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Publicado em: 24/07/2008

Babel cultural no Brasil holandês

Débora Motta

Reprodução

   

  A sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel, na cidade 
 de Recife, foi a primeira localizada nas Américas

Uma Babel cultural. Assim o historiador Ronaldo Vainfas, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF), define o cenário do Recife na época da dominação holandesa no Nordeste açucareiro (1630-1654), abordado em sua pesquisa Jerusalém Colonial – conflitos religiosos e mestiçagens culturais no Brasil holandês, contemplada pelo edital Cientistas do Nosso Estado da FAPERJ.  "A capital pernambucana era uma verdadeira Jerusalém colonial, onde reinava a utopia da reconstrução do mundo judaico na diáspora – quando o judaísmo era perseguido pelos ibéricos, que obrigaram muitos judeus a se converter em cristãos novos", conta Vainfas.

Dividido entre judeus – especialmente os sefarditas –, católicos e calvinistas, Recife ocupou papel peculiar nos tempos da Inquisição por ser a única cidade do mundo que reunia as três crenças em um ambiente de tolerância religiosa. Especialmente na administração do conde Johann Moritz of Nassau-Siegen, mais conhecido pela alcunha brasileira de Mauricio de Nassau, que governou a colônia holandesa no Nordeste de 1637 a 1644. "O objetivo do projeto é estudar o Brasil holandês pelas margens, nem tanto pelo centro dos acontecimentos já desvendados pela bibliografia clássica", observa o pesquisador, que estuda desde os anos 1980 documentos inquisitoriais. 

Naquela época, muitos judeus migravam para a Holanda calvinista, onde havia uma prática de tolerância religiosa. "Assim como Amsterdã era tida como a Jerusalém do Norte, por ser o principal refúgio europeu para os judeus portugueses, a partir do início do século XVII, Recife por tabela também assumiu esse papel. Suas duas sinagogas eram protegidas por Nassau, que percebeu a importância dos judeus para os negócios da Holanda em vários assuntos políticos e comerciais. Além de falarem português e holandês, eram muito letrados e até decifravam cartas criptografadas dos inimigos, como fez Moisés Aguilar", explica Vainfas.

E prossegue: "Quando os holandeses conquistaram Pernambuco, autorizaram a vinda desses judeus portugueses, que já eram aceitos na Holanda. Porém, eles eram quase um gueto em Amsterdã, que tinha entre 200 e 300 mil habitantes. Já o Recife abrigava 20 mil pessoas, entre elas cerca de cinco mil judeus, o que tornava sua presença mais visível na cidade. Olinda também recebeu muitos holandeses."

 Arquivo Judaico de Pernambuco 
    
 Reprodução de pintura de Zacharias Wagener, que
 destaca o mercado de escravos no Recife holandês
Instalada no Recife a partir da união de suas sinagogas, a congregação Kahal Kadosh Zur Israel foi a primeira a ser fundada em todas as Américas e tinha como rabino o português Isaac Aboab da Fonseca. "Foi um fato antes inimaginável em uma colônia portuguesa católica. Nassau contornava a pressão dos pastores calvinistas, mas a liberdade judaica era vista como um exagero por alguns católicos e protestantes, reunidos no Sínodo Calvinista do Recife, a organização das igrejas protestantes presentes na cidade, que tinha representantes de várias regiões ou províncias holandesas. Era uma espécie de controle religioso e de orientação da obra missionária", pondera Vainfas. "Os católicos, maioria da população, protestavam menos porque também eram protegidos por Nassau. A Companhia das Índias Ocidentais logo percebeu que era preciso tolerá-los para manter a dominação", acrescenta.

Nomeado governador da Nova Holanda no Brasil aos 33 anos, Nassau era um jovem de origens alemã e holandesa a serviço da poderosa Companhia das Índias Ocidentais ou WIC (das iniciais, no idioma neerlandês, de West-Indische Compagnie) na colônia portuguesa. "A presença holandesa no Brasil foi antes de tudo um negócio motivado pelo comércio do açúcar e posteriormente pelo tráfico de escravos. Não houve povoamento em si. Por isso, o Brasil não teve propriamente uma colonização holandesa, mas sim uma dominação comercial e militar", avalia o pesquisador, ressaltando que o estilo de dominação holandês era mais empresarial do que o ibérico.

Nassau, além de militar, era um humanista. Sua missão de artistas e cientistas representou um avanço cultural nunca antes visto no Brasil Colônia. "O estudo da iconografia do período colonial deve muito à missão nassauviana, só comparável à missão francesa de Dom João", destaca Vainfas. O pintor alemão Zacharias Wagener, um dos participantes da missão – ao lado de nomes como Albert Eckhout e Frans Post –, retratou a Rua dos Judeus no Recife, que depois da expulsão dos holandeses foi rebatizada de Rua do Bom Jesus. O quadro mostra o mercado de escravos na cidade, os quais a Companhia das Índias Ocidentais vendia à vista, facilitada pela tomada de Angola pela Holanda em 1641.  

Casos do Brasil holandês

Um dos tópicos pouco conhecidos do período que Ronaldo Vainfas destaca em seus estudos é a relação dos religiosos da Holanda com os indígenas. "Apesar do escasso povoamento holandês, houve ação dos missionários calvinistas junto aos índios, que expulsaram inclusive os jesuítas dos aldeamentos. O catecismo calvinista era trilíngüe, em holandês, português e tupi, e a Companhia das Índias Ocidentais apoiou os missionários porque tinha grande interesse em ter os índios como aliados", ressalta Vainfas.

 Reprodução

    
  Bíblia de Ferrara, a mais
  antiga em língua espanhola  
Outra curiosidade da época é o estranhamento entre os judeus asquenazi e os judeus portugueses sefarditas no Brasil holandês devido às diferenças culturais. Os asquenazi – que vinham da Europa centro-oriental e falavam a língua do país de origem e o iídiche (espécie de dialeto alemão) – chegavam ao país como militares da Companhia das Índias Ocidentais, que recrutava homens de várias nacionalidades. "Eles se estranhavam muito. Há, inclusive, um processo no qual a Inquisição procura saber sobre os judeus sefarditas. Para isso, foi interrogado um judeu polonês, que disse à Inquisição que nem conversava com eles porque o tratavam como um estranho", revela o professor.

A Bíblia de Ferrara, primeira versão em língua espanhola da obra cristã, é mais um exemplo interessante. Traduzida e publicada por dois cristãos novos no século XVI em Ferrara, Itália, ela se reduz ao Antigo Testamento. "Quando você pega documentos da Inquisição que questionavam aos judeus portugueses quais orações eles sabiam, a lembrança das preces surge em castelhano, porque todos os instrumentos de doutrinação mais rudimentares para essa população que não sabia hebraico eram adaptados da Bíblia de Ferrara. A cultura espanhola dos convertidos era mais antiga do que a portuguesa, daí o uso do espanhol. Só na segunda metade do século XVII surgem os textos em português", esclarece Vainfas. 

Mito da brasilidade

Após a saída de Nassau das Companhias das Índias Ocidentais, motivada por divergências políticas, houve uma crise que culminou com a Restauração Pernambucana pelos portugueses e a volta para a Holanda de muitos judeus. De acordo com a historiografia oficial do século XIX, a expulsão holandesa propiciou um momento inaugural da brasilidade, em que as três "raças" (brancos, negros – liderados por Henrique Dias – e índios – com Felipe Camarão), uniram-se para deter os batavos. Essa visão é rebatida por Vainfas: "Minha pesquisa desconstrói essa união. Não havia a categoria ‘índios’ como um todo, e sim grupos étnicos pró e contra os holandeses e portugueses".

Para apurar os dados, o professor viajou para a Holanda – onde visitou os arquivos de Haia – e para Portugal, onde visitou os acervos da Inquisição na Torre do Tombo, em Lisboa. "Existem poucos registros da dominação holandesa disponíveis no Brasil", diz Vainfas. O resultado de tanta dedicação promete ser compensado com o lançamento do livro Jerusalém colonial, em fase de elaboração.

O trabalho é um desdobramento do projeto anterior de Vainfas, Conflitos religiosos e metamorfoses culturais no Brasil holandês, também contemplado pela FAPERJ, que rendeu o livro Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela Inquisição, publicado em 2008 pela Companhia das Letras. A obra é uma biografia do jesuíta Manuel de Morais, que lutou contra os holandeses em defesa da capitania, mas passou ao calvinismo e depois regressou ao catolicismo, sendo por isto processado pela Inquisição de Lisboa.

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