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Publicado em: 12/12/2002

Encomenda antecipada

Luci Braga

Dos 2,5 milhões de partos realizados em hospitais públicos no Brasil no ano 2000, 27,56% (689 mil) foram de mães com idades entre 10 e 19 anos de idade. Ou seja, de cada dez mulheres que têm filhos atualmente, duas são adolescentes. Os dados, da última pesquisa divulgada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mostram que três vezes mais garotas com menos de 15 anos engravidam hoje do que na década de 70. O parto e suas complicações são a primeira causa de internação de adolescentes no  sistema público de saúde no país.

Por que tem crescido a gravidez na adolescência?

Para José Augusto da Silva Messias, professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM/UERJ) e Coordenador da Área Biomédica da Faperj, a gravidez não acontece mais como um acidente ou fenômeno não programado, decorrente da falta de informação. Ao contrário, ela é consentida, por diversos fatores sócio-culturais. "A gravidez na adolescência está baseada num tripé: posso-quero-devo", afirma. “É a conformação do certo com a circunstância”.

O professor Messias ressalta que a gravidez adolescente é considerada um problema muito mais por causa da falta de suporte social e políticas públicas compatíveis com as demandas das mães do que por qualquer risco biológico ou comportamental relacionado à gravidez, ao parto ou à maternidade, a não ser no caso de grávidas ainda em desenvolvimento pubertal - as com menos de 15 anos, por definição arbitrária. Sabendo-se que nos últimos cem anos a média da idade da primeira menstruação caiu de algo em torno dos 16 anos para um número próximo dos doze anos, não é nenhuma surpresa o aumento das gravidezes em adolescentes mais jovens.

Segundo a professora Stella Taquette, coordenadora do Clinisex, um programa do Núcleo de Estudos de Saúde do Adolescente (NESA) do Hospital Universitário Pedro Ernesto, não existe mais a relação da gravidez na adolescência com falta de informação. “Ao contrário, hoje em dia há bastante informação e os adolescentes têm o acesso facilitado aos diversos métodos para evitar a gravidez, apesar de que a compreensão deles a respeito de alguns métodos varia de acordo com a escolaridade e maturidade”, explica.

 

Adolescentes buscam novas famílias e melhores perspectivas de vida 

Stella Taquette observa que o papel dos familiares influencia bastante na gravidez adolescente. As jovens que vêm de famílias desestruturadas, com muita carência material e afetiva, engravidam com mais freqüência. “É como se isso fosse o único sonho de vida para elas", destaca a pesquisadora, que é professora adjunta da FCM/UERJ.

Em seu trabalho de mestrado, realizado em 1990 com adolescentes que haviam recém dado à luz no interior do estado de São Paulo, metade das entrevistadas respondeu que queria engravidar e a outra metade disse que não queria. Estas, porém, quando souberam que estavam grávidas, ficaram felizes com a notícia.

Baseada nesta pesquisa, Dra.Stella concluiu que um dos fatores que levam as adolescentes a terem este tipo de comportamento é a busca de uma nova família, quando se sentem infelizes nas suas. “De alguma maneira, por estarem grávidas, elas alcançam um certo status na comunidade em que moram”, afirma.

Outro fator é a busca de um companheiro que possua condições financeiras melhores. A professora ressalta tanto no estudo realizado em São Paulo quanto na sua experiência no Rio de Janeiro comprovou que adolescentes de classe social baixa não têm outro sonho na vida a não ser a maternidade. "Cedo elas se desiludem em relação ao futuro ao constatarem que não têm perspectiva de ascensão social. Além disso, baseiam-se na crença de que a sociedade tende a valorizar a figura da mãe e tem maior consideração pelas gestantes", diz.

Então como diminuir o índice de gravidez na adolescência? Tanto para o Dr. Messias quanto para a Dra. Stella, todo este cenário está relacionado com a falta de oportunidades e a baixa auto-estima dessas jovens. É necessário oferecer opções de vida com ações que combatam, de forma mais direta, a desigualdade social em que as meninas estão inseridas: alternativas de crescimento intelectual, capacitação profissional, oportunidade de emprego. "Existem várias pesquisas que apontam que o aumento da escolaridade diminui o índice de gravidez. Outras perspectivas aumentam a auto-estima", afirma Stella.

Grávidas param de estudar

Segundo pesquisa realizada entre 1999 e 2000 no município do Rio de Janeiro com 1.228 adolescentes de 10 a 19 anos no pós-parto imediato, os maiores riscos que as meninas enfrentam  é a interrupção dos estudos e a dependência financeira da família. O estudo, feito pela psicóloga Adriane Sabroza, e defendido como dissertação de mestrado na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), mostrou que as adolescentes muitas vezes deixam de estudar por vergonha de assumir publicamente uma vida sexual ativa ou a própria gravidez. "Em conseqüência disso, fica mais difícil conseguir emprego e a situação social piora”, explica Adriane.

Invencíveis, insuperáveis e imortais

Outro fato que se deve levar em conta é a baixa capacidade de abstração desses jovens, que será adquirida paulatinamente até a idade adulta. "Os adolescentes acham que são invencíveis, insuperáveis e imortais. Andam a 200km/h de carro ou moto e acham que não vão bater; têm relações sexuais sem o uso de preservativos e acham que nunca vão engravidar e nem ter doenças sexualmente transmissíveis", diz a Dra. Stella. É o que ela define como "pensamento mágico", expressão criada pela psicanalista argentina Arminda Aberastury, autora do livro "Adolescência Normal".

Stella destaca ainda a defasagem entra a maturidade biológica e a psicossocial: “Nesta faixa etária existe um corpo pronto para procriar, desejos, hormônios saindo pelos poros e ao mesmo tempo, maturidade insuficiente para assumir as conseqüências deste ato”. Em contrapartida, critica a mídia: “A sociedade estimula muito os jovens a iniciar precocemente a atividade sexual. Existe uma erotização exagerada na mídia que quase obriga os jovens a iniciar precocemente sua vida sexual”.

Ela cita uma propaganda de dia dos namorados que tinha o slogan: “Dê para sua namorada uma roupa fácil de tirar”. Tal estímulo também acontece em novelas, filmes e outras formas de mídia. Somando-se a isso a ebulição hormonal, a permissividade social e a falta de perspectiva de vida, a gravidez torna-se apenas uma conseqüência natural.

SUS fez 13.169 partos de meninas de até 14 anos de janeiro a julho de 2002

Segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) de 1993, foram realizados 26.505 partos em adolescentes de 10 a 14 anos, o que corresponde a 0,93% do total de partos naquele ano (2.856.255). Em 2000, a ocorrência foi de 32.489 - 1,29% do total de partos realizados (2.500.000). De janeiro a julho de 2002, o SUS já registrou 13.169 partos em adolescentes nessa faixa etária (veja a tabela).

Entre os índices gerais de crescimento do número de mães em todo o país, esse índice pode ter pouco significado em termos de peso estatístico. Porém, como fenômeno de natureza social, vem sofrendo um aumento significativo ano a ano.

Veja também:

Taxa de fecundidade de mulheres de 15 a 19 anos segundo renda familiar em salários mínimos - brasil, 1986-1991

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