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Publicado em: 03/07/2008

O luxo do lixo ao alcance dos brasileiros

Vinicius Zepeda

    Divulgação/Uerj

     
   Depósito de detritos derivados do petróleo
   presentes no solo de uma área contaminada


Descobrir formas de aproveitamento para as toneladas de lixo urbano produzidas diariamente tem movido diversos pesquisadores. Com o apoio da FAPERJ, um consórcio de especialistas do Brasil e da Suécia acaba de descobrir um uso inédito para o lixo orgânico: seu emprego na biorremediação – despoluição por meio de microorganimos, como bactérias e fungos – de solos contaminados por petróleo e derivados. “Nossos experimentos mostraram que o lixo orgânico tratado por compostagem pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) e com qualidade monitorada – ou seja, com níveis de metais dentro do que é permitido pela legislação – pode ser empregado para despoluir solos” afirma Sérgio Machado Corrêa, doutor em química e professor da Faculdade de Tecnologia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) na cidade de Resende, Sul Fluminense. Junto com sua colega Marcia Marques Gomes, doutora em engenharia química e professora da Uerj no Rio de Janeiro, ele coordena o estudo Remediação de Solos Contaminados com Petróleo e Derivados.

O estudo busca investigar a eficácia das técnicas de biorremediação e também de fitorremediação – uso de plantas para despoluição de áreas – no tratamento de solos poluídos por vazamentos de petróleo, borra oleosa, diesel, mistura de diesel com biodiesel e óleos lubrificantes usados nos solos das estradas fluminenses. “Nesse processo, tanto os microorganismos do solo isoladamente, quanto aqueles associados às raízes das plantas promovem a degradação do óleo derramado no solo. Ou seja, eles se alimentam do carbono presente no combustível pra poderem sobreviver e crescer. Desta forma, despoluem o solo. Algumas plantas também são capazes de extrair e imobilizar metais pesados que contaminam os solos” explica Marcia. “Num experimento em que 1,2% de Oil Gator – produto industrial dentre os mais utilizados internacionalmente para remediação de solo e água contaminados com óleo – e 10% de composto de lixo foram testados em reatores distintos com solos contaminados, o rejeito da Comlurb apresentou resultados superiores” prossegue.

Além da Uerj, o grupo de pesquisa inclui pesquisadores das universidades de Kalmar, de Lund e de Kristianstad – as três na Suécia -, a doutora Maria Luiza Araújo e técnicos da Pesagro-Rio (Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro) e da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). “A parceria internacional existe desde 2004. Já no final da década de 90, quando fiz o doutorado na Suécia, percebi que poderia adaptar alguns resultados das pesquisas à realidade brasileira. Na Europa, estima-se a existência de pelo menos 2 milhões de sítios contaminados. No caso brasileiro não temos estimativas, mas devido à grande circulação de caminhões para transporte de mercadorias em nossas rodovias e aos vazamentos em sistemas de armazenamento (postos de gasolina, etc), concluí que devíamos nos preocupar com métodos de baixo custo de remediação de áreas contaminadas com petróleo e seus derivados”, explica a pesquisadora.

  Divulgação/Uerj 
      
  Algumas espécies de vegetais se mostraram 
  eficientes aliadas na remediação dos solos
 


No caso da fitorremediação, os experimentos desenvolvidos em conjunto com a Pesagro-Rio já estão adiantados. “Em junho 2008 encerramos a segunda rodada dos testes de toxicidade na fase de germinação e crescimento inicial das plantas. Nesses testes, com concentrações crescentes de óleo no solo, verificamos quais espécies que se mostram tolerantes à presença do contaminante e em quais concentrações” afirma Sérgio Corrêa. “As espécies estudadas incluem plantas nativas de Mata Atlântica, espécies utilizadas na recuperação de áreas degradadas e produtoras de biodiesel, além da braquiária – comumente encontrada em beira de estrada” acrescenta Marcia.

Várias espécies vegetais mostraram potencial para remediação dos solos. Porém o químico Sérgio Corrêa ressaltou os cuidados que devem ser tomados quando espécies comestíveis são utilizadas. Segundo o pesquisador, os testes mostraram o excelente potencial da mamona e do girassol – que além de úteis na despoluição, servem para a produção de biodiesel. Ele acrescenta ainda que a utlização dessas plantas enfraquece a crítica de que a produção de biocombustíveis reduz áreas agrícolas que seriam utilizadas para o cultivo de alimentos. “Nossa pesquisa faz essa tese cair por terra. A mamona e o girassol são capazes de germinar em áreas contaminadas – ou seja, impróprias para a produção de alimentos” explica Corrêa. “A idéia agora é investigar os processos que ocorrem dentro das plantas quando em contato com o óleo lubrificante usado no solo. Para isso, faremos um amplo experimento com vasos de dois quilos em casa de vegetação” completa.

Na área da biorremediação, um novo experimento será conduzido e concluído nos próximos sete meses. Os pesquisadores envolvidos no processo construíram três biorreatores – aparelho usado para simular em escala piloto, pesquisas envolvendo processos biológicos – com capacidade para 200 litros cada. Nos experimentos, em cada um dos aparelhos são colocados partes de solos contaminados com diferentes aditivos e inóculos – inclusive o composto de lixo - para serem testados na degradação dos hidrocarbonetos de petróleo. “Temperatura, umidade e vazão de ar são monitorados regularmente e a cada 30 dias, retiramos amostras para analisarmos os resultados” explica Marcia.

A expectativa dos pesquisadores é que, ao final do estudo, as conclusões sirvam para subsidiar políticas públicas e solucionar danos ambientais. “A idéia é que as secretarias estaduais e municipais de meio ambiente e seus órgãos públicos de fiscalização – como a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), por exemplo, possam no futuro elaborar manuais de procedimento para o caso de vazamentos e acidentes com petróleo e derivados nas estradas, em áreas de processamento do óleo, etc. Com isso, os danos poderão ser solucionados de forma mais rápida e com maior eficácia”, concluem os pesquisadores.

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