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Publicado em: 19/06/2008

Sem maus costumes ou a mulher invisível

Roni Filgueiras

Era uma vez uma jovem que sonhava estudar medicina. Sem recursos suficientes, ela ganhou a adesão

        Reprodução/ jornal de época

         
   A médica Maria Estrella em 1879 
de um patrocinador. Detalhes de
sua vida particular e acadêmica foram acompanhados em capítulos pela imprensa que matava a sede de um público ávido pela verdadeira saga que se tornou a trajetória da jovem carioca. Parece cena de Big Brother do século XXI? Pois a história de Maria Augusta Generoso Estrella, a primeira médica brasileira, formada em Nova York, e que ganhou as páginas dos jornais, se passou no ano de 1879.

Maria Estrella – e mais tarde, também, Rita Lobato Velho Lopes, primeira médica formada no Brasil pela Faculdade de Medicina da Bahia – transformou-se em fenômeno de mídia justamente pelo ineditismo da façanha (as faculdades brasileiras não aceitavam o ingresso de mulheres), que angariou a simpatia e os cobres da Coroa, e também por ser um desvio do padrão de comportamento da mulher da época. Sua biografia foi publicada na seção “O Folhetim” do Echo das Damas

A pesquisa "Representações no Discurso Midiático: Identidade e Memória do Gênero Feminino na Imprensa do Início do Século XIX", coordenada pela  professora Lúcia Maria A. Ferreira, do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), é um trabalho de fôlego que revela de maneira saborosa e fundamentada como a imprensa – que surgia com força a partir da chegada da Corte portuguesa – ajudou a balizar o comportamento da mulher, principalmente, a livre e plebéia. "A conclusão do trabalho é que, independente da linha editorial, rígida ou progressista, a imprensa atuou de maneira a persuadir a mulher a se enquadrar nos padrões católicos e normatizados, de um modo geral."

Os modos e costumes, assim como o modelo de imprensa, seguiam o que era ditado pela Europa e pela nobreza. "O surgimento da imprensa periódica, em 1808, coincide com as primeiras medidas tomadas pelas autoridades portuguesas no sentido de estimular as atividades culturais, criando academias, bibliotecas, instituições científicas”, descreve. “Foram, portanto, inauguradas novas práticas sociais e é nesta perspectiva que os discursos divulgados pelos primeiros jornais brasileiros participaram da construção de novos sentidos e representações", diz Lúcia.

Mesmo a imprensa que propunha linhas editoriais mais progressistas, acabam por corroborar que a mulher devia servir a um fim maior: a do bem-estar do país, do lar e da sociedade. Um exemplo disso é o jornal Semana Ilustrada, que usava imagens, como caricaturas e charges, e mantinha uma linha mais contestadora, ironizando inclusive a prática do dote. "Na Semana Ilustrada, entre 1869 e 1873, a mulher toma decisões, não é submissa, tem desejos, é uma esposa brava, que briga com o marido se ele sair da linha". Mas quem encarna esta anomalia de comportamento é a mulher feia, salienta Lúcia.

"A nobreza européia se estabelece como modelo de atualidade, condizente com a vontade de modernização da vida social e política vigente na época", diz Lúcia. Um exemplo da força dessa influência emergente é um anúncio publicado na Gazeta do Rio de Janeiro, em março de 1816: "Girard, Cabelleireiro de Sua Alteza Real a Senhora D. CARLOTA Princeza do Brazil, de Sua Alteza Real a Princeza de Galles, e de Sua Alteza Real a Duqueza de Angouleme; Pentêa as Senhoras na ultima moda de Paris e de Londres; corta o cabello aos Homens e ás Senhoras."

Já as escravas só são dignas de registro como moeda de troca. São meras mercadorias e ganham espaço nos jornais na seção de anúncios como este publicado na Gazeta do Rio de Janeiro, em janeiro de 1814: "Quem quizer comprar huma ama de leite com sua cria, falle com D. Anna Joaquina, na rua das Marrecas n 15." "Escravas eram descritas por suas funções de trabalho, quando em anúncios, ou por traços depreciativos, quando fugitivas, ou sem grande destaque, nas demais partes dos jornais", conta a pesquisadora. "Já as nobres eram expostas como pessoas 'distintas', para citar um tratamento que aparece com freqüência no período."

Segundo Lúcia, a mulher plebéia e livre é quase invisível, aparece principalmente na posição de viúva, que aluga ou vende algum imóvel e em anúncios que remetem à sua função de educadora, mantenedora do lar e cuidadora. Anúncios apregoando as qualidades educacionais dessas senhoras tornaram-se uma prática comum, e não raro com alusões às relações mantidas com a nobreza: "D. Catharina Jacob toma a liberdade de fazer sciente ao Publico, que ella tem estabelecido huma Academia para instrucção de Meninas na rua da Lapa, defronte da Exma Duqueza, em que ensinará a lêr, escrever e fallar as linguas Portugueza, e Ingleza Grammaticalmente; toda a qualidade de costura e bordar, e o manejo da Caza. Está esperançada que, em consequencia do seu cuidado, e attenção na educação, Religião, e Moral, merecerá eternamente a protecção dos Pais, parentes, e pessoas, que lhe confiarem esta honra."

A pesquisadora nota uma mudança mais radical já em 1835, quando o Rio se torna destino de companhias artísticas vindas da Europa e de países vizinhos e do crescimento de revistas e jornais endereçados às mulheres. As cantoras, bailarinas e atrizes estrangeiras, mulheres livres e boêmias, são alvo de críticas e de admiração por seus hábitos pouco convencionais. "Estas mulheres, referidas como "Damas", se destacavam bastante nas peças de teatro, que eram "bastante aplaudidas". Estas mulheres eram em sua maioria estrangeiras, que vinham acompanhando as grandes companhias teatrais que se apresentavam no Rio.

O jornal O Bello Sexo, que circulou entre 1858 e 1868, tinha o público feminino como alvo e a linha editorial enfatizava a religiosidade, a instrução e o lazer feminino. "Se, por um lado, o jornal critica a mulher fútil, frívola, grande consumidora dos romances açucarados, também delineia o perfil de uma leitora intelectualizada, às vezes exaltada, que lê Platão, Homero e Virgílio, entre outras obras da filosofia. Nos discursos publicados, pode-se perceber que a justificativa dada para a não participação das mulheres nas letras e nas ciências embasa-se na consideração de que a constituição feminina, "sensível e frágil aos sofrimentos sociais", propiciou o definhamento intelectual e favoreceu o "despotismo masculino sobre a mulher".  

 Reprodução/ jornal de época

      
Nos jornais do século XIX, a maternidade é exaltada  

Já o jornal Sexo Feminino" surgiu da iniciativa da mineira Francisca Senhorinha da Mota Diniz, mulher culta e indignada com a submissão feminina. A bandeira do periódico era a emancipação social da mulher. Em artigo de outubro de 1873, Francisca escreve:"Queremos nossa emancipação e a regeneração dos costumes. Queremos a instrucção pura para conhecermos nossos direitos, e delles utilizarmos em ocasião opportuna. Queremos conhecer os negócios de nosso casal para bem administrarmos quando a isso formos obrigadas. Queremos enfim saber o que fazemos, o porque o pelo que das cousas. Queremos ser companheiras de nossos maridos e não escravas. Queremos saber o como se fazem os negócios fora de casa. Só o que não queremos é continuar a viver enganadas."

"As críticas são direcionadas à futilidade e à preocupação excessiva com a aparência e a beleza no espaço público. Há textos que também abrangem a formação educacional. Nestes, há a veiculação de três perfis femininos: a erudita exaltada e ridicularizada socialmente, a mulher ignorante que nada pode oferecer à sociedade, e a mulher educada consciente dos problemas e dos deveres do seu sexo", comenta Lúcia, que coordenou os trabalhos dos pesquisadores Cynthia Turack, Monalisa Pavonne Oliveira, Josiane Alcântara, Hendy de Melo, João Escosteguy Filho, Jorwan  da Costa Júnior e Carolina de Oliveira Rocha.

Uma das primeiras revistas de moda editadas em português, A Estação foi publicada no Rio de Janeiro, entre 1879 e 1904. O projeto gráfico e a linha editorial seguiam os moldes da francesa La Saison. "Outra seção, que também acompanha a apresentada no parágrafo anterior, é a intitulada Conselhos ás Mulheres. Essa seção apresenta às suas leitoras dicas de como portar-se socialmente, delineando um perfil de mulher ideal, como aparece na edição de 15 de fevereiro de 1898:

"A mulher que quer ser estimada deve ser fiel e generosa em suas amizades: sincera com todos. Se nasceu violenta, arrebatada, fácil de se deixar dominar pelo primeiro impulso, que se corrija; deve saber quanto vale a doçura; esta qualidade tão feminina contribui para a felicidade d'aquella que a possui e das pessoas que a cercam. Deve também reconhecer que a falta de reflexão, de exame, antes da palavra ou da ação, pode causar grandes desgraças". (A ESTAÇÃO, ano. XXVII, n.4, p. 18, 15 fev. 1898).

A urbanização do Rio de Janeiro fomentou o processo de liberação feminina, pois propiciou a inserção das mulheres em novos espaços de sociais. "Com isso, elas delegavam a função materna a escravas, mucamas ou amas-de-leite que tinham a responsabilidade de cuidar das crianças brancas. O comportamento delas era reprovado pelos reformadores sociais. O grupo composto por moralistas, advogados, políticos e, no caso específico desta pesquisa, médicos, fazia circular um discurso a favor da maternidade. No periódico A Mãi de Familia, os sentidos sobre a maternidade mantinham vínculos com os modelos científicos estrangeiros de explicação da sociedade encontrados nos discursos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro."

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