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Publicado em: 26/06/2008

Senzala à fluminense

Vilma Homero

 Christiano Junior / MHN

 
   Vendedora de frutas, em 1865 
O roubo de peças era um crime comum no Rio de Janeiro. Verdadeiras redes, que envolviam até mesmo autoridades empenhavam-se em aliciar, seqüestrar e forjar documentos falsos de propriedade, movimentando um lucrativo comércio paralelo. Esta realidade, que nos parece tão atual, retrata o cotidiano nada pacato da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro ao longo do século XIX. As peças em questão eram escravos, itens valiosos para sustentar não só a economia do país como o estilo de vida de uma época que se estendeu do período colonial ao império, e nos legou uma herança de mentalidade que, apesar dos avanços contrários, ainda permanece. É o que revela o estudo do historiador Luiz Carlos Soares, do Instituto de Ciências Humanas, da Universidade Federal Fluminense, e Cientista do Nosso Estado, que recentemente lançou o livro O Povo de Cam na Capital do Brasil: A Escravidão Urbana no Rio de Janeiro do Século XIX.

Em fontes primárias, como jornais, inventários e outros documentos de época, em O Povo de Cam, Soares conseguiu reconstituir um retrato bastante fiel da vida da cidade. O livro, na verdade, foi resultado da tese de doutorado defendida na Inglaterra em 1987 e originalmente escrito em inglês. Embora até tenha se dedicado a outras pesquisas nesse intervalo, só há pouco tempo Soares teve tempo e recursos para traduzir e publicar o trabalho, um alentado volume de 478 páginas, pela Editora 7 Letras. O 'povo de Cam' do título se refere ao mito religioso que fala dos povos do mundo antigo que tiveram origem a partir dos dois filhos de Noé, Sem e Cam. Os semitas, no Oriente Próximo, e os camitas, na África. "Quem utiliza a expressão no Rio de Janeiro é o viajante francês Charles Ribeyrolles, ao se referir à população negra de origem africana que habitava a cidade", explica Soares.

No começo do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro limitava-se mais à área central, que se estendia entre o campo de Santana – o antigo campo de São Domingos e depósito de lixo colonial – passando pelas ruas da Alfândega e pela região que hoje é o Saara, e se estendendo até o Largo do Telles, bem em frente ao Paço Imperial. Em áreas mais distantes ficavam as freguesias de Botafogo, das Laranjeiras, da Tijuca e outras consideradas rurais. No limitado perímetro urbano, chamava a atenção, particularmente dos estrangeiros de passagem pela cidade, o enorme contingente de escravos. Em 1810, o inglês John Luccock comenta, sem disfarçar o desagrado, que "atravessar a área central da cidade por volta do meio-dia, era quase como sentir-se transplantado para o coração da África." Não por acaso, a população de cativos no Rio de Janeiro era a maior da América do Sul, estimada em algo em torno de 110 mil almas que viviam nas freguesias urbanas e rurais do Rio por volta de 1850.

Como observa Soares, a manutenção da escravidão levava a certas distorções na vida da cidade. Trabalhar era considerado indigno às classes superiores, verbo conjugado apenas pela população escrava, responsável não só pela produção das grandes lavouras como pela execução de serviços domésticos, do comércio ambulante e de diversas atividades artesanais. "Se as famílias mais abonadas orgulhavam-se de seu ócio, mesmo aqueles não tão afortunados preferiam passar privações, ou recorrer à caridade, a encarar um ofício que os sustentasse", conta o historiador.

Christiano Junior / MHN       

                             
                        O fotógrafo português Christiano Junior registrou inúmeros dos tipos
                          frequentemente vistos nas ruas do Rio de Janeiro do século XIX

 

 

 

 

 

 

 

Em maior ou menor número, possuir escravos traduzia o status social. Em algumas casas, seu número era tão excessivo que chegavam a obstruir o espaço doméstico. Como observou o pintor naturalista Rugendas, em muitos casos, eles constituíam "um artigo de luxo, antes inerente à vaidade do senhor do que às necessidades da casa". E como "artigo de luxo", eram também objeto de ostentação, servindo para exibir a riqueza de seus proprietários. Em casas ricas, podiam ganhar roupas caras, com as quais saíam a passeio com seus senhores, tal como retratado por Debret ou pelo próprio Rugendas em seus flagrantes do cotidiano fluminense. O tratamento a eles dispensado também costumava ser proporcional às condições sociais de cada proprietário – os de maiores posses tratavam melhor seus cativos, procuravam mantê-los bem alimentados e vestidos, até por uma questão de status. Entre a população mais pobre, não havia tais cuidados.

Havia outras peculiaridades. Na área urbana, por exemplo, na inexistência de grandes senzalas, nem sempre era possível acomodar os escravos em casa. Assim, conta Soares, era comum que um bom número de cativos, particularmente os escravos de ganho – que mercadejavam pelas ruas para seus donos – morassem sob sua própria responsabilidade. Na prática, isso significava que os que conseguiam alguma renda alugassem instalações em cortiços ou estalagens, e, na falta de dinheiro, simplesmente dormissem na rua. A mesma prática valia para a alimentação.

Para permanecer na inatividade, vários senhores também tratavam de explorar os escravos em atividades lucrativas, além do serviço doméstico. Para muitos era uma questão de necessidade de renda para sustentar seu modo de vida. O que se tornou ainda mais comum na segunda parte do século XIX. Todos os possíveis talentos e habilidades da mão-de-obra cativa – doceiras, amas, lavadeiros e engomadeiros, carpinteiros ou marceneiros, ou mesmo serviços mais especializados, como tanoeiros ou ferreiros – podiam ser alugados, como se constata nos muitos anúncios publicados nos jornais da época. Na falta desses predicados, entravam outros: muitas jovens negras bonitas, por exemplo, eram forçadas à prostituição, atividade considerada rendosa mesmo por devotas senhoras católicas, que no pragmatismo de auferir lucro com o trabalho alheio, não viam qualquer contradição com suas crenças religiosas. Mesmo escravos considerados imprestáveis podiam render alguma coisa, colocados a esmolar pelas ruas, muitas vezes expondo os aleijões resultantes do excesso de trabalho ou dos castigos de seus donos.

 Christiano Junior / MHN

 
Escravo barbeiro em atividade 

Mas havia escravos e escravos. Mesmo entre os cativos, predominava uma certa hierarquia. "Aqueles que pertencessem, por exemplo, à família imperial e trabalhassem no Paço estariam no topo dessa pirâmide", explica o historiador. "Escravos domésticos também tinham mais status e eram mais bem tratados que os da lavoura; e os de famílias ricas e medianas estavam mais bem situados do que os demais. Esse tratamento diferenciado podia tornar estes cativos mais leais a seus proprietários. Com isso, os senhores acabavam utilizando-os como anteparo contra rebeliões", explica Soares. Ele comenta ainda que, além da legislação municipal (código de posturas) e da ação policial, essa era mais uma das várias estratégias de controle sobre uma população tão numerosa. Outra era o cuidado dos proprietários em buscar a diversificação de seus plantéis. "Ao adquirir novas peças, eles procuravam escravos de diferentes etnias, visando dificultar-lhes a comunicação e evitar insurreições", diz Soares. O exemplo do que havia ocorrido com a revolta dos malês – que por dois dias, em 1835, tomaram a cidade de Salvador, na Bahia – chegou a fomentar no Rio diversos boatos de supostas revoltas escravas naquele mesmo ano.

Não era um temor sem motivo. Pequenas e localizadas revoltas aconteciam e eram duramente reprimidas. "Numa de suas incursões a Santa Teresa, em 1820, o major Vidigal desceu o morro trazendo acorrentados mais de 200 escravos, capturados num dos quilombos que existiam naquela região, que se estendia até Laranjeiras", conta. Há ainda vários outros pequenos episódios, como o motim numa caldeiraria no Centro, em que 14 escravos resistiram à polícia com armas e instrumentos de trabalho. "Outra forma de rebeldia permanente, era a capoeira, misto de dança e luta a que se entregavam muitos escravos e libertos, particularmente na primeira metade do século XIX", cita o historiador. Embora fora do âmbito urbano e, portanto, do livro de Soares, outro exemplo conhecido foi o famoso quilombo fluminense de Manuel Congo, que existiu na região de Paty dos Alferes, em 1830, e terminou dominado pela força militar liderada por Luís Alves de Lima e Silva. Segundo o autor, por "bons" serviços como esse, Lima e Silva receberia mais tarde o título de nobreza pelo qual se tornaria conhecido, duque de Caxias.

Com a promulgação da Lei Áurea, a mentalidade escravista pouco mudou. "Preteridos pela mão-de-obra imigrante e reduzidos ao desemprego, subemprego e funções mal-remuneradas, muitos negros e mulatos não tiveram alternativa, senão viver na vadiagem e na criminalidade", conta Soares. Com isso, perduravam estigmas e preconceitos que tinham como alvo a tonalidade da pele. Em que prevalecia a idéia de que eram a incapacidade ou a indolência que caracterizariam a população negra – só obrigada ao trabalho pelo estalar do chicote.

"A sobrevivência dessas práticas discriminatórias passa por uma ideologia de não integração dessa população negra a um sistema socioeconômico mais eqüitativo", analisa o historiador. Embora venham diminuindo pelo avanço das lutas pela plena integração social, várias pistas dessa mentalidade discriminatória ainda são visíveis, como o quarto de empregada e o elevador de serviço, que evita que as pessoas se misturem. "Hoje, os descendentes de escravos são mantidos em guetos sociais, onde o negro é maioria, como as comunidades de baixa renda. Agora, como bem mostra a música do Lobão, a favela é a nova senzala."

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