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Publicado em: 04/09/2008

Omindarewá, a saga da francesa que virou mãe-de-santo na Baixada

Vinicius Zepeda 

Adriano Rosa 
      
A ialorixá francesa Omindarewá durante culto de candomblé        

De acordo com estudiosos da evolução do planeta, os primeiros ancestrais do homem nasceram no Continente Africano. De lá, por meio de migrações, eles teriam se espalhado pelo resto da Terra. A África permanece, contudo, cercada de mistérios, e o resto do mundo tem, em geral, uma percepção negativa da região, associando o continente à fome, guerra, miséria e epidemias. Já para a francesa Gisèle Cossard, ao contrário, a África sempre despertou curiosidade e, mais do que isso, exerceu um enorme fascínio. Nos anos 1960, cada vez mais interessada pela cultura do continente, ela acabou achando as respostas para o vazio que sentia até então. Devido às constantes viagens para acompanhar o trabalho do ex-marido diplomata, seu fascínio pela cultura africana só fez aumentar. A tal ponto que ela largou a "vida burguesa", se separou, virou mãe-de-santo, adotou o nome Omindarewá – Água Límpida, no dialeto nagô africano – e abriu um terreiro de candomblé na localidade de Santa Cruz da Serra, Baixada Fluminense, onde vive até hoje. A curiosa história chamou a atenção de diversos estudiosos e jornalistas ao redor do mundo, motivando vários textos e biografias sobre ela. No caso da socióloga Clarice Ehlers Peixoto, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ela acaba de editar, com o apoio da FAPERJ, um DVD contando a história da mãe-de-santo francesa

Branca como a neve, traços delicados, olhos azuis, postura elegante de quem foi esposa de diplomata, conhecedora de vários povos e culturas diferentes, e de ascendência européia. Como uma pessoa com essas características se sentia perante às negras de origem modesta da Baixada Fluminense? Durante seu processo de iniciação para se tornar mãe-de-santo, sofreu preconceitos por ser branca, européia e rica – diferentes das outras futuras mães-de-santo, negras ou mulatas, de origem mais humilde? Esta foi uma dúvida que ocupou a cabeça da socióloga Clarice Peixoto, que elaborou a pergunta no decorrer do filme. “Joãozinho da Goméia, o pai-de-santo que me iniciou no candomblé – culto de origem africana realizado ao ritmo de atabaques, cantos em idioma iorubá ou nagô e onde se cultuam divindades sagradas; os orixás – gostava muito de mim e me defendia. Para não incentivar os conflitos, na época eu procurava sempre me aproximar e assimilar cada vez mais os costumes das filhas-de-santo, que eram mais humildes e simples que eu”, recorda Gisèle.

Joãozinho da Goméia é um capítulo à parte – não contado no documentário – mas que merece ser destacado. Segundo informações de jornais e revista da época, em 1956 chamou a atenção de toda a mídia ao aparecer no baile do Teatro João Caetano, centro do Rio, com plumas na cabeça, maquiagem no rosto, maiô justinho ao corpo, sapato de salto plataforma, pernas bem torneadas e envolvidas por meia-arrastão. O pai-de-santo (babalorixá) havia então, se travestido da vedete Arlete. Na época, além de atrair a atenção da mídia por sua caracterização, fez história ao assumir publicamente sua condição de homossexual. Neste ponto, cabe destacarmos que o candomblé provavelmente é a única grande religião que aceita o homossexualismo. Porém, para os anos de 1950, e para a população em geral, assumir publicamente o homossexualismo era uma enorme transgressão. E afirmar isto, se travestir em baile de Carnaval e devido à sua condição de bailarino – o babalorixá se apresentava na Companhia de Dança Brasiliana –, criou muitos desafetos dentro da religião. Ao mesmo tempo, ganhou muitos clientes para seu terreiro, fez a iniciação de muitos pais e mães-de-santo, e foi o grande responsável pela expansão da religião no Sudeste do país a partir da década de 1950.

De esposa de diplomata francês à mãe-de-santo em Santa Cruz da Serra (RJ)

Divulgação

  
   Joãozinho da Goméia, o polêmico babalorixá homossexual
E foi no terreiro da Goméia que tudo começou. Ainda casada com o embaixador francês e morando em Camarões, os dois saem de lá um ano antes de eclodir o golpe militar no país e migram para o Brasil. Na década de 1960, já aqui, acompanha sua empregada em uma festa de candomblé no terreiro do babalorixá em Duque de Caxias, município localizado na Baixada Fluminense. Lá, durante a cerimônia, perde o controle e entra em transe. Daí em diante começa o processo que levaria Gisèle Cossard a se tornar Omindarewá. “Eu relutei muito com isso, não queria mudar minha vida. Tinha dois filhos, um marido. Mas então, ele recebeu um chamado de Paris para ficar de setembro até janeiro do outro ano na França e eu continuei no Brasil. Quando ele voltou, o babalorixá já tinha feito minha cabeça – expressão usada pelos praticantes de candomblé para falar da iniciação para ser mãe-de-santo”, conta. “Ele não entendeu nada. Aliás, ele nem queria entender, era um homem culto, embaixador muito ocupado com seu próprio mundo e suas coisas para aceitar o que estava se passando comigo. Então, voltei a Paris para poder fazer minha separação”, recorda.

Ao voltar para capital francesa, Gisèle aproveitou para terminar seus estudos na faculdade. Segundo ela, foram dez anos com enormes saudades do candomblé e do Brasil. No regresso a Paris, já iniciada por Joãozinho da Goméia, fez sua tese de doutorado na Sorbonne sobre os cânticos de candomblé no dialeto africano nagô. O estudo serviu para contribuir para a preservação da memória da religião. Porém, no que diz respeito à concepção africana do saber, a polêmica sobre estudos de candomblé e fotos até hoje chama a atenção dos estudiosos das religiões da África. “Todos os ensinamentos que dou para meus filhos e filhas-de-santo são feitos por meio da repetição, da prática. Ele não está escrito em livros, o conceito de ensinamentos dos africanos consiste em aprender na prática”, explica Omindarewá. E no caso da fotografia, muitos puristas das tradições africanas defendem o candomblé como uma experiência espiritual e individual e portanto, não-reproduzível por meio de registros.

Durante sua trajetória de ialorixá (mãe-de-santo), percorreu todos os locais da África por onde andou o célebre fotógrafo francês Pierre Verger (1902-1996), outro que também se converteria ao candomblé e assumiria o nome “Fatumbi”, renascido de Ifá, no dialeto nagô. Ela havia conhecido Verger no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador. “Na época, eu morava na Lagoa, no Rio de Janeiro, e o fotógrafo e seu filho Balbino Daniel de Paula – brasileiro também do candomblé, que também viria a ter um terrreiro, em Salvador – se alojaram lá em casa”, recorda a ialorixá. “Fazia um ano que Joãozinho da Goméia havia falecido e eu precisava ainda continuar meus estudos no candomblé. Eu teria que ir para Angola, mas Balbino abriu um terreiro na capital baiana e pediu que eu ficasse no Rio de Janeiro, que ele continuaria minha iniciação aqui no Brasil, vindo me visitar de vez em quando”, conta.

Em sua primeira temporada na África, o fascínio pelo desconhecido

Adriano Rosa 
      
Para Omindarewá, o candomblé é parte da história do Brasil

Outro aspecto destacado na história de vida da francesa é sua inquietude. Nascida no Marrocos, Gisèle foi criada desde pequena nos subúrbios de Paris. Sua infância era bastante ocupada. Sua mãe, pianista, sonhava em ver a filha no ramo das artes. “Eu fazia aulas de violoncelo e dança duas vezes por semana. Mas achava aquilo muito chato, quase que uma obrigação. Só me sentia feliz quando ia brincar de qualquer coisa com os meninos da rua”, afirma a mãe-de-santo francesa. “Acho até que minha infância foi o germe de tudo o que me aconteceu depois. Eu já tinha esse desejo ardente de evasão para uma vida não-conformista”, acrescenta. Quando ela terminou seus estudos secundários, em 1939, veio a Segunda Guerra Mundial (1939 -1945), em que seu pai ficou quase dois anos preso. “Nós participamos da resistência aos alemães na época. Meu pai e nós todos tínhamos uma confecção em que fazíamos e vendíamos tamancos com as solas furadas, onde era possível guardar os documentos”, acrescenta.

E foi na faculdade que Gisèle conheceu seu futuro marido e o homem que, indiretamente, encaminharia o destino de francesa para os terreiros de candomblé. ”Na Universidade eu participei da resistência aos alemães e conheci aquele que viria a ser meu esposo. Me casei, tive dois filhos e depois da Segunda Guerra Mundial meu marido foi nomeado embaixador na República de Camarões”, conta a francesa. “Mas nessa primeira temporada na África eu me fascinei por aquela cultura. Porém, conheci apenas o que os turistas conhecem. Catei vários objetos que somente anos depois iria descobrir o significado. Ainda assim, fui bandeirante, estudei escotismo e me sentia muito bem lá. Aquela cultura toda me fazia fugir do mundo burguês em que vivia. A África era para mim a epopéia, a aventura do mundo”, recorda.

O resto é história. Segundo depoimento dado em entrevista pela própria Omindarewá, ela hoje se sente realizada dentro da vida que escolheu, tem aproximadamente trezentos filhos-de-santo que a respeitam e tratam com carinho. “Ela conhece bastante sobre a tradição do candomblé, cata muita folha e sabe as propriedades terapêuticas delas, conhecimento típico da África”, explica uma de suas filhas-de-santo. Para a ialorixá, a história da África está ligada à história do Brasil. “O povo precisa parar de falar mal das coisas sem conhecer. Além disso, precisamos preservar nossa herança cultural, nossos costumes, culinária e tradições. E o candomblé é parte disso”, conclui.

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