, o metal se concentra mais nos animais do topo da cadeia trófica", explica o biólogo, que teve como orientador na Fiocruz o professor Salvatore Siciliano.

Altamente tóxico, o mercúrio também representa um risco à saúde humana. Em mulheres grávidas, o metal atravessa a placenta e pode até causar danos hepáticos e neurológicos ao feto. Jailson alerta para o perigo de se consumir peixes que estão no topo da cadeia alimentar e, consequentemente, acumulam mais mercúrio: "Nos Estados Unidos, existe uma campanha que estimula mulheres grávidas e em idade provável de gravidez a evitar o consumo de peixes como o tubarão e o atum".

Outra vantagem de utilizar o boto-cinza como alvo da pesquisa é o fato do animal viver sempre na mesma região costeira, facilitando o diagnóstico da saúde do ecossistema. "O boto-cinza habita estritamente em regiões costeiras e não vive em águas profundas, apenas em áreas de até 50 metros de profundidade. Ele não realiza grandes migrações durante sua vida, de modo que sua saúde está associada às condições do ambiente em que vive. Essas peculiaridades da espécie permitem conhecer melhor os efeitos da ação poluidora do homem no ecossistema costeiro", diz.

Intercâmbio permite comparação com nível de mercúrio de botos da Amazônia


    

 Pesquisadores do Gemm-Lagos trabalham com a análise
 de vários animais marinhos. À direita, o biólogo Jailson  
  

Com o objetivo de avaliar o grau de poluição dos ecossistemas marinhos, o biólogo observou 20 amostras de músculos de botos-cinzas que habitavam a costa marítima fluminense – de Saquarema até Barra de Itabapoana – e 27 amostras de animais provenientes do litoral do Amapá, que viviam no estuário do Rio Amazonas. "A possibilidade de comparar o nível de mercúrio encontrado nos botos-cinzas da Amazônia com o nível encontrado em animais da mesma espécie da costa fluminense surgiu a partir de um intercâmbio com uma pesquisadora do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (Gemam), que faz doutorado na Fiocruz, a Neuza Renata Emin Lima", conta.

A coleta das amostras no Rio de Janeiro foi feita a partir de carcaças de botos-cinzas recolhidas na praia pelo Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (Gemm-Lagos), do qual Jailson é subcoordenador. Já na Amazônia, o trabalho contou com a supervisão de um técnico da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), que coletou animais acidentalmente capturados por redes de pescas de embarcações da costa do Amapá. O Gemam desenvolve essa pesquisa a partir de uma parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e o Museu Goeldi, de Belém.

Após três meses de análise das amostras, realizada no laboratório da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Jailson teve uma surpresa. O nível de mercúrio encontrado nos tecidos musculares dos botos-cinzas da Amazônia foi bem menor do que o encontrado nos animais da costa fluminense. Nos mamíferos coletados no Amapá, o teor de mercúrio variou de 0,07 a 0,79 micrograma por grama (g/g) de músculo, em peso úmido, com média de 0,38 g/g. Já nos animais do Rio de Janeiro, a variação foi de 0,2 a 1,66 g/g, com média de 1,07 g/g.

"Acreditávamos que a atividade de garimpo na Amazônia tornaria o nível de mercúrio mais elevado na zona costeira marinha. No entanto, foi um dos menores níveis reportados para os mamíferos marinhos, o que indica que o metal está associado aos sedimentos marinhos, e não ao garimpo", destaca o biólogo, acrescentando que a poluição do trecho da costa fluminense estudado ocorre principalmente devido à influência do Rio Paraíba do Sul, que lança no mar dejetos industriais e agrícolas. Outra atividade que ameaça o ecossistema da região é o turismo. Morador da cidade litorânea de Cabo Frio, Jailson lembra que o município costuma receber até cinco vezes mais habitantes do que o normal durante o verão. "Questiono se a estrutura de saneamento da cidade é apropriada para receber todo esse público sem degradar o meio ambiente", pondera.

Apesar dos níveis de contaminação por mercúrio verificados no litoral de Saquarema até Barra de Itabapoana serem superiores àqueles observados na costa do Amapá, os valores encontrados na costa fluminense ainda não estão entre os piores do mundo. Níveis alarmantes já foram apresentados em alguns países da Ásia e da Europa. "Na região do Mediterrâneo e do Mar do Norte, já foram encontrados índices graves, superiores a 60 g/g", conclui Jailson.

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